Vinda da estreia no UFC em Perth, na Austrália, em setembro passado, a neozelandesa Michelle Montague concedeu entrevistas à imprensa logo após a luta e falou sobre como a experiência de competir em solo australiano — com a família presente — ajudou a acalmar os pensamentos antes do primeiro caminho até o octógono. Agora, ela volta ao ritmo de “segunda vez” neste fim de semana, quando faz sua segunda apresentação sob a bandeira do UFC enfrentando Mayra Bueno Silva no Meta APEX, em Las Vegas, e tenta ajustar ainda mais a própria sensação de conforto para o desafio do ambiente.
“O APEX também traz aquela sensação de casa”
Ao ser provocada sobre o quanto se sentiu confortável na estreia e como isso influenciou a preparação para o compromisso do último sábado, Montague respondeu com bom humor e, em seguida, detalhou a mudança de perspectiva. Para ela, o clima de estreia foi diferente por causa do entorno: “Eu tenho pensado sobre isso um pouco”, disse a lutadora. “Naquela ocasião, as partes externas pareciam bem familiares. O país, as pessoas nos bastidores e o fato de minha família ter ido me ver deixaram tudo com uma vibe de ‘estar em casa’. Só que esta semana eu percebi que, no APEX, acontece algo parecido: entrar num prédio como aquele é menos intimidador do que eu fui para uma arena enorme, com cadeiras de estádio ao redor.”
Montague continuou explicando que, naquele primeiro momento, o tamanho do local e a dificuldade de enxergar e ouvir o que acontecia ao redor pesaram: “E aí você fica no centro do octógono e não consegue ver ou ouvir muita coisa. Esta semana, eu pensei que isso era mais assustador, independentemente de qualquer detalhe externo. Minha mãe e meu pai também estarão nesse confronto, mas como vai ser em Vegas e todo mundo fala como se fosse assustador, na prática não é. Você está numa espécie de arena menor — e a gente já passou por isso antes.”
A lutadora riu ao lembrar como a postura mudou depois de sete meses, mas fez questão de reconhecer que qualquer adaptação faz parte do processo. Para ela, por mais que existam diferenças de ambiente e de expectativa, a hora de lutar decide tudo: “No fim das contas, quando você está lá dentro, não tem muito o que fazer além de lutar.”
“Você não consegue localizar exatamente como é sair pra uma luta real”
Montague também reforçou como é difícil reproduzir a sensação do momento em que a luta do UFC começa de verdade. Segundo ela, mesmo treinando bastante e preparando o aspecto mental e físico, existe um elemento que não se controla. “Todo lutador sabe disso: não dá para apontar com precisão o que você sente ao sair para uma luta oficial do UFC”, afirmou. “Você pode fazer todo o resto — treinos, preparo mental, preparo físico — mas tem aquela parte que, não importa quantas vezes você faça, ainda assim os veteranos falam que você vai sair e fica naquele pensamento meio ‘uau… o que eu tô fazendo?’”
Para tentar se aproximar do sentimento, a neozelandesa citou que só existem aproximações fora do combate. “O que chega mais perto são os ensaios mentais e os treinos físicos fora do duelo em si. Mas quando você chega lá, não importa: você está dentro.”
Primeira vez sem finalização no tempo regulamentar e o valor de “15 minutos”
Em sua luta de estreia, em setembro, Montague venceu, mas foi a primeira vez na carreira como profissional em que ela não finalizou a adversária dentro do tempo, usando o estrangulamento por trás (rear-naked choke). Embora ela admita que seria ótimo manter o ritmo de finalizações rápidas e conservar a taxa de 100% de conclusão, a atleta da American Top Team entende que registrar tempo real de luta no octógono — ao todo, 15 minutos — pode ser determinante para evoluir no peso galo.
“É muito grande, né?”, disse ela. “Por um lado, finalizar alguém e colocar para dormir no primeiro round deixa tudo rápido, você entra e sai. Só que eu tenho só sete lutas profissionais, então o tempo de jaula é algo precioso.”
Montague ainda comentou que a ideia não foi “não finalizar”, e sim que a dinâmica da luta não permitiu o desfecho que ela buscava. “Não é que eu tenha, de propósito, deixado de finalizar. Eu estava tentando bastante. Mas conseguir todo esse tempo naquele cenário, com duas interrupções para os técnicos entrarem e passarem orientações, é supervalioso daqui pra frente. Você entende como é, como parece, como seu corpo reage. A experiência pesa muito. E ainda por cima eu saí com a vitória e com nove pontos antes de 9 da manhã — isso é bom.”
