Khamzat Chimaev chegou ao auge no momento em que entrou no Octógono — e a postura não mudou desde então. Da forma como ele acelera rumo ao cage até o instante em que volta pelo corredor, a impressão é de que o adversário nunca consegue respirar. Em muitos combates, o trabalho termina cedo, mas o que ficou ainda mais claro na campanha que o colocou como campeão ao derrotar Dricus Du Plessis no UFC 319 foi a capacidade de manter o ritmo por completo, retirando o fôlego e a energia de oponentes de elite rodada após rodada.
Mesmo com a vitória dominante, parte do público demonstrou certa decepção com o desfecho. Ainda assim, a atuação respondeu uma dúvida importante: Chimaev consegue “ir fundo”, encarar rounds mais longos e se manter eficiente no alto nível. Na prática, aqueles minutos foram quase sempre de controle absoluto, mas 25 minutos dentro do ambiente de um evento pelo título continuam sendo 25 minutos — e o tempo no cenário de campeonato serviu para que “Borz” incorporasse ainda mais repertório e confiança ao iniciar a fase como campeão dos meio-médios.
Antecedentes
Desde que conquistou o cinturão em agosto de 2025, a pergunta que ficou pairando no ar foi direta: quem seria capaz de derrubar Chimaev do topo e quando surgiria o primeiro candidato com chance real. Contendores tentaram se aproximar do caminho do título, com Nassourdine Imavov em destaque, que somou vitórias sobre Israel Adesanya e Caio Borralho ao longo de 2025.
Apesar da movimentação no ranking, a tensão mais antiga do circuito ganhou força quando Sean Strickland — com quem Chimaev já havia treinado no passado — voltou a protagonizar capítulos fora e dentro do octógono. O confronto decisivo para essa história aconteceu em fevereiro, quando Strickland venceu Anthony “Fluffy” Hernandez.
Strickland, que costuma manter o foco na trocação, usando ritmo, pressão e movimentação para desgastar o adversário com o tempo, passou a ser ainda mais agressivo no discurso depois da vitória sobre Hernandez, que vinha em sequência. Chimaev não só respondeu, como deixou claro o que queria: “chamar” o oponente para o confronto.
“Depois da última luta dele, ele estava falando muita coisa sobre mim”, disse Chimaev. “Eu liguei para o Hunter (Campbell), o chefe de negócios da companhia, e pedi: ‘Me dá esse cara’.”
Com isso, o duelo foi oficializado e colocado como luta principal do UFC 328, no retorno do evento a Newark.
A luta
Ao projetar como a disputa deve se desenrolar, Chimaev manteve a postura de quem não quer limitar o combate a um único cenário. Para Strickland, a preferência costuma ser deixar a ação em pé, onde ele consegue trabalhar com cadência e pressão para quebrar a resistência do rival conforme os minutos passam. Só que Chimaev não aparenta disposição para aceitar um combate “no conforto” do americano.
O campeão, porém, evitou cravar um roteiro exato para o dia 9 de maio. “Eu não tenho um plano de jogo”, afirmou. “Eu só entro no octógono e faço o que eu sei. Se for para terminar mais cedo, eu vou ficar feliz. Se for cinco rounds, eu também vou ficar feliz, porque vou conseguir bater nele.”
Na leitura de muita gente, “plano de jogo” pode soar como “forma de vencer”, mas o caminho que Chimaev costuma oferecer é bem conhecido: o grappling em nível incomum. Na divisão de meio-médios, ele sustenta marcas históricas do esporte em controle e dominância posicional, com 76,3% de tempo de controle e 74,2% de aproveitamento em posição de topo.
Outro ponto que reforça a sensação de superioridade é o comportamento no período de preparação. Chimaev já comentou que ajusta o ritmo do treino para manter a saúde durante a preparação, em vez de tentar “ir mais forte” o tempo todo. Aos 32 anos, a avaliação é que ele pode estar entrando no auge atlético justamente agora, no início do reinado como campeão.
Apesar disso, existe um elemento que adiciona imprevisibilidade: Strickland é um grappler confiante, ainda que sua defesa contra quedas esteja em 76%. Em outras palavras, ele até resiste, mas não é um número que garanta segurança total. Além do aspecto técnico, o clima em torno do duelo também tende a mexer com o lado mental de qualquer atleta. Por enquanto, as tensões parecem controladas, já que os dois evitaram atrito durante a semana de lutas. Mesmo assim, Chimaev segue ansioso para colocar as mãos no rival e assegurar a primeira defesa do cinturão.
O pós-luta
Se Chimaev vencer, a próxima pergunta provavelmente será quando ele voltará ao octógono para o segundo compromisso. Isso faz sentido porque a disputa chega cerca de nove meses depois de ele ter conquistado o título, considerando também a trajetória recente do campeão, que chamou atenção ao surgir no cenário com duas vitórias em apenas 10 dias durante a turnê na Fight Island.
Nos últimos três anos, a cadência foi de uma luta por ano, o que irrita parte do público que gostaria de ver Chimaev mais frequentemente no cage — ainda mais agora, com ele no topo da categoria. Mesmo assim, o interesse em competir novamente apareceu com clareza quando o evento anual rumo a Abu Dhabi se aproximou, já que Chimaev agora considera o local como parte de sua rotina.
Enfrentar os adversários mais difíceis costuma ser a marca de alguns dos maiores nomes já vistos no esporte, mas, no fim, nada substitui vencer. Em 19 lutas profissionais, é exatamente isso que Chimaev tem feito. E como as pessoas vão lembrar dele como lutador, por enquanto, não parece ser prioridade. A ideia é simples: seguir focado no próximo desafio.
“Eu só quero ser um bom lutador, o melhor lutador”, declarou. “Eu não penso em legado. Eu só vou para a luta, vou vencer a luta e o resto vem depois.”

