Jake Matthews quase finaliza Magny e revela como a pausa mudou tudo

Jake Matthews viveu, na luta mais recente, um daqueles episódios raros e tensos que ficam marcados na memória do fã — e que, mesmo com o tempo passando, ainda seguem mexendo com a forma como ele encara o próprio preparo. Pouco antes do fim do primeiro round do confronto contra Neil Magny, o australiano acreditou estar encaminhando uma vitória por finalização, mas a arbitragem interrompeu a comemoração e mandou o combate seguir, cenário que acabou afetando o desfecho.

Antecedentes

Na ocasião, Matthews chegou ao clímax do primeiro assalto acreditando que teria conseguido impor uma finalização. Ele estava preso em uma guilhotina montada enquanto o cronômetro se aproximava do final do round. O locutor indicou a marca dos dez segundos restantes, e, na transmissão, houve reconhecimento da pressão aplicada no golpe. Porém, no momento em que o sino soaria para encerrar, o braço direito de Magny se moveu e “apagou”, sinalizando aparente rendição.

Com isso, Matthews foi liberado após a constatação visual de que o adversário teria desmaiado ou se desfeito do controle, e ele começou a comemorar. Ainda assim, Magny demonstrou estar lucidamente consciente e reclamou com frustração a interrupção que, para ele, teria ocorrido cedo demais. Em seguida, a arbitragem determinou que o round ainda estava em andamento e que a luta deveria continuar.

Matthews explicou que, por mais que seja difícil aceitar, não existe como voltar no tempo. Ele foi direto ao ponto ao comentar a situação: quando a luta é interrompida e depois retomada, o atleta tende a seguir as orientações imediatas sem conseguir pensar com clareza total. Ele também ressaltou que, mesmo com a distância de nove meses, reconhece que talvez tivesse sido melhor contestar formalmente e se posicionar de maneira mais firme naquela hora.

A luta

  1. Fim do primeiro round: Matthews encaixou uma guilhotina montada apertada sobre Neil Magny quando o relógio se aproximava do encerramento. Mesmo com sinais de que Magny estaria apagando — com o braço direito perdendo força e caindo — o combate foi interrompido no instante, e o australiano foi autorizado a soltar a posição para comemorar.

  2. Reação de Magny e virada da arbitragem: ao perceber a parada, Magny se levantou demonstrando estar consciente e protestou com irritação pelo encerramento precoce. O árbitro então declarou que o round não estava finalizado e determinou que a luta continuasse.

  3. Segundo round: Matthews afirmou que, após a decisão de continuidade, teve pouco tempo para reagrupar e voltar à dinâmica de combate. Ele retornou ao octógono e lutou com intensidade, chegando a dominar no segundo assalto, buscando o acabamento.

  4. Terceiro round: apesar do ímpeto e do domínio no segundo, o desfecho não saiu do lado de Matthews. No fim, ele acabou derrotado por finalização no terceiro assalto.

O pós-luta

Matthews reconheceu que o episódio foi “uma situação ruim”, mas evitou alimentar arrependimento improdutivo. Ele argumentou que, quando o combate é chamado de uma forma e depois é retomado, a mente não opera como se o atleta tivesse controle total do que deveria acontecer. Ainda assim, ele admitiu que, com a perspectiva de quem já teve tempo para refletir, poderia ter se posicionado melhor para protestar.

O lutador também explicou um aspecto que pesou no rendimento: o efeito psicológico e físico do “alívio” após acreditar que venceu. Segundo ele, a sensação de recompensa por achar que a luta acabou pode derrubar o atleta, especialmente quando a recuperação do organismo não é imediata. Ele mencionou que conversas com alguém que já passou por situações parecidas — citando Michael Bisping — ajudaram a colocar em palavras esse tipo de impacto, como o desgaste ligado à descarga de adrenalina e a necessidade de um período para voltar ao normal.

