A crise do MMA e a ganância no UFC: análise de quem vive o esporte há anos

Desde 1999, tenho acompanhado o MMA de perto. Vi o esporte crescer de forma expressiva e estive presente em inúmeros momentos marcantes, testemunhando alguns dos lances mais icônicos já registrados na modalidade. Ao longo de mais de duas décadas e meia de envolvimento, o MMA explodiu, ganhou espaço no mainstream e, para uma parcela dos envolvidos, trouxe fama e ganhos financeiros que antes pareciam impossíveis.

Ao mesmo tempo, tudo na vida muda. Nada é permanente. E, no nosso caso, o esporte também passou por uma transformação verticalizada em um nível tão intenso que começa a levantar receios sobre a saúde e a sustentabilidade no longo prazo.

Quando digo isso, falo de um cenário que se repete no mundo inteiro: cada vez mais pessoas procuram o MMA, treinando as diferentes frentes com o sonho de um dia se tornarem estrelas — exatamente aquelas que inspiraram o início da jornada. Por muitos anos, esse caminho funcionava. Era uma rota viável para formar novos talentos. Crianças assistiam às lutas, ficavam fascinadas e começavam a treinar. Alguns anos depois, tinham uma chance real de transformar o esforço em algo concreto. Só que, com o passar do tempo, esse sonho vem se tornando menos atrativo.

Do meu ponto de vista, estamos nos aproximando de uma crise. Na verdade, mais do que isso: já estamos vivendo uma crise.

Com o UFC tendo menos de 35 anos, dá para sustentar que o MMA ainda está em fase inicial quando comparado a outros esportes de grande alcance global. Porém, se considerarmos a quantidade de pessoas assistindo e o volume de dinheiro que foi gerado, além de notar o que não foi distribuído de maneira justa abaixo dos níveis mais altos, fica difícil defender que o MMA ainda esteja em um “estágio embrionário”.

Um exemplo claro é o próprio UFC, que cresceu de forma acelerada nas últimas 15 temporadas. A mudança de emissora para plataformas como FOX, ESPN e, depois, Paramount ajudou a consolidar a projeção da principal organização do esporte, enquanto as receitas também aumentaram e passaram a alimentar os bolsos de quem toma as decisões. O problema, a meu ver, é que nesse caminho as coisas começaram a desandar.

O foco do UFC, segundo a leitura que faço, não está em priorizar atletas nem em fortalecer o esporte como produto esportivo. O que se vê é um esforço cada vez mais obsessivo por gerar ainda mais dinheiro, sem um empenho equivalente para melhorar o MMA ou cuidar do bem-estar de quem compete. Pelo contrário: o que aparece é uma sequência de medidas para reduzir custos. Considero isso algo absurdo. Mesmo com o faturamento crescendo ano após ano, o retorno em investimento para o esporte e para os lutadores — que são a base da engrenagem — permanece estável no máximo, e não acompanhando a curva de crescimento.

Se observarmos o que um lutador iniciante ou intermediário ganha, a quantidade de oportunidades de luta que ele consegue dentro do ritmo de eventos, e também o custo necessário para preparar uma luta, o quadro fica difícil de aceitar: na prática, eles estão vendendo um produto com prejuízo. Muitos lutadores trabalham o máximo, fazem sacrifícios em busca de um sonho sem perceber o quanto essa realização ficou distante da realidade atual. E quanto a patrocínios? Para os meus atletas, por exemplo, conseguir esse tipo de apoio em um nível que realmente ajude a subsidiar os pagamentos das lutas é quase impossível. Qual empresa apostaria em um atleta se não consegue promover a marca nos momentos em que isso mais importa dentro do ecossistema do UFC?

O acordo de uniformes em 2015 reduziu drasticamente essa dinâmica, e a questão segue como um peso para a economia do esporte, que permanece pressionada pelo modelo atual com a parceria vigente com a Venum.

Antes de existir esse tipo de patrocínio padronizado dentro do UFC — e que depois foi replicado por outras promoções — havia um ecossistema mais saudável, com investimentos circulando e gerando espaço para o crescimento do MMA e dos próprios lutadores. Só que esse cenário foi destruído de uma vez, e não retornou de forma sustentável.

Além disso, fora do UFC não há outros eventos com relevância capaz de chegar perto do impacto e da escala que alimentam essa verticalização que descrevo. As principais alternativas que existem hoje, além do UFC, estão cada vez mais raras e mais distantes umas das outras. E, mesmo quando aparecem, a conta não fecha do ponto de vista financeiro para sustentar o mesmo tipo de estrutura — o que é ainda mais estranho quando lembramos o quanto o esporte cresceu na base.

Eu não tenho a verdade absoluta, nem uma bola de cristal para prever exatamente como tudo vai se desenrolar. O que consigo afirmar é que dá para enxergar essa crise subindo e ganhando força. O MMA foi se tornando um esporte mais dependente de cliques e de seguidores em redes sociais do que de mérito atlético. A busca passou a ser notoriedade e lucro. Em comparação, pouca energia tem sido colocada para aprimorar a modalidade. Esse desequilíbrio está cobrando o preço.

Na minha visão, o MMA está perdendo a identidade para o resultado financeiro. Isso já ocorreu em outras modalidades. No surfe, por exemplo, marcas como Quiksilver e Onbongo foram lucrativas e sustentáveis. Só que foram compradas por grupos ligados a investimentos, que enxergavam apenas o lucro — e, ao fazerem isso, acabaram destruindo justamente aquilo que tornava as marcas rentáveis e sustentáveis: a identidade.

Vejo um movimento parecido acontecendo aqui com o UFC.

Eu não sei como a história vai terminar. A esperança é que outros investidores entrem com projetos concretos e sustentáveis, com uma visão mais longa, ajudando o esporte a se democratizar. Mas, infelizmente, ao menos neste momento, não consigo enxergar isso acontecendo.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.