Aaron Pico admite: encarou o UFC 327 como must-win após KO na estreia

Aaron Pico chegou ao UFC com grande expectativa, mas a trajetória do atleta até o duelo contra Patricio “Pitbull” no UFC 327 teve elementos que deixaram claro o peso do momento. Contratado como um nome de alto destaque, o peso da estreia veio rápido: antes de completar nem uma luta na organização, ele entrou no octógono encarando Lerone Murphy, e a forma como a derrota aconteceu — com um nocaute brutal — transformou o contexto do seu segundo compromisso.

Pressão, corte e a sensação de “tudo ou nada”

Mesmo antes do duelo contra Patricio Pitbull, Pico enxergava o próprio cenário como algo decisivo. Aos 29 anos, na categoria dos penas, o lutador tratou a luta como uma espécie de teste absoluto, deixando claro que não queria que o histórico pesasse contra ele logo de cara.

Em conversa, Pico resumiu a mentalidade que carregou para o combate e falou sobre a possibilidade de não ter margem após uma nova derrota. Segundo ele, a sensação era de que seu trabalho estaria em risco: “Sem dúvida foi uma vitória obrigatória. Eu senti que meu posto estava em jogo. Tento não ficar remoendo demais, mas, como eu sempre digo, eu sou humano. Às vezes a mente exagera, e isso pode ser meu problema. Preciso viver mais o momento, sem pensar demais.”

O atleta ainda completou que pensar em consequências fazia parte do peso do pensamento, mesmo sem ter sido informado diretamente sobre qualquer punição: “É assustador pensar que, se eu perder essa luta, talvez eu seja dispensado. Ninguém me falou isso diretamente, então eu só estava imaginando. Talvez eu não precisasse fazer esse tipo de suposição, mas no fim eu precisava vencer. Simplesmente esse era o ponto final.”

O contexto do UFC e o que aconteceu com Patchy Mix

O tema “cobrança imediata” também ganhou força no cenário do atleta por conta do movimento recente de outros lutadores vindos de fora do UFC. Pico afirmou que sua chegada como agente livre de alto perfil aconteceu após Patchy Mix fazer o mesmo em 2025.

Na época, Mix era visto como um dos melhores pesos-galos do esporte, independentemente de promoção, e havia uma expectativa grande para que ele causasse impacto logo na estreia. Porém, o desempenho não saiu como o hype sugeria: na luta de estreia no UFC, ele acabou derrotado em decisão dominante por Mario Bautista. Depois, sofreu mais uma baixa, desta vez em um resultado ainda mais apertado, com nova derrota em decisão dividida para Jakub Wikłacz.

Poucos meses mais tarde, Mix foi desligado do UFC e seguiu para o elenco do RIZIN. Para Pico, embora cada história tenha particularidades, o recado parecia inevitável: o entusiasmo pode virar pressão imediata, e uma segunda derrota poderia rapidamente alterar o destino do lutador.

“É negócio” e a importância de não se achar especial

Quando falou sobre o risco real do ambiente, Pico reforçou que não existe garantia e que o UFC opera como uma empresa, sem privilégios. “Você nunca sabe. Não dá para presumir nada. Eu não sinto que tenho qualquer tipo de garantia ou privilégio. É negócio. Sem ressentimentos. As pessoas tocam a organização do jeito que acham correto, e isso é para todo mundo. Ninguém é especial. Você pode ser dispensado a qualquer momento. Eu não encaro isso como algo garantido. Eu não me sinto acima de nada”, afirmou.

Ele também descreveu como tentou se concentrar no que está sob seu controle antes de entrar na jaula. “Por isso eu só quero fazer o meu trabalho. Quero fazer o melhor possível, entregar um bom espetáculo, mas eu precisava ser inteligente e eu precisava vencer.”

Ao lembrar da semana de preparação, Pico disse que o clima foi melhor do que ele esperava, reduzindo a tensão. “Às vezes você sente pressão, mas eu posso falar que indo para a semana de luta eu tive os melhores momentos. Eu estava com minha equipe. A gente aproveitou. A perda de peso foi bem, bem tranquila. E eu falei para mim mesmo: o pior já aconteceu. Eu já fui nocauteado no maior card do ano, diante de uma quantidade enorme de pessoas, provavelmente milhões assistindo. Eu estava muito tenso antes daquela luta. Então, na próxima vez, algumas horas antes de entrar na jaula, é para deixar fluir. Faça dentro do octógono aquilo que você treinou no sparring, do mesmo jeito, e aproveite o momento. Eu queria ter dito isso antes no começo da minha carreira.”

