Gilbert Burns já planeja os próximos passos de sua carreira depois de encerrar a fase de atleta profissional. O ex-desafiador ao cinturão dos meio-médios do UFC colocou um ponto final na rotina de treinos e competição no último sábado, quando sofreu uma derrota por TKO para Mike Malott no card principal do UFC Fight Night 273. Para Burns, esse foi o quinto revés consecutivo na trajetória mais recente, deixando seu cartel com 22 vitórias, 10 derrotas no MMA e 15 triunfos e 10 reveses no UFC, um resultado que, segundo ele, deixou claro que aquele era o momento de seguir em frente.
Em meio ao encerramento, Burns afirmou estar satisfeito com o caminho que percorreu e disse não ter “arrependimentos”. Aos 39 anos, ele já enxergava que o período competitivo estava chegando ao fim, independentemente do que acontecesse no octógono. Por isso, vinha organizando a transição para o “próximo capítulo” com antecedência: a participação em competições de grappling, a criação de uma academia própria com foco em jiu-jitsu voltado para jovens e, também, a entrada no mercado de gestão no MMA.
Com mais de 14 anos de experiência dentro do esporte, e ainda um histórico marcante nas disputas de luta agarrada antes mesmo de chegar ao auge no MMA, Burns acumulou conhecimento e acredita que pode transformar essa bagagem em trabalho fora da linha de frente. Ele também demonstrou preocupação com a forma como a representação de atletas está estruturada no cenário atual, entendendo que o nível geral poderia ser melhor e que há espaço para oferecer aos lutadores uma chance maior do que a que muitos acabam recebendo.
Na avaliação do brasileiro, o próximo passo natural passa pela administração de carreiras. Burns declarou que pretende atuar como manager: “Eu também vou me tornar um gestor. Essa é outra coisa que eu quero ter na minha carreira. Eu quero virar manager de MMA. Existem alguns gestores que fazem um trabalho excelente, mas também há muitos que não fazem. Eu penso que o que eu construí ao longo da minha trajetória com Ali (Abdelaziz), além do trabalho que desenvolvi para virar uma marca — também pelo fato de eu falar inglês, conseguir grandes patrocinadores, grandes lutas e ir ao microfone para dizer o que eu quero — é um caminho que pode ajudar vários lutadores”, disse ele, explicando que enxerga sua experiência como um diferencial prático para orientar atletas.
Burns ainda mencionou que pretende levar para a gestão algo que considera essencial: a relação entre a organização e o público. Para ele, esse é um ponto que pode ser ensinado à geração mais jovem, reforçando que acredita conseguir desempenhar bem o trabalho também nos bastidores. “O relacionamento com a companhia e com os fãs. Eu acho que isso é algo que eu posso ensinar para esses caras, para a geração mais nova. E eu acho que vou fazer um bom trabalho como manager também. Esse é o próximo objetivo da minha carreira”, completou.
O plano de Burns para começar nessa nova função passa por uma parceria direta com seu próprio manager de longa data, Abdelaziz, da Dominance MMA. Ele indicou que, quando se sentir totalmente confortável na função, pretende dividir atribuições com um arranjo que permita a autonomia do lutador na hora certa — ou seja, manter espaço para que o atleta possa lutar pelo caminho que considera ideal.
O valor da gestão no MMA é um tema debatido há anos. Parte dos lutadores já disse que não vê necessidade de representação quando está na mesa de negociações com as lideranças da modalidade, enquanto outros defendem que um manager é indispensável, especialmente em cenários nos quais a força do relacionamento pode pesar, como em conversas que envolvem nomes ligados à estrutura do UFC.
Burns acredita que, no momento, está em uma boa posição junto aos responsáveis pelas decisões, mas entende que isso pode mudar em pouco tempo quando interesses comerciais e opiniões divergentes começarem a influenciar o processo. Ainda assim, ele diz conhecer bem o jogo e não pretende se calar quando as conversas ficarem difíceis. “Não é fácil. Mas eu acho que Ali teve muitos desses momentos e compartilhou muito isso comigo. Ele já viveu lutas grandes. Você vai sentar e vai ter uma briga ali mesmo, na hora. Aí, quando termina, termina. Eu não preciso ficar indo para as redes sociais e jogar sombra em cima do UFC. Eu acho que essas lutas têm que acontecer com Hunter, com Sean Shelby, com Mick Maynard. Vai acontecer”, afirmou.
Segundo Burns, a essência do processo envolve pontos de vista que podem colidir. “São visões diferentes. Eles olham e pensam que esse cara não merece tanto, mas, na sua visão, o seu atleta merece muito mais. Eu sei que não vai ser pacífico toda vez. Mas, com certeza, a gente precisa ter essas brigas, esses argumentos, esses debates. Eu sou bom nesses debates. Estou pronto para isso”, finalizou, deixando claro que, mesmo fora do octógono, pretende continuar atuando de forma combativa em defesa de seus futuros representados.

