Jon Jones está com “seis lutas pela frente” no contrato com o UFC, acordo firmado em 2023 — e, por isso, a ideia de que o norte-americano poderia escapar do vínculo para enfrentar Francis Ngannou segue cercada de dúvidas jurídicas. A discussão ganhou força após o próprio Jones ter insinuado que poderia tentar uma rota de saída no card do MVP MMA 1, e um dos nomes que apareceu como incentivador foi Tyron Woodley, ex-campeão do UFC, que detalhou um possível caminho legal em entrevista recente.
O que está em jogo: contrato, liberdade de luta e o precedente citado
Woodley afirmou que conhece uma “maneira legal” que poderia permitir a Jones buscar o combate com Ngannou, ainda que o processo não seja simples. Segundo o ex-campeão, essa rota estaria inspirada no que Conor McGregor fez em 2017 ao tentar viabilizar o duelo de boxe contra Floyd Mayweather — uma manobra que, na visão de Woodley, teria elementos compatíveis com a forma como contratos longos e exclusivos podem ser questionados.
De acordo com Woodley, existe uma estratégia jurídica associada à chamada “Ali Act”. Ele mencionou o advogado Sam Spira como peça relevante para a condução do plano utilizado por McGregor e afirmou que, se Jon Jones quisesse lutar contra Ngannou, haveria uma via legal para tentar concretizar esse objetivo. Ainda assim, Woodley deixou claro que não seria um caminho “fácil”, e que dependeria do trabalho de uma equipe jurídica para tratar o processo.
- Woodley disse que Jones teria solicitado diretamente a informação do advogado que, em sua visão, “entende a jogada”;
- O ex-campeão relatou que, após conversar com a própria equipe, recebeu de Jones o pedido do contato para dar andamento à tentativa;
- Ele também ressaltou que Jones teria a informação necessária caso decidisse seguir pelo viés legal.
Woodley ainda mencionou que Jones o procurou porque “sabe como ele fala”, sem “açúcar” na avaliação. O ex-campeão explicou que, enquanto o assunto era discutido no ar, o advogado dele estaria acompanhando e que, depois, Jones teria recebido orientações bem específicas sobre o tipo de medida judicial, como protocolar a solicitação e quais seriam as etapas do procedimento — um sinal de que, pelo menos na teoria, já existe um roteiro desenhado para uma eventual disputa contratual.
Contexto jurídico do caso McGregor: por que o precedente é relevante (e por que não virou teste)
Para sustentar o argumento, Woodley fez um “passo para trás” na história: em 2016, a ideia de Conor McGregor fazer uma luta de boxe contra Floyd Mayweather enfrentou resistência do UFC. Naquele cenário, a promoção tentou impedir o plano, mas McGregor seguiu com a obtenção de licença de boxe na Califórnia e sinalizou que poderia usar a Ali Act caso fosse necessário em disputa judicial.
Woodley descreveu que a Ali Act tem dispositivos que, em tese, ajudariam um atleta a enfrentar uma contestação contratual em tribunal. Entre os pontos citados por ele estão: a vedação a contratos de longo prazo, exclusivos e com características coercitivas — termos que, segundo a leitura do ex-campeão, poderiam ser aplicados a contratos do tipo que prendem um lutador a uma promoção por tempo prolongado. Ele também mencionou que a lei poderia restringir a força de um promotor para impedir que um pugilista aceite lutas de grande porte.
Mesmo com essa base, Woodley ressaltou um detalhe decisivo: o movimento de McGregor não chegou a ser testado completamente em corte. Ao final, houve um acordo entre as partes, no qual o UFC passou a atuar como coorganizadora do evento e recebeu uma fatia relevante do prêmio de McGregor.
- McGregor tentou usar a Ali Act em meio a resistência do UFC ao projeto;
- Apesar da ameaça jurídica, o caso não foi levado a um veredito judicial que “testasse” plenamente a tese;
- O desfecho acabou em acordo, com o UFC como co-promotor e divisão de porcentagem do prêmio.
Ranqueamento e rota de cinturão: por que isso mexe no planejamento do UFC (e qual o próximo passo para Jones)
No aspecto esportivo, a possibilidade — ainda que remota — de Jon Jones “escapar” do contrato para enfrentar Francis Ngannou teria impacto direto no planejamento do UFC. O motivo é simples: ao abrir espaço para um combate fora do fluxo tradicional, o movimento poderia alterar o caminho de disputas envolvendo campeões e contenders, influenciando diretamente a lógica de ranqueamento e a ordem das chances por cinturão.
A questão, porém, não é apenas “querer lutar”. O contrato firmado em 2023 e a previsão de que Jones tem seis lutas restantes com a promoção funcionam como um freio prático. Woodley tratou o tema como uma batalha jurídica, mas reforçou que existe uma via para tentar — e que, do ponto de vista de informações e encaminhamentos, Jones teria condições de seguir caso decidisse de fato iniciar o processo.
Com isso, o cenário mais provável, no curto prazo, é que o UFC mantenha o foco em encaixar a agenda do campeão/contender conforme o vínculo atual, enquanto Jones e sua equipe avaliam custo, risco e viabilidade de uma disputa legal. Na visão de Woodley, “a bola” está com Jones: se ele quer lutar, teria os elementos para tentar — mas, até que qualquer medida seja levada adiante e resulte em mudanças efetivas, o planejamento esportivo tende a seguir o contrato.
Em termos de disputa de cinturão e ranqueamento, a leitura é que uma eventual saída para enfrentar Ngannou poderia reordenar prioridades na divisão, mas sem um precedente judicial definitivo no modelo do caso McGregor, o resultado mais realista continua sendo a continuidade das obrigações contratuais. Assim, o próximo passo prático deve ser observar se Jones transformará a sugestão pública em ação legal concreta — ou se seguirá o caminho já estabelecido pelo calendário do UFC.

