Segurem firme: o caminho dos pesos-pesados no UFC pode seguir cheio de irregularidades por um bom tempo. E, nos bastidores, a situação parece ainda mais explosiva do que dentro do octógono.
- Resultado do cinturão interino: Alex Pereira enfrenta Ciryl Gane pela disputa do título provisório no UFC Freedom 250.
- Campeão e retorno adiado: Tom Aspinall, campeão dos pesos-pesados, permanece afastado após luta contra Gane no ano passado.
- Luta anterior de referência: Na disputa de Aspinall vs. Gane, o britânico sofreu “pokes” nos dois olhos, o que resultou em “no contest” e em cirurgias para recuperação.
- Cartel e retrospecto (fonte): Tom Aspinall (15-3 MMA, 8-1 UFC); Ciryl Gane (13-2 MMA, 10-2 UFC); Alex Pereira (13-3 MMA, 10-2 UFC).
- Motivo da ida ao peso-pesado: Pereira abriu mão do título do peso-meio-pesado para buscar o lugar no topo da categoria.
Pereira e Gane brigam pelo interino no UFC Freedom 250
Uma definição mais clara deve chegar em pouco mais de uma semana, quando Alex Pereira subir ao octógono para enfrentar Ciryl Gane pela disputa do cinturão interino no UFC Freedom 250. O brasileiro mira um marco histórico: conquistar um título em uma terceira divisão no UFC, algo que o colocaria em uma posição raríssima no cartel da organização.
O cinturão interino existe justamente porque o campeão da categoria, Tom Aspinall, ainda não voltou. O inglês segue sem liberação completa para retornar após a luta contra Gane, travada no ano anterior, na qual ocorreu um episódio decisivo: Aspinall acabou atingido nos dois olhos com golpes ilegais, o que levou ao resultado de “no contest”. A partir disso, o atleta precisou passar por cirurgias para recuperar a visão e, mesmo após o intervalo, ainda não estaria totalmente apto a competir.
Com esse cenário, Pereira decidiu subir de categoria e buscar a oportunidade em cima da ausência do campeão. Para isso, ele tornou público o movimento de deixar vago o título do peso-meio-pesado, abrindo mão do cinturão para entrar na disputa interina no peso-pesado.
Unificação era o plano, mas a treta fora do octógono ganhou força
Na prática, a expectativa era de que o vencedor de Pereira contra Gane enfrentasse Aspinall mais adiante no ano, com o objetivo de unificar os cinturões e reorganizar o topo da divisão. Só que, como costuma acontecer no MMA, a história não segue apenas uma linha reta. A razão é que a relação entre Aspinall e a estrutura do UFC fora do octógono passou a ser tratada como um elemento de instabilidade.
Durante o período de recuperação do problema nos olhos, Aspinall teria despertado a insatisfação de nomes importantes da organização, incluindo o CEO Dana White. Em diferentes momentos, a postura pública de White deu a entender que ele colocava em dúvida a gravidade dos golpes que levaram às cirurgias, mesmo com a necessidade de múltiplas intervenções para que o atleta pudesse se recuperar.
Depois, no meio do vai e vem envolvendo White em conversas públicas nas redes sociais e também na imprensa, com participação do promotor britânico Eddie Hearn, Aspinall deu mais um passo fora das quatro linhas: assinou com a Matchroom Talent Agency, braço em desenvolvimento ligado ao grupo de Hearn. Na leitura do mercado, isso tende a colocar Hearn como um negociador central nas conversas envolvendo o futuro profissional do lutador dentro do UFC.
Hearn afirma que não deixará Aspinall lutar sem novo acordo
Em uma coletiva realizada na sexta-feira em Dublin, no contexto do evento do boxe de Katie Taylor, que acontece em setembro no Croke Park, Eddie Hearn foi direto ao ponto ao tratar do destino de Tom Aspinall. Segundo o promotor, se ele estiver fazendo seu trabalho, não haverá uma luta de Aspinall contra o vencedor de Pereira ou Gane — ao menos não sob as condições atuais do contrato vigente.
Hearn declarou que não pretende aceitar que o cliente aceite o tipo de remuneração que estaria previsto no acordo para um combate desse porte, especialmente considerando o tamanho do evento e o potencial de receita envolvido. Ele ainda criticou a lógica de pagamento apontando que lutadores estariam sendo tratados de forma desvantajosa e afirmou que os atletas mereceriam uma divisão melhor do valor gerado.
De forma ainda mais enfática, o promotor orientou Aspinall a não aceitar a luta pelo dinheiro estipulado no contrato atual. Na fala atribuída a Hearn, ele colocou que o britânico é uma das maiores estrelas do UFC e que o confronto com Pereira ou Gane seria um dos grandes combates que a organização poderia produzir — reforçando, ao mesmo tempo, que a contrapartida financeira deveria acompanhar esse peso.
Conflito entre White e Hearn pode relembrar um capítulo recente
Como Dana White e Eddie Hearn já se enfrentaram em público em diferentes momentos, a ponto de terem comentado uma possível luta de boxe entre eles, os recados de Hearn na última sexta-feira soaram como o começo de uma nova turbulência dentro da divisão de pesos-pesados. E a preocupação é que esse tipo de atrito siga um padrão conhecido: um impasse contratual pode acabar afastando o lutador do UFC em busca de melhores condições.
Essa comparação ganha força porque não faz muito tempo que Francis Ngannou deixou a companhia após discussões que não avançaram, principalmente com White. Na sequência, Ngannou fechou com a PFL, onde acumulou uma luta em MMA e ainda disputou dois combates de boxe. Além disso, ele também lutou em um evento ligado ao debut de MVP no MMA, em uma iniciativa que reforçou a ideia de que existem oportunidades e pagamentos fora do UFC.
O futuro dirá se o caso de Aspinall seguirá uma trajetória parecida, mas as declarações de Hearn começam a desenhar um cenário nessa direção, com o controle da negociação deslocando ainda mais para o lado do promotor.
Hearn diz que torcedores vão se revoltar com o valor proposto
Em outro trecho das falas, Hearn voltou a insistir no argumento do dinheiro como ponto central. Ele afirmou que, com o tempo, seria possível expor números que fariam fãs ficarem “enojados” com a remuneração esperada para Aspinall em uma luta do tamanho descrito — considerando a receita que existiria em um confronto desse nível. Na visão do promotor, não se trata de ser “injusto” ou “exagerado” nas exigências, mas sim de reconhecer que o atleta não precisa aceitar uma condição que, segundo ele, seria inadequada para o momento e para as circunstâncias.
Hearn também relembrou o risco que Aspinall correu ao quase perder a visão e citou que ele teria passado por quatro procedimentos cirúrgicos nos olhos. A partir disso, o promotor questionou a lógica de voltar para uma luta de alto risco com uma remuneração praticamente “irrisória”, especialmente em uma revanche envolvendo um adversário de grande apelo.
Por fim, ele reforçou que fará o que estiver ao alcance para impedir que a situação aconteça do jeito que estaria previsto. A mensagem final foi que, ainda que o atleta seja lutador e queira competir, o contexto de recuperação e o tamanho do combate exigiriam uma negociação diferente.

