Khamzat Chimaev sempre foi visto como um lutador que “cansa” — e essa percepção acompanha o “Borz” desde o começo da carreira no Ultimate Fighting Championship. Mesmo quando seus combates ainda não costumavam passar do limite de seis minutos, a dúvida já existia: o que acontece depois do primeiro assalto, quando o ímpeto do chechen começa a perder força? A verdade é que, no primeiro round, Chimaev se comporta como uma força quase impossível de deter. Pouquíssimos atletas conseguem interromper a sequência de quedas e controle associada ao seu wrestling avassalador. Só que, como acontece com um nocauteador que dispara com tudo desde o gongo inicial, existe um custo — e, a partir do segundo, a eficiência dos golpes tende a cair.
Ao longo dos anos, esse comportamento do cartel do “Borz” se repetiu sempre que havia resistência real pela frente. Um exemplo marcante veio em 2022, quando Chimaev encarou Gilbert Burns. Mesmo com o brasileiro sendo fisicamente menor, ele conseguiu derrubar o lutador e, ainda por cima, forçou um duelo em pé. Foi um cenário que tirou Chimaev do padrão e ajudou a revelar o ponto vulnerável: a capacidade de sustentar o ritmo e a pressão após o impacto inicial.
Já no ano seguinte, Kamaru Usman apareceu como outro teste pesado. Com apenas alguns dias para preparar o combate, o nigeriano precisou sobreviver ao primeiro round — etapa em que Chimaev costuma impor a própria dinâmica — para então, pelo desenrolar do restante, construir a impressão de que poderia vencer os assaltos seguintes. Foi um daqueles jogos em que o adversário não tenta “ganhar do nada”, e sim resistir até o timing da queda de performance do oponente.
Entre essas dificuldades, é importante lembrar que Chimaev também teve fases de domínio absoluto. Robert Whittaker, por exemplo, tinha repertório para punir a falha mais letal do “Borz” no palco maior. Depois de sobreviver a ataques no chão de Yoel Romero e Ronaldo Souza, o australiano demonstrava consistência defensiva. Ainda assim, Chimaev acabou por “rodar” o plano e encurtou o caminho para o controle, apagando temporariamente as limitações que poderiam ser exploradas em condições mais favoráveis.
E esse “apagamento” não durou para sempre. A estratégia que Dricus du Plessis montou para enfrentar Khamzat foi baseada em um princípio simples: esperar o chechen perder fôlego. Só que, durante o processo, a equipe de “DDP” não considerou completamente o fator “resistência”. Ao permanecer por longos períodos no solo sem buscar uma transição ativa para se soltar e reencaixar o ritmo, du Plessis acabou prolongando, na prática, o tanque funcional do rival. Mesmo assim, Chimaev ainda esteve perto de sofrer uma reviravolta, quase acumulando o “milagre” até o quinto round.
Com isso, a mensagem volta ao mesmo lugar: muita gente já sabe qual é o calcanhar de Aquiles de Khamzat. Só que, até a luta de Sean Strickland contra ele no UFC 328, na noite desta sexta-feira de acordo com o calendário local (sábado, 9 de maio de 2026), esse ponto ainda não havia custado de forma definitiva nem o status de invencibilidade nem uma faixa de campeão. O que fez Strickland ser diferente dos demais?
Um dos fatores foi o tempo disponível. Ter cinco rounds para trabalhar muda completamente o tipo de ameaça que um lutador consegue impor. Mas, acima disso, Strickland sempre foi capaz de “ficar inteiro” quando o confronto já passou da fase inicial. Em geral, ele faz isso em pé, usando um estilo apoiado em jab e teep, e buscando acumular trabalho sem se precipitar. Só que o mais decisivo foi que Strickland também conseguiu desviar de diversas tentativas de queda, mantendo o combate sob condições administráveis. E, conforme o duelo avançou, ele se tornou mais ativo do que o adversário justo na faixa em que Chimaev tende a perder o brilho.
De certa maneira, Strickland vinha se preparando para um tipo de confronto como esse durante toda a carreira: negar o acesso ao “momento” do rival e, depois, aumentar a frequência quando o oponente começa a carregar o peso do próprio ritmo. Ao final, a derrota coloca Chimaev em uma posição incômoda, porque, por um lado, ele segue figurando entre os dois melhores wrestlers do esporte. O jogo de finalizações continua sendo destrutivo, capaz de encerrar qualquer um que não cuide bem da própria postura. Além disso, a luta russa nunca esteve tão forte no UFC — e “Borz” permanece como um dos principais representantes.
Mesmo assim, um tanque de gás ruim pode ser uma das piores falhas para um atleta conviver. Existem inúmeros exemplos de lutadores com menor técnica e menos explosão superarem adversários mais completos apenas porque o rival não consegue sustentar ações relevantes no fim. Um atleta pode ser inferior em wrestling, jiu-jitsu e trocação, mas ainda assim vencer por insistência, leitura e estratégia. Foi exatamente nesse território que a derrota de Chimaev abriu espaço para o resto da divisão.
Agora que Strickland obteve sucesso, outros vão tentar repetir a receita. A comparação do “quatro minutos” no atletismo já foi tratada como algo impossível no passado, mas, depois que alguém conseguiu, o feito se transformou em referência. A mesma lógica começa a aparecer no MMA: se dá para resistir por tempo suficiente ao ímpeto inicial, existe uma rota para explorar a mudança de intensidade do oponente. A perda também custou a Chimaev o ar de inevitabilidade, porque o elenco inteiro percebeu detalhes do confronto, incluindo o fato de ele ter colocado a guarda duas vezes no segundo round. Quando outros lutadores — de Bo Nickal a Jiri Prochazka — entenderam o caminho para “embaralhar” o ritmo por cinco minutos, fica claro que a próxima geração de adversários passa a enxergar uma janela concreta para enfrentar o “Borz” em condições diferentes.
Existe correção? Não sem mexer profundamente no ataque. Chimaev já trabalha com um dos nomes mais fortes do esporte quando o assunto é condicionamento, mas o problema é estrutural: ele é um sprinter. Ele foi construído para disparar, não para manter a mesma intensidade por 25 minutos. E aí entra o ponto: o wrestling exige um nível de esforço absurdo, algo que não foi pensado para ser executado em séries longas. Com isso, o futuro adversário passa a ter um roteiro claro para atacar o momento exato em que Chimaev não consegue manter o mesmo volume.
Hoje, o “Borz” está perto de um tipo quase único de “cannon de vidro”. Quando usamos essa expressão, geralmente lembramos atletas como Alistair Overeem: grandes explosões que podem ser derrubadas por um golpe aparentemente simples. Chimaev, porém, funciona ao contrário em parte do enredo. Ele pode dominar de maneira consistente e até finalizar, mas também carrega um buraco que teoricamente qualquer lutador consegue explorar se tiver paciência, controle do tempo e uma estratégia para atravessar o período em que ele costuma ser mais perigoso.
Em resumo, a divisão de meio-pesados está oficialmente em alerta. A derrota de Khamzat Chimaev no UFC 328 deixa uma mensagem: o primeiro round pode ser uma sentença, mas o restante do combate passou a ser um campo aberto para quem souber resistir e reagir no momento certo.
Para resultados completos do UFC 328 e acompanhamento de cada luta, é possível consultar o detalhamento do card.

