Sean Brady encara o impacto da primeira derrota após sequência invicta no UFC

Às vezes, os aprendizados mais valiosos são aqueles que ninguém quer ter de viver. No entanto, quando o baque chega — especialmente depois de uma sequência sem derrotas — o impacto costuma ser maior do que o imaginado. Para muitos atletas, a própria identidade passa a girar em torno do “invicto”, e a sombra da primeira derrota cresce até se tornar inevitável.

Sean Brady conheceu esse lado duro da carreira ao perder pela primeira vez no profissional: ao enfrentar Belal Muhammad em Abu Dhabi, ele tinha um cartel invicto após 15 compromissos, mas acabou superado pelo rival. Muhammad seguiu com o avanço no caminho do cinturão, enquanto Brady passou a encarar o que, para qualquer lutador, é a virada mais sensível da trajetória.

Mesmo assim, Brady afirmou que o resultado acabou contribuindo para reorganizar sua relação com as consequências das lutas. Em vez de tratar o resultado como algo que definia o futuro, ele buscou reduzir a pressão sobre si mesmo. Essa mudança de perspectiva ganhou força ainda maior com a chegada da filha, em março de 2025, poucos dias após o período que antecedeu sua grande apresentação em Londres, quando desmontou Leon Edwards. Por isso, quando sofreu o segundo revés diante de Michael Morales no UFC 322, ele conseguiu reagir de forma mais rápida e mais leve.

“Agora eu sou pai, tenho muito mais coisas acontecendo; a vida literalmente voltou ao normal”, disse Brady alguns dias antes do retorno ao octógono no UFC 328, onde enfrenta Joaquin Buckley. “Antes eu colocava a luta como algo maior do que realmente era. Eu achava que quando eu perdesse para o Belal, o meu mundo ia acabar — e não acabou. A vida seguiu, e foi a mesma coisa quando eu perdi para o Morales… Na segunda-feira de manhã, ninguém liga (risos). Minha filha não liga. Minha família não liga. Eu preciso acordar, fazer o que tenho que fazer todo dia — voltar para a academia e virar um lutador melhor. E é isso que eu tenho feito desde então.”

O que deixa a reação de Brady ainda mais impressionante é que a derrota para Morales não aconteceu num contexto comum. Mesmo sem entrar em detalhes sobre o que ocorreu, ele revelou que os dias antes do combate foram marcados por dúvidas sobre a própria realização da luta.

Com questões médicas anteriores, a equipe não tinha clareza sobre a liberação para ele competir, o que transformou a semana em um período de incerteza. Apesar disso, Brady decidiu seguir com o plano e foi para o evento quando ainda não havia garantias totais sobre o desfecho.

“Foi difícil, mas no fim foi uma escolha que eu decidi fazer”, explicou ao comentar a decisão de manter a luta apesar das dúvidas que permaneceram até o dia da competição. “É sempre uma chance de 50/50 quando você entra lá. Alguém vai vencer, alguém vai perder. Infelizmente eu perdi — mas isso faz parte do esporte quando você enfrenta os melhores caras do mundo. Só que não era para acontecer na noite de sábado… A maior lição foi ser um pouco mais aberto com a minha equipe sobre algumas coisas que estavam acontecendo e sobre como eu estava me sentindo. No fim, é isso. Não dá para ficar chorando por leite derramado. Eu vou sair no sábado, mostrar serviço e fazer todo mundo esquecer o que aconteceu naquela noite.”

Outro ponto que ajuda Brady a manter o foco no que vem pela frente é o fato de que, mesmo se tivesse vencido Morales em novembro, o cenário do peso meio-médio continuaria sem uma definição clara. A divisão segue extremamente lotada de nomes em busca de posição.

Nesse momento, ninguém ocupa um espaço tão turbulento entre os principais candidatos quanto o meio-médio. Ian Machado Garry aparece como o provável próximo desafiante ao cinturão, enquanto atletas como Michael Morales e Carlos Prates aguardam a sequência logo atrás. A partir daí, o panorama ainda inclui um grupo forte de ex-campeões — Jack Della Maddalena, Belal Muhammad, Leon Edwards e Kamaru Usman — além de Brady e Joaquin Buckley, que dividem o octógono no UFC 328.

“Eu sinto que, mesmo se eu tivesse vencido aquela luta, eu ainda não saberia para onde eu iria”, avaliou Brady. “Você tem o Morales, você tem o Prates, você tem o Ian. E se (Ilia) Topuria vencer, eu sinto que a divisão inteira fica travada. Por isso eu vou luta após luta, como eu sempre fui… Onde eu chegar depois disso vai ser ótimo, mas eu sei que ainda faltam algumas lutas para eu voltar ao topo. E tá tudo bem. Eu vou continuar trabalhando para chegar lá.”

Joaquin Buckley também chega ao duelo embalado por um momento de reconstrução após uma derrota. Ele sofreu o revés em junho, quando foi interrompida a sequência de seis vitórias consecutivas que ele vinha construindo, interrompida por Kamaru Usman em Atlanta.

Desde que migrou para o peso meio-médio, Buckley entregou finalizações com impacto e, ainda assim, Brady acredita que existe espaço para explorar falhas no adversário na noite do UFC 328. O brasileiro vê no combate uma oportunidade real para recolocar seu nome na rota do topo da divisão.

“Ele é um striker explosivo, tem nocaute(s) excelentes, mas eu sinto que tem algumas aberturas no jogo dele que eu vou conseguir explorar. E é isso que eu vou fazer lá dentro”, disse Brady. “Eu vou mostrar para todo mundo que eu tenho o melhor grappling desta divisão, e isso vai ficar em evidência.”

Brady encerrou com a intenção clara para a luta: “Eu vou finalizar o Joaquin Buckley.”

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.