Cigano mira o boxe e projeta caminho após estreia do UFC pela MVP

Junior dos Santos, ex-campeão peso-pesado do UFC, será um dos nomes principais do primeiro card de MMA da Most Valuable Promotions (MVP) em 16 de maio, em Inglewood, na Califórnia. O “Cigano” encara Robelis Despaigne ao vivo na Netflix e enxerga esse compromisso como a chance de abrir caminho para um sonho antigo: estrear no boxe profissional.

Antecedentes

“Cigano” construiu uma trajetória de destaque dentro do UFC, com vitórias por nocaute sobre nomes como Cain Velasquez, Fabricio Werdum, Frank Mir e Derrick Lewis. Apesar disso, ele ficou quatro anos sem competir no formato tradicional do esporte. Nesse período, Dos Santos voltou suas atividades para o MMA sem luvas (bareknuckle), realizando duas lutas e saindo vitorioso em ambas, superando Alan Belcher e Werdum.

Com a MVP programando sua entrada no MMA em 2026, incluindo um evento principal com Ronda Rousey e Gina Carano, Junior dos Santos recebeu uma proposta para enfrentar o veterano de UFC Jailton Almeida. A alternativa não avançou, e ele acabou assinando um contrato de luta única para encarar Despaigne, um especialista conhecido por poder de finalização no peso-pesado.

O acordo também chamou a atenção do lutador por conta das ligações da MVP com o boxe. A empresa vem promovendo, por exemplo, eventos ligados a Jake Paul, e isso pesou no interesse do “Cigano” no projeto. Dos Santos ressaltou ainda a atenção que mantém em relação a Jake Paul, que também tem seguido para o peso-pesado.

Em declarações recentes, o brasileiro afirmou que a ideia de um futuro no boxe já estava presente quando assinou com a MVP. Ele citou a possibilidade de uma luta envolvendo Francis Ngannou no circuito de boxe e disse acreditar que o camaronês estaria mais motivado a buscar esse tipo de confronto após não concretizar um duelo com Jake Paul. Dos Santos também mencionou que, caso Ngannou queira, uma revanche ou um combate direto entre eles no boxe seria algo “sensacional”.

Junior dos Santos já havia provocado Jake Paul anteriormente, inclusive antes de o youtuber marcar uma luta de boxe contra Anthony Joshua. No MMA, porém, o “Cigano” perdeu para Ngannou em 2019, quando vinha em uma sequência de resultados positivos contra Lewis, Tai Tuivasa e Blagoy Ivanov. Sobre aquele confronto, ele comentou que a luta foi rápida e que o erro cometido custou caro, reconhecendo o mérito do adversário, mas reforçando que uma nova disputa — desta vez no boxe — seria um duelo bastante interessante.

O ex-campeão também disse que teria interesse em enfrentar Ngannou em um futuro evento de MMA da MVP, mas afirmou que o foco no boxe parece ser prioridade tanto para ele quanto para o rival.

A luta

Dos Santos explicou por que prefere o boxe e por que a luta contra Despaigne, em um evento da MVP, faz sentido nesse momento. Ele afirmou que o confronto tende a ser ainda mais atraente para o público no boxe, justamente pelo tipo de impacto que Ngannou tem — “mãos pesadas” e força absurda — e argumentou que o apelo comercial do boxe poderia ser maior do que no MMA.

Sobre sua própria capacidade, Junior dos Santos declarou que acredita não existir alguém com características mais “puras” de boxe do que ele. Segundo o brasileiro, essa era uma vontade antiga: em 2012, quando se tornou campeão do UFC, ele já tentava encaminhar uma oportunidade no boxe e chegou a desafiar Wladimir Klitschko, então campeão dos pesos-pesados na modalidade. Ele também comentou que, na época, o tema não ganhava a mesma atenção que recebe hoje em dia.

O veterano de 42 anos ainda apontou que se preparar e lutar em MMA é “mais chato” para quem vem predominantemente do boxe, pois existe a preocupação constante com tentativas de queda e chutes. Mesmo gostando da trocação, ele ressaltou que o MMA muda completamente o jogo: além de golpes, o atleta precisa lidar com chutes e com o risco de derrubada o tempo todo.

