Para muitos, o duelo entre Elisha Ellison e Gable Steveson pode soar como uma “luta de ajuste” para garantir a vitória do atleta recém-chegado ao UFC. Mas o norte-americano não enxerga dessa forma. Para ele, a missão de recepcionar o vencedor do ouro olímpico no wrestling em 2020 é, na verdade, uma chance rara de acelerar sua carreira no peso-pesado e se apresentar como um nome capaz de incomodar de verdade na divisão.
Ellison encara Steveson como oportunidade de causar impacto
Elisha Ellison chega ao combate com cartel de 5-3 no MMA e ainda sem vitória no octógono do UFC: são 0-1 na organização. Do outro lado, Gable Steveson entra invicto, com 3-0, e também fará sua estreia na liga. A pressão do favoritismo recai completamente sobre o prospecto, que aparece como franco favorito nas casas de apostas, com odds chegando a -2500 em algumas plataformas.
O confronto está marcado para 11 de julho, dentro do UFC 329, no T-Mobile Arena, em Las Vegas, com transmissão pelo Paramount+. E, apesar do cenário desfavorável, Ellison afirma que a empolgação maior está exatamente na vitrine que o duelo oferece.
“A oportunidade de chocar o mundo é o que mais me anima”
Ellison revelou que o fator decisivo para ele não foi apenas o desafio técnico, mas o contexto do combate e o volume de expectativas em torno de Steveson. Em declarações, ele destacou o respeito pelo rival e a trajetória que o levou ao UFC, mas reforçou que quer transformar a previsão do público em surpresa.
“A coisa que eu estava mais animado era o enfrentamento em si e todo o hype em cima do Gable. Tenho respeito por ele. Ele mereceu essa chance, claro, pelo histórico e pelos feitos dele. Mas o que mais me empolga é a oportunidade de chocar o mundo”, disse Ellison.
Na sequência, o lutador também associou sua confiança ao trabalho que vem fazendo e aos parceiros de treino que encontrou para lapidar o plano de jogo.
“O trabalho duro que estou colocando, os treinadores e os parceiros que tenho ao meu redor, toda a equipe com a qual tenho trabalhado… isso cria uma grande oportunidade de chocar o mundo”, completou.
Treino em novo ambiente e foco no plano de controle
Com 29 anos, Ellison trata o momento como prioridade máxima. Ele mudou de Washington para o estado do Arizona para treinar com Javier Torres, no Ultimate Kombat Training Center. No preparo, ele também vem contando com apoio de nomes do peso-pesado, incluindo o contender Waldo Cortes-Acosta, além do wrestling de Tyrell Fortune, também lutador da mesma categoria.
Para Ellison, essa mudança de ambiente já faz parte do caminho para executar a estratégia na semana do evento. A ideia central, segundo ele, é lidar com a principal arma do olimpiano: o wrestling explosivo e a tendência de tentar colocar o adversário em situações que favoreçam o controle e a pressão.
Como Ellison pretende responder ao wrestling de Steveson
Ellison descreveu Steveson como um atleta muito agressivo e difícil de conter quando consegue impor o ritmo. O brasileiro? (não aplicável) — aqui, o foco é o norte-americano explicando que, se for acertado com força, o rival tende a “voltar” ao que é sua natureza: lutar por controle e quedas.
“Ele é um lutador bem explosivo. Ele é um wrestler. Então, se ele for atingido com força, eu acho que ele vai voltar ao que é o instinto dele: o wrestling, e ele é muito bom nisso”, afirmou Ellison.
O plano, conforme o lutador, passa por tentar impor domínio no espaço do octógono e atrasar o timing do olimpiano. Ele acredita que, ao antecipar tentativas de queda, poderá estruturar respostas com golpes e criar janelas para o próprio ataque.
“O objetivo seria tentar controlar o octógono ao máximo e fazer com que ele tente as quedas no nosso tempo — isso significa preparar as situações certas, antecipar os momentos em que ele vai tentar. Porque ele é wrestler e ele é realmente bom no wrestling”, explicou.
