O UFC 328 chega com uma trama que, apesar de prometer muito barulho fora do octógono, tem no papel principal a promessa de um duelo de alto nível dentro da jaula. Khamzat Chimaev e Sean Strickland encabeçam o card em Newark, e a expectativa em torno do confronto só aumenta porque os dois carregam estilos e histórias que transformam qualquer encontro em batalha de atrito. Chimaev entra como campeão do peso-médio e segue invicto, enquanto Strickland chega como ex-campeão e costuma ser um dos adversários mais chatos para qualquer um no 185, seja para nomes que já escreveram seu nome na história, como Israel Adesanya, ou para candidatos quentes como Anthony Hernandez. Mesmo assim, é difícil ignorar a possibilidade de a “aura” de invencibilidade de Chimaev ser colocada à prova por um lutador que sabe sobreviver em meio ao caos e que, em teoria, pode bagunçar o roteiro do adversário.
O encontro principal também ganha contornos interessantes quando se olha para como o camp de Chimaev lidou com desafios recentes. Antes de pensar na chance de Strickland ser o primeiro a provocar uma derrota no russo, vale lembrar as duas situações em que Chimaev teve seus limites colocados à mostra. Em um dos confrontos mais difíceis, Gilbert Burns levou Chimaev a uma decisão disputada, sustentando o combate em pé com uma defesa de quedas eficiente, além de apresentar boxe sólido e, principalmente, resistência de quem não se apavora em momento nenhum. O veterano, já fora do circuito, sempre foi um grappler de elite, e por isso fez sentido ver que ele conseguiu manter a luta “em pé” tempo suficiente para obrigar Chimaev a lutar no próprio ritmo do rival. Mais tarde, foi dito que o plano era buscar as quedas, mas Chimaev acabou optando por trocar mais do que deveria, e a leitura é que Burns também teve influência direta para impedir que o duelo virasse um roteiro controlado.
O outro teste forte veio contra Kamaru Usman. Ali, o início mostrou que Chimaev consegue impor seu jogo pela via da luta agarrada, colocando o adversário no chão cedo e tentando controlar a posição. Usman, porém, sobreviveu preso nas costas, resistiu por tempo suficiente para manter o confronto aceso e ainda fez a luta ficar mais competitiva nas duas rodadas seguintes. Em ambos os cenários, o que fica em evidência é que o “plano A” de Chimaev, quando encontra resistência real, pode sofrer com ruído — seja por dificuldades de execução na parte ofensiva, seja por desgaste que ameaça o desempenho quando o ritmo não sai como o lutador gostaria.
Para Strickland, a missão vai além de “evitar a finalização” ou simplesmente “não cair”. A chave para o ex-campeão, nesse contexto, é travar as tentativas de queda e, principalmente, transformar eventuais quedas em ataque, usando a própria oportunidade para responder com ofensividade e, com isso, passar uma mensagem para Chimaev. Se o desafiante conseguir manter o combate do lado de fora por tempo suficiente e, ao mesmo tempo, impor algum tipo de problema quando as lutas agarradas acontecerem, a chance de acelerar o esvaziamento do gás de Chimaev cresce. O controle de distância, aliás, aparece como um ponto que pode jogar a favor de Strickland, já que ele costuma ter competência para administrar o espaço e escolher quando vai entrar. A leitura, então, é que Strickland precisa vencer três rounds para que a possibilidade de vitória entre no campo do plausível.
Ainda assim, a escolha mais natural, pelo histórico recente e pelo tipo de arma que Chimaev vem demonstrando, tende a ser o campeão. A impressão que sobra é que, mesmo com os testes, Chimaev tem mostrado uma capacidade que dificulta muito a vida do adversário quando o jogo engrena: a chance real é ver Chimaev encaixando a pressão no chão, prendendo Strickland e transformando o domínio em dano até que a luta termine com a manutenção do cinturão. Por isso, a aposta fica em Chimaev para sair com o título.
Van x Taira abre o caminho com grappling em destaque
No coevento principal, Joshua Van e Tatsuro Taira prometem dividir atenções pela forma como o combate pode se desenhar. A expectativa é de que a maior parte do discurso gire em torno do jogo de quedas e do controle no solo. Tatsuro Taira chega com a marca de quem já mostrou excelência na luta agarrada e deve colocar o adversário no chão para trabalhar suas posições e ameaças. Ao mesmo tempo, Taira tem apresentado evolução rápida na parte de trocação, a ponto de, caso Van queira impor um duelo mais “de trocação”, Taira não deve recuar e tende a aceitar o desafio.
Van, por sua vez, tem apenas 24 anos e chama atenção pela versatilidade fora do comum para a idade, além de parecer evoluir de forma acelerada entre as aparições no octógono. Seu estilo em pé costuma entregar alto volume com boa precisão, e a tendência é que ele encare a primeira defesa como quem não vai ficar tímido para “esperar”. Depois de passar os últimos meses ouvindo críticas sobre a legitimidade do posto de campeão, é esperado que ele descarregue frustrações em cima de Taira, tentando tornar o ritmo do combate desconfortável. Apesar disso, a leitura mais forte é que Taira está mais avançado no desenvolvimento do que muita gente imagina e que a hora de “aprovar” a condição de campeão chegou agora, não no futuro.
Assim, a previsão é de que Taira consiga implementar seu plano no chão pelo tempo necessário para encontrar a vitória — seja por finalização, seja por um nocaute técnico vindo da pressão e do trabalho pesado no solo. A escolha, portanto, é Taira para vencer.
