Os próximos dias que antecedem o UFC 328 colocam a organização em uma situação desconfortável. No card, a empresa tem dois lutadores que alimentam uma rivalidade pesada — e que, nas últimas semanas, passaram a falar como se a briga precisasse sair do octógono. Quando o duelo de meio-médios entre Khamzat Chimaev e Sean Strickland foi confirmado como disputa de cinturão, era possível imaginar que o clima seria explosivo. Só que a tensão evoluiu rapidamente para ameaças graves, não apenas no formato “vou te quebrar aqui dentro”, mas com declarações do tipo “se eu te encontrar fora da jaula, um dos dois não vai voltar”.
Com isso, é difícil lembrar a última vez em que os termos do confronto chegaram ao ponto de deixar Dana White e a equipe de segurança do UFC visivelmente em alerta. A pergunta que fica para a semana de lutas é: o que ainda pode piorar em um confronto que já chegou a ameaças desse nível? E como essa rivalidade se compara a brigas antigas, com histórico de atritos fora do normal? Além disso, também existe expectativa sobre o que acontece com Josh Van e Tatsura Taira ao fim da noite, especialmente no coevento principal. A seguir, confira a análise em tópicos e por tema.
1) Onde Chimaev x Strickland entra na lista das rivalidades mais feias do UFC?
Para os analistas, a rivalidade entre Chimaev e Strickland tem um componente “perturbador” que vai além do duelo esportivo.
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Alexander K. Lee: coloca o confronto em posição alta quando o assunto é violência real colocada em discurso. Ele ressalta que, do ponto de vista estritamente técnico, a comparação com rivalidades históricas ainda deixa margem para outras lutas — como o caso em que dois astros dividiram o palco repetidas vezes e se provocaram de forma direta. Ainda assim, o salto para o campo de ameaça envolvendo “armas” torna o cenário especialmente preocupante, porque a discussão deixa de ser sobre quem é melhor e passa a ser sobre execução fora do contexto do combate. Por isso, ainda que existam brigas mais relevantes no UFC, ele classifica esse enredo como “sem sentido, tosco e feio”.
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Damon Martin: aponta que o debate em torno do combate não chegou a ser tão tóxico quanto poderia ter sido, já que Strickland, em vários momentos, recorreu a provocações repetidas ligadas à origem do adversário e à relação próxima que Chimaev teria com o líder político Ramzan Kadyrov. Ele compara com um exemplo anterior bem mais intenso, lembrando que, em 2018, o preparo entre Khabib Nurmagomedov e Conor McGregor atravessou tantas linhas que, ainda que hoje pareça distante, existia a chance de briga caso os grupos voltassem a se encontrar no mesmo ambiente. Martin também cita o histórico de “quase colisões” entre Strickland e Dricus du Plessis antes da primeira luta entre eles, quando as ofensas à criação do americano e à família estouraram após um episódio em que Strickland atacou o rival em evento do UFC, atravessando áreas de espectadores. Mesmo assim, a declaração recente de que levaria uma arma para Nova Jersey — e que estaria pronto para atirar caso fosse abordado — aumenta o peso do conflito. Na avaliação dele, a animosidade está construída muito mais sobre a possibilidade de agressão física do que sobre o que cada um diz antes do UFC 328. Ele ainda destaca que Chimaev costuma “resolver no backstage”, e que a ameaça de um confronto fora do octógono parece mais plausível do que um ataque apenas verbal.
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Jed Meshew: concorda com a leitura de que não se trata de uma previsão elegante, mas afirma que a comparação feita por Damon é correta. Para ele, apesar da gravidade do cenário, essa rivalidade ainda não se aproxima do nível mais pesado que já apareceu em confrontos anteriores envolvendo provocações além do aceitável. Ele também lembra que, por ora, o que aconteceu entre Strickland e Chimaev ficou mais no campo de provocações verbais. Meshew acrescenta que, mesmo com a postura de “vou até a morte”, Strickland costuma entrar no ritmo de luta com jabs e chutes, sugerindo que há diferença entre o que o lutador anuncia e o que ele executa. Ainda assim, ele ressalta que tudo pode mudar caso um dos dois perca o controle ou a semana destrave um episódio fora do roteiro — e torce para que nada realmente trágico aconteça.
2) Quem vencer o coevento principal do UFC 328 vai ser, de forma incontestável, o número 1 no ranking dos pesos-mosca?
O consenso é de que sim — com ressalvas sobre a “cadeira” do topo depender do desfecho e do retorno de Alexandre Pantoja.
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Jed Meshew: responde afirmativamente, mas com a ideia de que o vencedor fica no topo com firmeza no papel, porém sem garantia absoluta de permanência longa. Ele explica que Joshua Van é, para ele, o peso-mosca número 1 porque conquistou o cinturão com mérito direto. Meshew admite que a vitória teve elementos de “sorte” ou circunstância favorável, mas reforça que vitória conta e, principalmente, que Van não fez nada errado. Já Tatsura Taira, apesar de não ser o desafiante mais “merecedor” na visão dele, foi quem recebeu a oportunidade, então, se Taira vencer, ele vira o campeão verdadeiro na divisão.
