O lutador Phumi Nkuta voltou para casa com um gosto amargo após um desfecho polêmico em sua estreia no MVP MMA. O atleta encarou Adriano Moraes em luta de curta preparação, justamente em um momento em que se esperava que ele saísse com a vitória — e, em vez disso, terminou derrotado de forma contestada, ficando com a primeira derrota (e única) do cartel profissional.
O salto no cartel e o cenário do combate
Nkuta aceitou a luta em cima da hora contra Adriano Moraes no card de Ronda Rousey vs. Gina Carano. Para o prospecto dos moscas, o confronto representou o maior aumento de nível da carreira até ali, já que o adversário vinha com experiência e histórico de alto nível no MMA. Ao longo dos rounds, Nkuta conseguiu manter o ritmo, conectar ações e, principalmente, sustentar vantagem nas anotações dos jurados.
De acordo com as pontuações, ele estava vencendo por 20 a 18 em dois dos três cartões, enquanto o terceiro marcava 19 a 19. Ou seja: mesmo que Nkuta tivesse sido descontado no último assalto, o cenário mais provável seria o de triunfo por decisão dividida. Só que o rumo do combate mudou no fim.
A finalização após o sino e a revisão dos oficiais
Nos instantes finais, Moraes conseguiu encaixar uma tentativa de mata-leão nas costas, com Nkuta ainda lutando e tentando responder até o último segundo. O ponto central da controvérsia veio depois: o árbitro Herb Dean demorou alguns instantes para separar a posição, e quando o bloqueio foi liberado, Nkuta estava desacordado.
Os oficiais de beira de jaula optaram por recorrer ao replay para entender o que ocorreu exatamente no cronômetro e, no fim, Dean decidiu que Nkuta teria perdido a consciência antes do sino final. Com essa interpretação, o resultado foi convertido em finalização técnica para Moraes.
As palavras de Phumi Nkuta sobre o momento
Em entrevista após o combate, Nkuta tratou o episódio como um choque emocional, mas deixou claro que, para ele, o fim não deveria ter acontecido daquele jeito. Ele disse que entrou na luta com a sensação de que controlava o confronto e que, no último movimento planejado, acreditava estar no comando do cenário.
“Obviamente eu tive meu momento ‘Max Holloway’ ali no fim. Eu estava dentro do combate, a torcida estava curtindo, e eu só pensei: vamos trocar. Eu senti que tinha a luta nas mãos, mas no fim eu amo brigar. Eu fiquei gritando ‘vamos lá’, e tentei fazer o meu chute de cambalhota, que é o chute que eu queria lançar”, afirmou Nkuta, explicando que executou a ação com a mão mais baixa, já que o timing do final do confronto altera a cadência.
“Ele fez um bom trabalho pegando as costas, prendendo o braço. Ele fez ótimo. E aí aconteceu o mata-leão. Eu ouvi a contagem de dez, eu lutei tentando resistir com tudo o que tinha. Aí eu escutei o sinal e… quando eu acordei, eu falei: não tem como eu ter sido apagado. Na minha cabeça eu só ouvi o sino. O que aconteceu?”, completou.
Nkuta também comentou que reconhece o mérito do adversário na transição para as costas, mas reforçou que a resistência ao estrangulamento continuou até o fim. Ele ainda comparou o encaixe simultâneo de ações no momento final e disse que a percepção do tempo foi extremamente confusa.
“Pareceu palhaçada” — e a referência a Rousimar Palhares
Ao analisar novamente os acontecimentos, Nkuta afirmou que a cena do mata-leão acionou uma lembrança negativa que já marcou outros episódios no MMA. Para ele, o aperto teria sido mantido tempo demais.
“Quando eu vejo o replay, parece que ele puxou um ‘Rousimar Palhares’ pra cima de mim. No fim é o que é”, declarou Nkuta.
A comparação faz sentido pelo histórico: Palhares foi advertido diversas vezes durante a carreira por manter finalizações por tempo além do necessário, mesmo com a tentativa do árbitro de interromper a ação.
A visão sobre “luta limpa” e a polêmica do posicionamento
Nkuta tentou contextualizar por que acredita que o estrangulamento não deveria ter terminado após o sino. Ele disse que encara o próprio estilo como mais “limpo” e que, após o primeiro round, buscou evitar provocar dano desnecessário.
“Eu achava que o Adriano era mais um lutador limpo. Eu entendo que ele está fazendo o que dá na hora, no calor do momento, mas eu acho que quando eu bati nele no primeiro round, eu fiz de tudo para não acertar a parte de trás da cabeça”, afirmou.
