Daniel Rodriguez está livre. O peso-welter do UFC conseguiu, recentemente, sua liberação após ficar preso por oito meses em uma cadeia no México, consequência de uma ocorrência na fronteira, quando foi detido com maconha no interior de um veículo. O atleta chegava em alta para a temporada de 2025, depois de emendar vitórias: vinha de sua terceira sequência consecutiva, com uma decisão unânime sobre Kevin Holland no UFC 318, disputado em julho, mas acabou tendo o plano interrompido abruptamente pela prisão. Em entrevista ao programa “The Ariel Helwani Show”, Rodriguez detalhou o período no cárcere e explicou como foi parar nessa situação.
O relato de Daniel Rodriguez na prisão
Rodriguez afirmou que aquela foi a primeira vez que ficou encarcerado em um presídio mexicano e não poupou críticas à experiência. De acordo com ele, apesar das dificuldades, conseguiu usar recursos que encontrou no local para manter alguma rotina de treino. Ainda assim, o lutador ressaltou que as condições eram muito inferiores ao que ele considera ideal para preservar condicionamento físico e desempenho.
O brasileiro descreveu a rotina na área externa como limitada: segundo ele, havia apenas duas oportunidades semanais para ir ao pátio, e nesses dias ele conseguia correr. O atleta disse que aproveitava ao máximo esse tempo, passando a maior parte da atividade correndo, o que o fez sentir que “parecia um maluco” apenas fazendo voltas e mais voltas. Ele também explicou que, fora da corrida, a estrutura para manter o ritmo era bem restrita.
Para Rodriguez, o ponto mais duro não foi o cansaço do treino improvisado, e sim a alimentação. O peso-welter relatou que passou por um quadro de má nutrição, se sentindo fisicamente debilitado, principalmente por estar longe de uma dieta adequada. Ele lembrou que vinha de uma luta importante, com o corpo saudável e na melhor forma, mas que depois foi trancafiado, sem mobilidade e recebendo o mínimo para sobreviver, o que considerou “terrível”.
Reconhecimento, VIP e “strings” para melhorar a situação
Rodriguez explicou que, nas primeiras horas do processo, a notoriedade como lutador acabou virando um elemento ambíguo dentro do sistema prisional. Na primeira audiência, um agente o reconheceu e começou a pedir fotos, o que, na visão do atleta, aumentou a exposição dele. Ele afirmou que os carcereiros ficaram tirando imagens na hora e que alguns detentos notaram o movimento, fazendo perguntas e tentando entender quem ele era.
O lutador contou que preferiu não chamar atenção. Para ele, estar no papel de uma figura pública cria um “alvo nas costas”: pessoas podem querer testar limites e ele disse que, por isso, buscou manter o menor perfil possível.
Depois que entrou no presídio, Rodriguez descreveu uma realidade ainda mais caótica. Segundo o relato, nas primeiras cerca de 12 dias ele ficou em uma cela com seis pessoas, mas havia aproximadamente 25 detentos no espaço. Ele mencionou que alguns dormiam no chão, havia dois homens por beliche e que não conseguia descansar. O atleta classificou o ambiente como “o pior cenário” que consegue imaginar.
Apesar disso, ele indicou que, com o tempo, a informação sobre sua presença se espalhou e acabou sendo transferido para uma área de tratamento diferenciado, o chamado “VIP”. Rodriguez disse que sentiu que recebeu mais cuidado e “carinho” do que esperava, mas admitiu que, por dentro, também pensou que poderia estar sendo usado como um tipo de proteção por alguma figura local.
O peso-welter ainda afirmou que conseguiu melhorar sua condição graças a contatos. Ele citou a existência de “pessoas com influência” que ajudaram a destravar situações, embora, no início, ele acreditasse que estava em sério perigo. Rodriguez também mencionou que, no período, utilizou essas conexões para conseguir algum tipo de equipamento de treino e montar atividades físicas para não perder completamente o ritmo.
Treino e a postagem após a liberação
Já fora do sistema, Rodriguez publicou recentemente um vídeo comemorando a própria saída, com imagens do seu treinamento. No conteúdo, ele afirma que teria pago guardas para conseguir realizar um trabalho com manoplas (“mitt work”), uma forma de manter o trabalho de golpes mesmo com limitações durante a prisão.
Como ele foi parar na prisão: o que aconteceu na fronteira
Rodriguez explicou que tudo começou com a decisão de comemorar sua vitória sobre Kevin Holland. Ele descreveu que, após o combate, foi de férias e atravessou a fronteira rumo ao México. O lutador afirmou que esqueceu que levava consigo uma pequena quantidade de maconha: segundo ele, era “menos de uma onça” e foi encontrada durante uma abordagem na linha de entrada.