Ao falar especificamente sobre Robelis Despaigne, Dos Santos disse que a escolha pelo adversário — em vez de Jailton Almeida — deixa a luta mais interessante para o evento e para os fãs. Ele descreveu o oponente como um lutador de envergadura longa, com dificuldades diferentes, além de velocidade para o tamanho que tem. Junior dos Santos também destacou que Despaigne trabalha bem golpes retos.

Para o brasileiro, o tipo de confronto que o público gosta é exatamente esse: “dois gigantes” acertando um ao outro e tentando nocaute um ao outro. E ele reforçou que, se o combate virar uma batalha de trocação — algo que ele afirmou amar — a empolgação aumenta para entregar um bom espetáculo.

Dos Santos acrescentou que treina tudo, porque no MMA qualquer cenário pode acontecer. Ele conectou esse raciocínio ao motivo de buscar o boxe: a intenção é reduzir parte das variáveis do MMA. Ainda assim, o “Cigano” exemplificou que, mesmo em lutas recentes, o imprevisto pode surgir — citando o último compromisso pelo cinturão no Gamebred, quando quebrou o nariz. Segundo ele, houve um momento inicial de pânico, mas ele conseguiu se reorganizar mentalmente e lembrar do ajuste para respirar pela boca, mantendo o ritmo. Ele afirmou que seguiu em frente, mas também percebeu que um novo impacto direto no nariz poderia complicar a situação, então optou por levar Alan Belcher para o chão e trabalhar na parte de grappling.

Na visão do brasileiro, não existe caminho “fácil” em lutas, apenas estratégias mais inteligentes. Ele comparou a escolha do plano ao conceito de explorar as fraquezas do oponente e disse que, em uma “guerra” dentro do octógono, o atleta precisa estar pronto para isso.

O pós-luta

Junior dos Santos fará o papel de protagonista em um novo capítulo da carreira: ele já foi o headliner do primeiro card do UFC exibido ao vivo pela FOX, em 2011, quando nocauteou Velasquez para conquistar o cinturão peso-pesado. Agora, terá a oportunidade de competir ao vivo na Netflix, em mais um formato que mira ampliar o alcance do esporte.

Após 23 aparições no octógono ao longo de mais de uma década, o “Cigano” acredita que a MVP pode encarar a “cara a cara” com o UFC e buscar uma fatia do mercado usando a Netflix como parceira de transmissão. Ele disse não acreditar que exista alguém capaz de competir com a força do UFC desde que a organização tomou conta do cenário, mas ponderou que a entrada da concorrência do jeito que está sendo colocada no ar pode ser altamente favorável para o esporte, inclusive com efeitos positivos para os atletas.

Dos Santos afirmou que, quando um grupo controla tudo e é dominante, esse controle tem valor, mas também exige manter o domínio em todas as frentes, sobretudo quando se trata dos atletas. Ele completou que, quando um lado começa a fazer as coisas melhor, o outro acelera para melhorar também, e é esse tipo de disputa que torna tudo mais forte no mercado como um todo. Na avaliação dele, o resultado aparece no mundo atual e ele vê a chegada da MVP com otimismo.

Ele também disse que ficou empolgado com o que a empresa vem fazendo: quebrando barreiras, abrindo espaço para eventos grandes e demonstrando disposição para construir algo relevante. Para Dos Santos, a assinatura de contrato de luta única se relaciona ao modelo mais próximo do boxe, no qual cada confronto tem um peso próprio. No UFC, segundo ele, contratos longos podem prender o atleta por um período enquanto a organização mantém alto nível de controle. No boxe, cada luta define a “cotação”: se vence, sobe; se perde, cai; e o atleta colhe as consequências do resultado na próxima oportunidade.

Por fim, o ex-campeão expressou entusiasmo com as possibilidades do “crossover” entre boxe e MMA, além de outros esportes, e declarou que espera que a MVP siga forte no MMA. Ele reforçou que a Netflix tem presença global e grande influência no mundo, e argumentou que contar com o MMA nesse ambiente é extremamente importante.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.