A ex-equipe e o “já tive isso antes” contra Bueno Silva
Se o fato de competir na Austrália trouxe uma camada de familiaridade para a estreia, o ingrediente de “já estive aqui antes” tende a aparecer novamente no confronto deste fim de semana, já que Mayra Bueno Silva é exatamente o tipo de adversária que Montague já conheceu de perto em treinos. As duas se enfrentam depois de terem dividido rotinas na American Top Team, em Coconut Creek, na Flórida, onde trabalhavam com frequência.
Nos últimos combates, Bueno Silva mudou o ambiente de treinamento, afastando-se daquela base do sul da Flórida e passando períodos com outras estruturas, como o grupo Fighting Nerds. Enquanto isso, Montague seguiu lapidando suas habilidades onde está há mais de quatro anos e meio, mantendo seu centro de preparação na mesma região.
Montague explicou que o retrospecto de treino não foi apenas “coincidência”, mas uma convivência real: “A gente treinou junto pra caramba. E a gente não se via desde que ela saiu do ginásio, há quanto tempo…”, disse. “Muita gente troca brincadeira, mas a minha com ela tinha um tempero a mais, com um tipo de provocação, só que de um jeito carinhoso.”
Ela ainda descreveu como o preparo mental para o duelo ficou mais claro após um pensamento durante os treinos. “O engraçado foi que, antes de eu receber a oferta para lutar contra ela, eu estava indo sparrar, ajudando uma das meninas ou algo assim. E eu lembro de pensar: ‘Preciso lembrar de como eu me sentia antes de eu ir sparrar ‘Sheetara’.’ A gente deixava toda a amizade de lado e entrava pra brigar. Eu me recordei desse sentimento — de como eu ficava antes de sparrar ‘Sheetara’ e de como eu entrava naquele modo focado. Não teve uma fase de ‘sentir pra ver’. Na semana seguinte, veio a ligação e me ofereceram esse combate. Eu pensei que era algo bem… divino, sabe?”
Sem “segredos” entre ex-companheiras: “Eu sei o que ela faz”
Montague também tratou do aspecto tático de enfrentar uma ex-companheira de equipe: quando há troca de informações e conhecimento adquirido em conjunto, o duelo pode ficar delicado. Porém, para ela, não existe esse tipo de preocupação. “Eu não tenho disso. Nem chega a ser uma consideração”, declarou. “Anos treinando juntas me deixaram com tudo o que eu precisava saber para me preparar para esse confronto contra uma ex-desafiante ao título. Eu entendo o que ela faz, o que ela procura e o que ela tenta construir. A gente está muito, muito preparada para essas coisas.”
Ao mesmo tempo, a lutadora fez questão de lembrar que o cenário mudou para ambas: “Só que, pra ela, quando a gente treinou juntas e onde eu estou agora, eu sou uma lutadora completamente diferente. Então isso vai ser um ponto complicado do lado dela.”
Pressão, leitura de golpes e vitória como missão
Uma vitória sobre Bueno Silva poderia projetar Montague em ranqueamento logo em sua segunda aparição no UFC. A atleta acredita que esse caminho será natural. “Eu gosto da pressão. Eu prospero sob pressão”, afirmou. “Eu sei como ela acerta, sei como ela chuta, sei quais são as habilidades dela em finalizações. Então agora é só provar que eu lido melhor com tudo isso do que as pessoas que ela já venceu.”
Quando perguntada o que significaria, na prática, bater uma ex-parceira de treino, Montague resumiu como consequência de trabalho bem feito: “Vai significar que a gente está fazendo as coisas do jeito certo, que a gente está na direção certa”, disse, rindo. “Deus está comigo. Eu tenho confiança total em tudo o que estamos fazendo e em todo o trabalho que a gente fez como equipe. E eu sei que eu estou mais motivada do que ela — eu não vou dizer o porquê agora, talvez depois da luta —, mas eu sei disso. Inclusive na minha cabeça eu estou vencendo esse combate.”
Essa convicção também aparece no estilo de desfecho que ela espera para o sábado. “Eu finalizo ela no primeiro round”, completou, sem hesitar. “Muita pressão, muita força, muita velocidade… e ainda por cima eu sou inteligente, treinada e extremamente, extremamente motivada.”