Volkov, Brady e Green também entram em cena no card
Em seguida, Alexander Volkov enfrenta Waldo Cortes-Acosta em uma luta que pode ter impacto direto na forma como os juízes enxergam o desempenho do letão. Volkov atravessa um período estranho, com duas lutas que terminaram em decisão dividida, resultado que evidencia como os detalhes têm pesado contra ele quando o combate não termina cedo. A curiosidade aqui é observar se o camp colocou mais ênfase em finalizar Cortes-Acosta, justamente para evitar o risco de voltar a depender da avaliação do placar, ou se a equipe acredita que Volkov consegue cumprir seu jogo sem precisar fugir do roteiro. No ambiente do confronto, a postura de Cortes-Acosta tende a ser fiel ao que já mostrou: manter-se solto em pé, esperar aberturas para acertar golpes grandes e, em alguns momentos, misturar luta agarrada para bagunçar o timing do rival. É provável que Volkov tente derrubar primeiro para bloquear a ofensiva do adversário, mas existe um ponto que muda o cenário: Cortes-Acosta tem alguma capacidade de lutar agarrado e isso pode servir para surpreender e inverter a iniciativa.
Em termos de aposta, a preferência segue para Volkov, mesmo com a imprevisibilidade do que vem acontecendo em lutas de três rounds. A vantagem de experiência pesa, assim como um leve recorte de tamanho e, principalmente, a sensação de que ele pode ter ajustado a forma de vencer de modo mais convincente. Assim, a escolha vai em Volkov.
No duelo seguinte, Sean Brady encara Joaquin Buckley em um confronto que, na prática, ganha cara de “tudo ou nada” para o futuro dos dois na divisão. O peso dos 170 libras está extremamente disputado, e uma derrota pode jogar o lutador para muito longe do caminho do título. Brady e Buckley sabem disso depois de terem visto suas sequências vencedoras serem interrompidas: Brady perdeu após sequência ser quebrada por Michael Morales, enquanto Buckley teve o mesmo destino diante de Kamaru Usman. Duas derrotas seguidas, nesse cenário, seriam um golpe difícil de recuperar.
Um detalhe que torna o combate ainda mais interessante é que Buckley treinou com Usman para esta luta. Como a luta agarrada ainda é uma das fragilidades mais conhecidas de Buckley, a oportunidade de passar tempo com um dos melhores meio-médios da história pode ajudar a corrigir falhas e melhorar a base defensiva. O ajuste precisa funcionar, porque Brady tem um perfil que tende a transformar qualquer deslize do adversário em problema rápido. A leitura é que Brady não vai hesitar em deixar a luta “feia” se Buckley começar afiado na trocação, usando a própria versatilidade para impor um ritmo que reduz as chances do rival trabalhar livre.
Brady não precisa ser espetacular o tempo todo: sua missão é controlar a dinâmica do combate, apagar a ofensiva de Buckley e, ao mesmo tempo, produzir dano com consistência. Fora os tropeços contra Morales e Belal Muhammad, a capacidade de vencer mesmo sem forçar um espetáculo sempre esteve presente. Diante disso, a aposta vai em Brady, com a expectativa de ele protagonizar uma boa atuação para a torcida que deve lotar o ambiente em apoio ao lutador da Filadélfia.
Fechando as previsões do bloco principal do card, King Green encara Jeremy Stephens. A expectativa é de que Stephens siga sem vencer no UFC desde 2018, e o cenário não parece favorável para que a sequência mude agora. A combinação de “idade e fase” do confronto foi acertada pela produção do card, já que Green tem mostrado que consegue ir além de apenas competir com a geração atual dos leves, enquanto a última vitória de Stephens no octógono aconteceu quando ele ainda atuava no peso-pena, aos 145. Mesmo com o estilo de Green, que pode ser mais aventureiro e, em noites específicas, permitir que ele seja punido por qualquer golpe pesado — especialmente contra alguém com a força de Stephens — a tendência é que Green não cometa um erro “clássico” por conta própria desta vez. Além disso, a percepção é de que Stephens retorna com uma energia diferente, quase como se estivesse só feliz por estar no circuito, e isso tende a não ser suficiente contra um adversário que chega com confiança.
Green tem velocidade e repertório técnico que podem dar a vantagem, e desde que ele não brinque e acabe pagando o preço por um golpe grande de Stephens, a tendência é que o combate seja mais controlável. Assim, a escolha fica em Green para vencer por decisão.
Na parte preliminar, o card teve os seguintes resultados: Ateba Gautier venceu Ozzy Diaz. Joel Alvarez superou Yaroslav Amosov. Grant Dawson derrotou Mateusz Rebecki. Jim Miller levou a melhor sobre Jared Gordon. Marco Tulio venceu Roman Kopylov. Pat Sabatini derrotou William Gomis. Baisangur Susurkaev venceu Djorden Santos. Clayton Carpenter saiu com a vitória diante de Jose Ochoa.
O UFC 328 acontece neste sábado, 9 de maio, no Prudential Center, em Newark, no estado de Nova Jersey. A programação prevê um card preliminar com quatro lutas começando às 17h (horário de Brasília/ET conforme a transmissão local), seguido por mais quatro combates preliminares às 19h (ET). O card principal, com cinco lutas, inicia às 21h (ET), e a transmissão do evento inteiro acontece ao vivo no serviço de streaming do grupo Paramount.