Ellison ainda reforçou que, embora Steveson seja um atleta de nível olímpico, a luta não é uma competição de grappling puro — e sim um combate onde golpes e trocação também entram no jogo.
“É uma luta, não é uma luta de wrestling. Eu posso acertar ele e ele pode acertar eu. E isso abre espaço para várias coisas”, concluiu.
Rebote após estreia com derrota: “aprender a relaxar”
Além de tentar produzir uma das maiores zebras do ano, Ellison também busca reencontrar o caminho das vitórias no UFC. Seu primeiro compromisso na organização aconteceu mais cedo nesta temporada, no UFC Fight Night 260, quando enfrentou Brando Pericic e foi derrotado por nocaute.
Ellison atribui a atuação abaixo do esperado ao que chamou de “nervosismo do UFC”. Para ele, o problema foi o excesso de tentativa de “parecer experiente” no momento em que precisava apenas ser ele mesmo e permitir que o jogo fluísse.
O que ele diz que faltou na estreia
Quando questionado sobre o que acreditava ter comprometido sua performance no começo no UFC, Ellison foi direto ao ponto: não foi falta de capacidade, mas uma postura que reduziu a naturalidade e aumentou a contenção dentro do cage.
“Cara, só sendo eu mesmo, bro. Eu acho que porque eu lutei em Perth, eu tentei agir como se eu já tivesse estado ali e já tivesse feito isso antes”, disse.
Ele afirmou que a tentativa de controlar demais a própria atitude acabou suprimindo parte das emoções e nervos, mas também deixou o lutador sem liberdade para lutar do jeito que costuma.
“Eu acho que, ao fazer isso, eu sufoquei muitos nervos e não consegui lutar como eu mesmo. Eu estava muito contido. E, no fim, a luta não durou muito e eu não venci”, declarou.
Com isso, Ellison colocou o foco no aprendizado: relaxar, confiar no próprio ritmo e deixar as ações acontecerem. Ele acredita que, por ser um atleta rápido para se ajustar, conseguirá conduzir o combate na direção que precisa.
“Eu só preciso aprender a relaxar, bro. Relaxar, ser eu mesmo e deixar o jogo fluir. O combate sempre evolui, e eu sinto que sou um lutador que se adapta muito rápido. Então eu acho que é relaxar e deixar o jogo ir para onde ele for, e tentar direcionar isso para a minha vitória”, finalizou.
Ser o azarão: pressão do outro lado e motivação extra
Com o UFC 329 ainda a mais de um mês de distância, Ellison já sabe que a conversa, o hype e a atenção vão crescer a cada semana. O lutador, porém, afirma que gosta do papel de azarão e vê isso como vantagem psicológica — especialmente porque, segundo ele, o peso da expectativa recai sobre o adversário.
Ele também mencionou que, além do aspecto esportivo, ser subestimado pode trazer ganhos que ajudam sua vida fora do octógono: mais visibilidade e novas oportunidades de combate no futuro.
“Quando eu chocar o mundo, todo mundo vai calar a boca”
Ellison disse que aprecia a condição de underdog porque o público chega com suposições prontas e ele enxerga espaço para explorar essa brecha. Para ele, não há motivo para se pressionar — e existe muito a conquistar.
“Eu gosto de ser o azarão, cara. As pessoas já esperam que você perca, e eu tenho tudo para ganhar. Seja do ponto de vista financeiro, apoiando minha família, ou por ter mais olhos em mim — e, honestamente, isso traz melhores oportunidades de luta lá na frente”, afirmou.
Ele reforçou que o cenário de favoritismo funciona como um combustível adicional, já que a responsabilidade do resultado fica concentrada no outro lado do ringue.
“Eu gosto de ser o azarão porque toda a pressão está nele. Eu gosto de ser o azarão. Não tem nada a perder e tudo a ganhar. As pessoas já estão fazendo as suposições sobre a luta, e vai ser o que vai ser. Quando eu chocar o mundo, eu vou fazer todo mundo calar a boca”, concluiu.