“Agora olhando assim: será que eu deveria nem ter pensado nisso e só ter batido de qualquer jeito? Eu me orgulho de ser um lutador limpo, e naquele instante foi, com certeza, sujo”, completou.
O brasileiro também ressaltou o comportamento de Herb Dean tentando separar os corpos. Na leitura de Nkuta, o árbitro puxou o adversário para fora da posição, mas o mata-leão seguiu aplicado por mais tempo do que ele considera aceitável.
“Principalmente porque você vê o Herb tentando tirar ele de cima. Não é como se ele tivesse encostado e soltado. Ele puxa o cara pra fora e mesmo assim ele continua me estrangulando. Olha… talvez seja calor do momento, mas no fim das contas cada segundo conta, e eu acredito que ‘fui Palharesado’ fora dali. Mas é o que é. Eu fico feliz pela experiência. Eu fico feliz que os fãs curtiram a luta”, disse.
A defesa de Herb Dean e a recusa de Nkuta em brigar
Do lado do árbitro, Herb Dean afirmou em entrevista separada que estava seguro na decisão de declarar a luta como finalização técnica. Nkuta, por sua vez, disse que não pretende entrar em guerra de palavras com o juiz.
“O ponto é: em um mata-leão, cada segundo conta. Cada milissegundo conta”, declarou Nkuta. Ele afirmou ainda que revisou o momento sob vários ângulos e sustentou que continuava resistindo com um braço — argumento usado para provar que não estava apagado no instante em que o sino tocou.
“Eu assisti de vários ângulos. Dá pra ver que eu continuo lutando contra o mata-leão com um braço. Se eu tivesse apagado e relaxasse, meu braço teria solto. Eu não vou ficar falando mal do Herb. Ele só está tentando fazer o trabalho dele, e eu estou tentando fazer o meu trabalho como lutador”, afirmou.
Nkuta também criticou a ideia de transformar a situação em disputa pessoal, dizendo que não quer transformar Dean em “vilão” da própria história. Ele citou que não pretende construir a narrativa de que estaria sendo prejudicado de maneira deliberada.
“Como ele se sente, ele sente. Mas eu não vou ficar atacando o Herb. Eu não vou fazer com que ele seja o Keith Peterson da minha história, tipo ‘Dominick Cruz’, segurando uma lista de coisas contra ele. Mas no fim: como é que eu fico mole se eu ainda estou lutando contra o mata-leão com uma mão?”, concluiu.
Apelo na comissão e a esperança de revisão
O desfecho foi ainda mais frustrante para Nkuta porque o resultado acabou virando sua primeira e única derrota no MMA profissional. A equipe do atleta já protocolou um recurso na California State Athletic Commission (CSAC).
O objetivo do apelo é que uma revisão adicional comprove que Nkuta não teria perdido a consciência no instante em que o sino soou, o que, na interpretação do lutador, deveria levar a luta aos cartões.
O que Nkuta diz que ganhou — e o desejo de apagar a derrota
Independentemente de qual seja a decisão final, Nkuta acredita que demonstrou ser uma ameaça real dentro da categoria dos moscas. Ele também agradeceu a estrutura do MVP: segundo ele, como os atletas recebem um valor fixo, a derrota não teria impacto financeiro direto no contrato.
Além do pagamento garantido, Nkuta ainda teria recebido um bônus adicional de 100 mil dólares pelo desempenho como Fight of the Night.
Mesmo assim, o lutador quer que a derrota seja removida do histórico. Na visão dele, o árbitro tomou uma decisão equivocada naquela noite.
“Não é engraçado que a única forma de eu perder seja por causa de alguma polêmica dessas? Por causa de uma luta que eu aceitei com uma semana e meia de aviso e ainda por cima subindo de categoria”, declarou.
Nkuta completou que viveu uma experiência especial dentro do octógono e afirmou que um resultado sem contest (sem vencedor oficial) seria o mais justo, especialmente porque, na leitura dele, a finalização foi mantida além do tempo correto.
“Foi uma experiência legal. Eu tive o tempo da minha vida. Um no-contest seria bem legal. Obviamente porque ele segurou por um tempinho a mais. A parte difícil é que ele segurou levando em conta que cada segundo conta… e eu apaguei. É chato, mas no fim, no tribunal da opinião pública, todo mundo sabe o que aconteceu. Eu consigo dormir sabendo disso”, finalizou.

