O UFC 328 terminou com um enredo que, à primeira vista, pareceu quebrar a lógica do “ódio” que tomou conta da semana. Khamzat Chimaev, até então invicto, sofreu a primeira derrota da carreira ao perder o título dos médios para Sean Strickland no card principal do evento realizado no último sábado. A luta, porém, ficou marcada não só pelo resultado, mas também pelo clima que antecedeu o confronto — e pela forma como os dois protagonistas se comportaram depois do apito final.
O duelo que deixou Dana White sem freio
Antes da luta, a rivalidade entre Chimaev e Strickland escalou rapidamente. O CEO do UFC, Dana White, chegou a descrever o confronto como um dos mais intensos da história da organização. A tensão, que ganhou espaço nas provocações e na narrativa da semana, parecia apontar para um confronto “sem volta”.
Mas, quando o resultado foi anunciado, o cenário mudou de tom. Chimaev e Strickland apareceram sorrindo, e o russo-checheno chegou a colocar a cinta do título na cintura de Strickland no momento em que ele foi confirmado como vencedor. A imagem gerou debate imediato: muitos torcedores passaram a questionar se a briga construída publicamente era genuína ou apenas um recurso para aumentar a venda do evento.
“A gente não cria clima depois da luta”: a leitura de Chimaev
Em seguida, Chimaev tratou o tema diretamente. Para ele, o lado da “polêmica” não deve se prolongar para além do octógono. O lutador afirmou que existia preocupação por parte do público, mas garantiu que o foco segue em resultados, com continuidade nos treinos e a intenção de recuperar o cinturão.
“Muita gente ficou preocupada. A gente não vai desistir. Se for da vontade de Allah, vamos continuar vencendo, seguir treinando. A motivação ainda está lá. A gente ainda quer pegar o cinturão”, disse Chimaev, em vídeo publicado em suas histórias no Instagram.
O campeão também comentou a parte mais sensível da história: o porquê de ter cumprimentado o adversário e, principalmente, a decisão de colocar a cinta nele após a derrota. Chimaev alegou que não existe, entre eles, o costume de conversar ou lutar “depois que o combate termina”, reforçando que tudo o que tinha que ser feito foi feito dentro do cage.
“E sobre esse cara… ele falou muita coisa desnecessária. As pessoas perguntaram por que eu dei a mão pra ele e por que eu coloquei a cinta depois. Não temos o hábito de falar ou lutar após uma derrota. Se a gente luta, a luta é dentro da jaula, e a gente lutou da melhor forma possível. O que Allah decidiu não está mais sob nosso controle”, completou.
Chimaev ainda reforçou que, apesar da narrativa de atrito, o pedido de desculpas pós-luta teve peso. Para ele, se o adversário reconhece o que fez, existe espaço para perdoar.
“Ele abaixou a cabeça e pediu perdão. Se uma pessoa pede desculpas, eu posso perdoar.”
A reverência pelo gesto e o pedido de revanche
Mesmo com a ausência de rancor, Chimaev acredita que a história ainda não acabou. O motivo é simples: Strickland venceu por decisão dividida, e o próprio contexto do UFC 328 — fortemente alimentado pela animosidade pessoal — abriu a possibilidade de uma segunda chance mais alinhada ao que ambos esperavam.
Segundo integrantes da equipe de Chimaev, a revanche é o único caminho que faz sentido no momento. A mensagem foi clara: há uma obsessão pela volta do duelo, e não existe espaço, por enquanto, para outra escolha.
“A revanche contra Sean Strickland é a única luta que o Khamzat quer. Ele está obcecado com isso. É a única luta que ele vai aceitar agora”, afirmou a equipe do lutador.
Apesar da vontade declarada, permanece a incógnita sobre se o UFC vai atender o pedido. A razão é que uma parcela grande do combustível do confronto do UFC 328 foi justamente a tensão pessoal entre os dois, e isso pode influenciar diretamente o planejamento do calendário do peso.
O que Strickland tem pela frente
Enquanto Chimaev busca a volta ao caminho do título, Strickland já teria outro capítulo em aberto. O norte-americano estaria com uma disputa quente em andamento contra Nassourdine Imavov, apontado como um dos principais nomes na divisão. Caso essa rota não se concretize, surge ainda a possibilidade de um confronto em formato de trilogia com Dricus du Plessis, ex-campeão que acumula duas vitórias sobre o próprio Strickland.
Outros movimentos e destaques do MMA
Além do tema central envolvendo Chimaev e Strickland, a semana trouxe outras movimentações do circuito. Para o UFC Vegas 117, estão programados Modestas Bukauskas (19-7) contra Christian Edwards (8-4) no dia 16 de maio, além de Tommy Gantt (11-0) enfrentando Artur Minev (7-0) também na mesma data. No PFL San Diego, marcado para 27 de junho, Ariane Lipski da Silva (18-11) encara Jena Bishop (10-3).
Nos bastidores do noticiário, também apareceram menções a conteúdos e prévias em vídeo, além de publicações nas redes sociais envolvendo retorno a academias e preparação para novos capítulos. Nesse fluxo, o tema da revanche seguiu como assunto dominante entre os torcedores.
Reflexão final: o “kayfabe” em xeque
Com o gesto de boa convivência após a luta e as falas posteriores, o caso reacendeu uma discussão antiga no MMA: a ideia de “forçar” rivalidade para vender o espetáculo. A crítica é que, quando a história muda drasticamente logo depois do combate, o público pode sentir que foi tratado como ingênuo — e, nesse tipo de virada, a quebra do “kayfabe” costuma ser mais contundente do que parece.
Ainda assim, o esporte segue com a mesma lógica de sempre: números, narrativa e momentos que chamam atenção. E, para Chimaev, independentemente do quanto a rivalidade tenha sido construída fora do octógono, o objetivo continua no mesmo lugar — recuperar o cinturão e encerrar a história do jeito que ele considera inacabado.