Além disso, Matthews descreveu que, dentro do octógono, tudo acontece muito rápido e não há tempo real para “pausas” que permitam aos envolvidos entenderem com calma qual deveria ser o próximo passo. Como nenhuma sinalização externa indicou outra conduta, ele precisou voltar em poucos instantes e seguir lutando.

Quando falou do que faria diferente, ele afirmou que, em retrospecto, deveria ter pedido para contestar formalmente, deixando claro que não concordava com a condução do momento. Para ele, a regra deveria seguir o protocolo: se a luta fosse encerrada, o correto seria permitir que o atleta afetado por isso buscasse recurso conforme os trâmites de apelação. Entretanto, como é um esporte de execução imediata, “se mandam continuar, a tendência é seguir lutando”.

Na sequência, Matthews afirmou que uma parte central para ele superar o que aconteceu é a fé. Ele se converteu ao islamismo em 2023 e disse acreditar que “tudo acontece por um motivo”. De acordo com o australiano, ele fez o que estava ao alcance dentro da luta e o desdobramento seguiu o curso que deveria acontecer. A leitura dele é que, enquanto fizer o máximo possível, o resto não está sob o controle direto do atleta.

Matthews também destacou como essa postura influencia a vida pessoal e profissional, reduzindo estresse e ansiedade. Ele comentou que, após solicitar retorno para o card deste fim de semana, sua primeira combinação havia sido com outro veterano muçulmano, Salikhov. Porém, o “King of Kung Fu” acabou sendo forçado a se retirar do evento, gerando um breve período em que Matthews ficou sem adversário até que Carlston Harris fosse escalado para preencher a lacuna.

Para alguns atletas, a incerteza momentânea poderia causar pânico; para Matthews, a situação reforçou a maneira como ele enxerga o próprio caminho. Ele afirmou que, se ele deveria lutar naquele card, um oponente apareceria; se não fosse para ser, não haveria combate. Segundo ele, a rotina de treino seguiu como se a luta fosse acontecer, e poucos dias depois o adversário foi confirmado.

Ele ampliou o raciocínio ao falar sobre a semana de preparação. Matthews disse que muitos lutadores relatam noites mal dormidas e preocupação excessiva com o resultado, mas que ele tenta ir para o combate entregando 100% e acredita que o restante está nas mãos de Deus. Para ele, até uma derrota pode resultar em algo positivo no futuro, desde que exista um propósito para aquilo acontecer.

Matthews também citou um exemplo recente da própria carreira: a luta contra Chidi Njokuani, em Nashville, no mês de julho do ano passado. Ele contou que ficou doente durante aquela semana, sentiu que os pulmões não estavam no melhor estado e, mesmo assim, decidiu encarar o treino como um plano simples: ir cinco minutos com toda a força e lidar com o que viesse depois. Ele relatou que foi para cima desde cedo e venceu em aproximadamente 90 segundos.

Ele acrescentou que o principal ensinamento daquele caminho é confiar no instinto e seguir o processo: o que acontecer, acontece. Ao falar sobre como esse pensamento evoluiu, Matthews disse que percebe mudanças claras na própria conduta ao longo dos anos, associando parte do amadurecimento a marcos da vida — como casamento e filhos —, mas colocando a fé como base decisiva para a tranquilidade construída nos últimos anos.

No fim, Matthews reforçou a ideia que aprendeu desde o começo como amador: desde a estreia aos 15 anos, ele tenta manter o mesmo princípio, que se resume a conseguir olhar no espelho depois do combate e afirmar que deu tudo o que podia. Ele reconheceu que existem infinitas variáveis no esporte e que sempre pode dar errado, mas destacou que o único controle real é a própria entrega dentro do octógono.

Com essa filosofia, o australiano concluiu que o resto — o desenrolar do combate e o resultado final — fica sob responsabilidade de algo maior, enquanto ele segue focado em cumprir a parte que depende exclusivamente dele.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.