Ronda Rousey e Gina Carano se enfrentam neste sábado, em um duelo de cinco rounds que reacende o clima nostálgico de uma era em que o MMA feminino ganhava força na marra. A luta acontece na Califórnia, em um evento promovido pela Most Valuable Promotions e que terá transmissão ao vivo pela Netflix. As duas pioneiras do esporte chegam ao combate depois de meses de preparação, compartilhando um elo curioso nos bastidores: o treino conjunto com a brasileira Jacqueline Cavalcanti, atleta do UFC na categoria dos galos.
Cavalcanti chega ao duelo como uma das referências do momento dentro do MMA. Ela aparece invicta nas cinco apresentações que fez no UFC e ocupa a nona posição no ranking global de MMA da MMA Fighting Global Rankings. Em julho de 2025, Rousey a chamou para fazer sparring em Las Vegas. A parceria, no entanto, passou por interrupções: em alguns momentos, a lutadora acabou sendo convocada de novo, mas não conseguiu treinar com a ex-campeã do UFC por conta de uma lesão no punho em uma oportunidade, e em outra ocasião ficou impossibilitada por estar fora da cidade.
Em conversa recente, Jacqueline explicou como a coincidência virou assunto nos bastidores. Segundo ela, tudo começou quando já havia feito treino com Rousey e, pouco depois, Gina Carano também passou a trabalhar no mesmo ambiente. A brasileira relembrou que, após ter feito sparring com Rousey, viu Gina começar a treinar em seguida, o que a fez perceber que as coisas estavam se conectando “na mesma linha do tempo”, como se a história estivesse prestes a se encaixar.
Enquanto o enredo se desenrolava, Cavalcanti seguia com seu próprio compromisso no calendário. Neste sábado, no Meta APEX, ela enfrenta a bem ranqueada Ketlen Vieira em mais um compromisso do UFC Vegas 117. Antes mesmo de o grande anúncio sobre Rousey e Carano se concretizar, Jacqueline já tinha ouvido informações de que as duas estavam trabalhando para um confronto em uma espécie de retorno duplo. Com isso, ela acabou recusando uma nova investida para treinar com Rousey, justificando que não conseguiria participar dos dois lados ao mesmo tempo.
Jacqueline detalhou que, quando soube que Rousey realmente enfrentaria Gina Carano e que a própria Carano estaria treinando com ela no Syndicate, ficou claro para ela que seria inviável continuar com o mesmo plano de sparring. Nas palavras da lutadora, ela não poderia “ficar em ambos os lados da cerca”, já que a preparação exigia foco total no contexto em que estava inserida.
O momento também tem peso histórico. Rousey não lutava desde dezembro de 2016, quando perdeu para Amanda Nunes. Já Carano vinha de um longo intervalo: sua última aparição ocorreu em 2009, quando sofreu uma derrota para Cris Cyborg no cage do Strikeforce. A intenção era que Carano voltasse dois anos depois, mas seu retorno acabou cancelado por motivos médicos envolvendo o confronto contra Sarah D’Alelio.
Cavalcanti estreou no MMA profissional em 2018, ou seja, bem depois do auge e da saída de cena das duas. Ainda assim, ela afirma que conhece a importância de Rousey e Carano para o esporte e que acompanhava o cenário mesmo à distância. A brasileira disse que já tinha visto Gina Carano lutar contra Cris Cyborg e que, na época, era admiradora da trajetória da própria Cyborg. Ela recordou que, quando encontrou Carano no Syndicate, foi apresentada oficialmente e percebeu que a atleta parecia diferente do que imaginava, ressaltando a mudança no corpo em relação ao passado e o fato de que, mesmo já treinando, ainda estava retomando o ritmo de combate.
Nos meses anteriores ao anúncio oficial do confronto, Rousey e Carano já trabalhavam no mesmo ambiente de preparação e Jacqueline teve a oportunidade de interagir com ambas, ainda que por um período curto no caso de Rousey. A lutadora brasileira afirmou que, na leitura dela, Rousey não “mudou” no que diz respeito ao que sempre foi sua base: a capacidade de encurtar distância, as transições com o repertório de judô e, em seguida, o caminho para o chão com o jiu-jitsu. Jacqueline também ponderou que, por se tratar de uma sessão inicial de retorno, Rousey ainda estava readquirindo o condicionamento específico de luta, algo que faz diferença até para quem está em forma.
Ela destacou que bater em alvos e fazer drills não é a mesma coisa que sparring. No treino vivo, a exigência sobre o cardio é muito maior, e isso pesa tanto no componente mental quanto principalmente na respiração, fazendo com que, em alguns momentos, Rousey precisasse de mais tempo para recuperar entre os rounds. Ainda assim, do ponto de vista técnico, Cavalcanti disse enxergar a ex-campeã “afiada”, com fundamentos presentes e capacidade de execução intacta.
Jacqueline seguiu comparando os dois estilos e reforçou a ideia de que, depois de consolidado, um aprendizado desse tipo não sai de cena. Ela citou que o judô de Rousey é “muito bem ajustado”, com tudo encaixado. Sobre a questão de força e potência, a brasileira admitiu não ter treinado com a atleta exatamente em seu auge, então não sabe como era o nível de potência daquele período. Porém, no cenário atual, quando colocou as duas frente a frente, ela acredita que estão em patamares parecidos, com a ressalva de que Gina é mais velha e Rousey é alguns anos mais jovem, mas a diferença, no entendimento dela, não seria grande a ponto de alterar o equilíbrio do confronto.
Rousey também trouxe informações recentes sobre o caminho até o combate. A ex-campeã relatou que conversou com o CEO do UFC, Dana White, sobre a luta contra Carano, mas que “não exatamente funcionou” dentro da organização. A partir disso, ela acabou chegando a um acordo com a Most Valuable Promotions, de Jake Paul, e com a Netflix, fechando assim a volta ao octógono em outro formato de negociação e distribuição.
Para Jacqueline, o retorno de Rousey e Carano pode beneficiar diretamente o MMA, principalmente no público feminino. A brasileira acredita que a Netflix tem alcance enorme e deve atrair espectadores que talvez nunca tenham acompanhado o esporte, com destaque para o MMA feminino, que segue em crescimento acelerado. Ela admitiu que ainda existe predominância masculina na audiência, mas afirmou que o cenário tem mudado: as mulheres vêm ganhando mais oportunidades, mostram técnica e também inteligência de luta, o que ajuda a elevar o interesse geral. Além disso, Jacqueline citou o investimento como fator determinante para abrir portas.
Na avaliação dela, a estrutura por trás do projeto deve estar pagando quantias relevantes. Jacqueline disse que, para Rousey sair de casa e voltar para lutar diante do público, o retorno financeiro precisa ser “muito, muito” bom. A expectativa é que os contracheques sejam excelentes, mas, além do impacto individual, o efeito colateral positivo tende a ser maior: mais pessoas seguindo o esporte, mais espaço para patrocinadores e mais interesse de investidores não apenas no MMA feminino, mas no MMA como um todo.