O que ele entendeu após a derrota para Lerone Murphy

O revés contra Murphy na estreia no UFC também serviu como aprendizado sobre o próprio estilo. Pico reconheceu que a postura agressiva, “para cima” o tempo todo, que rende bons recortes e momentos de destaque, não seria sustentável no longo prazo do jogo.

“Ser ‘chato’ nunca foi meu problema”, declarou. “Desde a base, no wrestling, eu sempre fui alguém que trazia energia. As pessoas queriam ver eu lutando em pé e também no chão porque eu colocava intensidade. Eu não costumava jogar pelo seguro. Mas eu sei que, se eu segurar um pouco, eu ainda consigo ser empolgante, só que com mais inteligência. Isso não é wrestling. Não é boxe. É MMA. Com luvas menores, muita coisa pode acontecer.”

Ele avaliou especificamente a luta contra Lerone e concluiu que parte do que aconteceu foi desnecessário. “Eu precisei analisar de verdade o meu jogo. Na luta contra o Lerone, sim, eu parecia dominante, mas foi só isso: foi desnecessário. Vamos falar como é: foi desnecessário. Os dois primeiros minutos foram insanos. Se eu tivesse dado um passo para trás, usado melhor meus deslocamentos, levado ele de novo para baixo, segurado ele, com o tempo ele teria apagado. Mas tudo acontece por um motivo.”

Vitória mais madura e o primeiro “top 15” no UFC

Mesmo com um desempenho que ainda manteve momentos empolgantes, o confronto seguinte mostrou uma abordagem diferente. Pico entrou mais paciente e com um plano mais tático para construir suas ações, sem esquecer que defender também faz parte do MMA.

O resultado foi uma vitória em placar “limpo”, em decisão que o colocou acima dos adversários em uma faixa mais alta do ranking, garantindo seu primeiro degrau dentro do top 15 do UFC.

Ao projetar a leitura do próprio caminho, Pico explicou que enxerga a performance como uma das melhores até aqui, mas sem achar que chegou ao limite. “Eu acho que foi uma das minhas melhores apresentações até agora, mas ainda não é a melhor versão de mim. Eu tenho muitas coisas para ajustar e trabalhar, especialmente depois de voltar e revisar a luta. Tem detalhes que eu sinto que posso fazer melhor, principalmente na movimentação de pés, no trabalho de cabeça, e na hora de controlar e manter ele no chão. Só que eu não posso ser tão duro comigo mesmo, porque ele é muito, muito bom. É mais fácil falar do que fazer.”

Ele concluiu com a visão de crescimento contínuo: “Eu tenho muito espaço para evoluir. E o mais importante é reconhecer que eu ainda não entendi tudo. Eu estou com vontade de aprender em todas as áreas.”

O objetivo: título dos penas e o desafio contra Alexander Volkanovski

Com sua primeira vitória no UFC, Pico deixou claro que quer somar mais uma e se aproximar do objetivo final: conquistar o cinturão na divisão dos penas. Para isso, ele sabe que precisaria passar por Alexander Volkanovski, e entende que a dificuldade seria apresentada de maneiras diferentes de qualquer adversário que ele já tenha enfrentado.

“Para lutar com o Alexander, ele é o padrão ouro. Ele é o maior peso-pena de todos os tempos. Eu não poderia lutar com ele do jeito que eu lutei contra o Lerone Murphy. Eu teria que ser inteligente. Eu teria que escolher melhor meus momentos de ataque. É isso”, disse Pico.

Ele também comparou o cenário ideal de luta e a diferença entre um momento de pressão e um momento de “jogar tudo” no desespero. “Do jeito que eu combati o Lerone no primeiro round — ok, agora se for no quinto round ou no terceiro, e eu estiver perdendo por dois, aí sim, vai para cima, começa a ficar mais louco, faz de tudo. Você pode ser nocauteado, mas é a vida. Só que naquela situação era desnecessário. Eu não precisava fazer isso. Mas você vive e aprende. Essa é a vida.”

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.