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Alexander K. Lee: entra na discussão lembrando que ninguém sabe quando Pantoja volta. Ele argumenta que o brasileiro mereceria uma disputa imediata pelo título ao se recuperar, mas que não é justo com Van ou com Taira terem que esperar que a “anotação” de melhor do mundo em 125 libras seja feita apenas quando Pantoja for novamente colocado no topo. Lee afirma que o painel manteve Pantoja em primeiro lugar mesmo após a derrota para Van, não só pelo resultado, mas pelo histórico construído até aquele momento. Caso Van vença, Taira, Brandon Royval e, tecnicamente, Pantoja entram no currículo do campeão, além da vitória sobre Bruno “Bulldog” Silva — um pacote que ele considera forte para o topo. Se Taira vencer, Lee diz que o japonês passa a contar com Van, Alex Perez e Brandon Moreno como conquistas em uma prateleira de nomes históricos. Para ele, embora os feitos de Van e Taira ainda não superem Pantoja, faz pouco sentido negar o primeiro posto ao vencedor do coevento principal do UFC 328 enquanto existe a possibilidade de um retorno demorado de Pantoja para defender a posição.
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Damon Martin: concorda com a lógica, mas destaca a leitura do público. Em tese, o vencedor de Van ou Taira deveria celebrar como o campeão incontestável dos moscas, porém, na opinião geral, ainda existe a exigência de passar por Pantoja. Ele cita o motivo central: uma lesão “estranha” encerrou a sequência dominante do brasileiro, e a expectativa é que ele volte em breve — o que evitaria um cenário parecido com o de Dominick Cruz, que ficou anos afastado por múltiplas cirurgias. Martin também ressalta que Pantoja era campeão por várias defesas e não apenas alguém que conquistou o cinturão meses antes e perdeu rapidamente por causa da lesão. Assim, na avaliação dele, salvo algo totalmente fora do padrão, Pantoja vem na fila. Se Pantoja enfrentar o vencedor de Van ou Taira em seguida, o debate sobre quem é o verdadeiro campeão incontestável se resolve. Porém, se houver novas pausas no retorno, a divisão segue sem ele. Martin lembra ainda que Pantoja chegou a ser sondado para substituir Van quando uma lesão o tirou do UFC 327 em abril. Não aconteceu, mas, segundo os sinais, Pantoja estaria pronto. A sugestão final é deixar a luta do sábado acontecer com ele acompanhando de perto e, em seguida, o vencedor entrar no octógono para preparar o próximo confronto contra Van ou Taira.
3) Fora das duas lutas principais, qual confronto chama mais atenção?
Os analistas direcionam a curiosidade para lutas que podem ter impacto direto na corrida de cima — e também para duelos que entregam história e intensidade.
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Damon Martin: aponta que a categoria dos meio-médios está em alta e que a lista de candidatos para encarar o campeão Islam Makhachev só cresce. No UFC 328, Yaroslav Amosov — por muito tempo visto como o melhor atleta dos 77 kg fora do UFC — fará sua segunda apresentação na organização contra Joel Alvarez. Ele relembra que Amosov atropelou Neil Magny na estreia e que o lutador traz uma combinação de grappling e wrestling que pode funcionar como resposta para o estilo de Makhachev, conhecido por dominar adversários no chão. Martin também comenta que Alvarez ainda tem apenas uma luta na nova divisão, mas vinha construindo um currículo forte nos leves antes de mudar de peso. Segundo ele, Alvarez costuma despejar ofensiva o tempo todo e tem tamanho e potência para incomodar qualquer um na categoria. A grande dúvida, então, é se Alvarez encontra um caminho para neutralizar o grappling de Amosov no UFC 328. Se Amosov conseguir dominar Alvarez como fez com Magny, isso adiciona mais um nome ameaçando o reinado de Makhachev. Se Alvarez travar a estratégia do rival e ainda garantir uma finalização ou um desfecho impressionante, ele entra na mesma disputa pelo topo. A expectativa é de uma luta empolgante.
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Jed Meshew: dedica destaque a lutas fora do radar, especialmente entre os leves. Para ele, quase todos os combates do card têm algo positivo, mas Grant Dawson x Mateusz Rebecki chama atenção por ser um exemplo perfeito do que a divisão de 155 libras costuma entregar: lutas de alto nível entre atletas fora do top 15. Meshew descreve Dawson como alguém que parece preso à “borda” do ranking — entra ocasionalmente e depois sai — enquanto Rebecki vive perto da chance real de avançar, mas frequentemente fica a um passo. Ainda assim, ele lembra que Rebecki venceu a “Luta da Noite” nos últimos três compromissos e que, na prática, quase sempre entrega entretenimento. O recado é claro: uma disputa que pode ser muito boa, mas sem receber o holofote que merece.
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Alexander K. Lee: observa que a forma de marcar lutas do UFC tem sido relativamente previsível, com confrontos entre “forças antigas” contra novos desafiante e também várias lutas que ele chama de “jogo de tabela”. Ainda assim, ele elogia a presença de algumas lutas com idade e fase compatíveis. No UFC 328, ele cita dois exemplos nos leves: Jim Miller contra Jared Gordon, e sua escolha para o tópico, King Green contra Jeremy Stephens. Lee descreve os dois como lutadores de outra época, veteranos que nunca chegaram realmente perto de uma chance de título no UFC, mas que enfrentaram alguns dos melhores que já entraram no octógono. Ele lembra que Green e Stephens somam mais de cem lutas profissionais entre os dois, e afirma que algo se perderia se eles nunca tivessem se enfrentado. Apesar de soar clichê dizer que é uma luta “para os fãs raiz”, ele reforça que o combate realmente parece feito para quem gosta do esporte em sua essência. Ele não crava quem tem vantagem, já que ambos completam 40 anos neste ano, e diz que não liga tanto para o vencedor ou para o nível técnico — ainda que, pelo histórico, não imagine um apagão. Para ele, o ponto importante é que o UFC teria abraçado um “circuito sênior” informal: se alguns atletas precisam de mais tempo do que o normal para parar, ao menos estão sendo colocados para continuar ganhando e fazendo aquilo que sabem, sem virar apenas um obstáculo para a geração seguinte.