De acordo com o relato, ele acreditava que ficaria preso apenas por um fim de semana ou algo próximo disso, já que imaginava que a situação seria mais curta. Contudo, o atleta disse que as leis no México são bem diferentes e que as autoridades “não brincam”. Na prática, aquilo que ele esperava virar um período rápido se transformou em oito meses de detenção, justamente no auge de sua carreira.
Ele não soube explicar com certeza por que o carro dele e de um amigo foi revistado. Ainda assim, Rodriguez afirmou que a abordagem teria ocorrido porque a placa do veículo estaria em situação irregular, com a tag com problema. O lutador também sugeriu que a tensão política atual entre México e Estados Unidos pode ter influenciado o tratamento recebido, e ponderou a possibilidade de que ele tenha sido escolhido como exemplo.
Rodriguez também afirmou que não foram apenas policiais comuns: na história dele, quem esteve envolvido foi a patrulha de fronteira e até a guarda nacional, o que, segundo ele, tornou o episódio mais rigoroso do que ele imaginava. Ele disse que não esperava que levassem aquilo tão a sério a ponto de ser enquadrado com acusação ligada a contrabando. O atleta relatou ainda que tentou oferecer dinheiro para resolver a questão imediatamente, mas que as autoridades não aceitaram.
Trâmites judiciais e o caminho até a liberdade
O que Rodriguez esperava que fosse uma estadia de até 48 horas acabou se alongando por meses, com audiências que iam e voltavam sem um desfecho definitivo. Ele contou que teve várias datas de tribunal e que, em algumas delas, acreditou que sairia, mas acabou não saindo. O lutador também citou que, em uma reunião realizada em março, recebeu uma notícia particularmente desanimadora: disseram a ele que não haveria liberação e que ele poderia ficar preso até o verão.
Rodriguez atribuiu o tempo prolongado à forma como o sistema judicial mexicano funciona, afirmando que o procedimento é um “mundo diferente” e que não havia urgência para avançar com o caso. Ele disse que a experiência foi feita de altos e baixos, mas que chegou a pensar que o cenário mais provável seria permanecer no cárcere até junho ou julho.
O peso-welter creditou sua formação no MMA por ajudar a atravessar os momentos mais difíceis. Na visão dele, não foi apenas a disciplina aprendida no esporte que deu força para encarar a situação, mas também a existência de um suporte externo que se consolidou no processo. Ele declarou que, como parte de sua trajetória, isso não era algo totalmente fora do que ele já tinha vivido, mas que ainda assim era uma etapa dura.
Rodriguez também falou sobre programas e projetos. Segundo ele, o MMA permite que ele e outras pessoas iniciem ações para ajudar jovens, oferecendo oportunidades e uma alternativa a problemas ligados a grupos criminosos, destacando que disciplina e perspectiva de futuro são ensinamentos que ele tenta transmitir.
Dentro do México, Rodriguez citou o apoio de um treinador e de pessoas ligadas ao Entram Gym, mencionando que recebeu uma carta de recomendação de Raul. O atleta disse que teve muito apoio no local, incluindo diversos lutadores. Ele mencionou Yair Rodriguez, além de Brian Ortega, como parte do grupo que esteve ao lado dele. Rodriguez também afirmou que sua equipe de gestão e o próprio UFC tentaram participar para ajudar, mas que a margem de atuação era limitada, já que o governo mexicano não estava aberto a ceder.
Liberação e planos para o retorno
Rodriguez não detalhou exatamente como conseguiu a liberação, mas deixou claro que atribui o avanço ao trabalho de sua equipe jurídica e ao esforço em acionar os caminhos corretos. Agora, aos 39 anos, o atleta quer retomar a carreira. Mesmo após oito meses sem condições ideais de treinamento, ele disse estar confiante para conseguir fechar uma luta em 2026.
O brasileiro declarou que já recebeu boas propostas. Ele mencionou que Kevin Holland tentou entrar em contato pelas mensagens no dia anterior, mas afirmou que não tem interesse nesse reencontro, já que ele diz ter vencido o adversário. Rodriguez ainda declarou que quer mirar o topo e, por isso, estaria considerando um combate contra Leon Edwards. Para ele, o plano seria estar pronto em cerca de três meses, caso consiga organizar a luta e retomar o ritmo completo.

