Ex-campeão peso-pesado do UFC, Josh Barnett atravessou diferentes “eras” do MMA, com passagens por organizações como o PRIDE Fighting Championships e a Strikeforce. Ao longo da carreira, ele viu o peso-pesado oscilar em popularidade e também em densidade de talentos, mas, nos últimos tempos, a impressão é que a categoria voltou a sofrer com um problema: não falta apenas volume de atletas, e sim presença de nomes realmente no topo do esporte competindo com regularidade.
Josh Barnett critica fase do peso-pesado e aponta carência de elite
Depois de enfrentar o que havia de melhor na divisão ao longo dos anos, Barnett admitiu que vive um momento “miserável” para o peso-pesado. Para ele, especialmente dentro do UFC, a lista atual não mostra o mesmo nível de competitividade e de evolução técnica que se via em fases passadas.
“A divisão dos pesados está sendo a pior que já esteve há um bom tempo”, afirmou Barnett, em entrevista antes de participar de lutas de boxe de pegada livre do evento Blood4Blood, nesta quarta-feira. “Claro que existem caras determinados, durões e com algum talento. No topo há lutadores muito bons, como [Tom] Aspinall e [Ciryl] Gane.”
O ex-campeão também comparou o presente com o período em que o PRIDE era referência. Na visão dele, os confrontos daquela época costumavam “tirar do caminho” as fraquezas e expor detalhes que levavam a lutas mais completas, com alternância entre momentos de estudo e explosões brutais.
“A diferença é que, naquela época do PRIDE, você via as pessoas irem para a guerra e o resultado era que apareciam as fragilidades de cada um. Aí você explorava e partia para cima. Havia lutas em que parecia xadrez por um tempo e, de repente, virava um confronto violento total — e depois voltava para o xadrez”, disse. “Você via todas as áreas sendo trabalhadas e usadas de verdade.”
“Hoje é tudo bagunçado”: Barnett diz que lutas não mostram repertório
Para Barnett, o cenário atual é diferente porque, na maioria das vezes, os combates não exibem um nível consistente de habilidades. Em vez disso, ele enxerga um padrão que reduz o interesse do público: encontros que viram “bagunça”, sem profundidade técnica e com pouca variação de estratégia.
“Hoje em dia é basicamente um monte de trocação desleixada — um kickboxing grande e pesado, ou uma trocação de boxe grande e pesada — com wrestling, mas sem mais nada”, declarou.
Ele citou um exemplo de como a divisão poderia ser mais atrativa: Jailton Almeida, que, segundo Barnett, tinha estilo mais associado a um peso mais leve, com capacidade de finalizar adversários. Ainda assim, o ciclo de resultados do brasileiro teria mudado rapidamente.
“Teve [Jailton Almeida], que era mais um cara de 205 do que de peso-pesado, e que estava finalizando todo mundo. Só que ele teve uma derrota, depois outra, e o UFC simplesmente cortou ele, mesmo que ele ainda estivesse ranqueado entre os 15”, explicou.
Ao comentar a situação recente, Barnett afirmou que entende a necessidade de diversidade dentro da categoria, mas ressaltou que, olhando para a última programação do UFC na Austrália, a avaliação é difícil.
“Você precisa de todos os tipos. Mas olhando o card do UFC que eles fizeram na Austrália, é meio complicado. E não estou dizendo isso para diminuir esses caras, de jeito nenhum”, completou.
UFC na Austrália: Sutherland x Tuivasa e Pericic x Gaziev
No card em Perth, dois combates de peso-pesado aconteceram lado a lado na parte principal. Louie Sutherland venceu Tai Tuivasa em um confronto que não empolgou tanto, enquanto Brando Pericic travou uma luta de trocação intensa com Shamil Gaziev antes de, mais tarde, garantir um nocaute no segundo round.
Embora Pericic e Gaziev tenham recebido o reconhecimento de “Luta da Noite”, Barnett disse que isso não significa que o espetáculo tenha atingido um padrão clássico de qualidade técnica e desenvolvimento de luta.
Barnett aposta em torneios para reacender o interesse do público
Apesar das críticas, Barnett não descarta uma virada para a categoria, desde que os organizadores adotem uma estratégia diferente — com destaque para o UFC. Na visão dele, a volta de um formato inspirado no PRIDE poderia reacender a empolgação, principalmente se o campeonato ganhasse um “objetivo monumental” para os atletas.
“Eu acho que, quando você fala em torneio de oito ou de dezesseis, é isso que o UFC precisa fazer”, afirmou. “O UFC precisa fazer o que ele literalmente não faz — e o que a maioria das comissões atléticas, além de pessoas ligadas ao boxe e a entidades que, honestamente, sabem só metade do que acham que sabem sobre luta, nem permitiriam. E é um torneio de oito.”
Ele defendeu que o caminho pode ser um torneio disputado em dois dias ou em um único fim de semana, com o objetivo de embaralhar a divisão e resolver pendências de forma mais rápida. A proposta, segundo Barnett, é criar uma oportunidade real de mostrar valor em um ambiente mais competitivo.
“Eles precisam fazer um torneio em dois dias ou em um dia só e bagunçar a divisão para decidir as coisas. Dar a todos esses caras uma chance de mirar em algo grande, algo histórico, e ver o que sai disso. Depois que você tiver isso, você vai perceber quem vale a pena manter e quem vale a pena substituir. É tão simples quanto isso”, concluiu.
Barnett não compara diretamente o “topo” atual com lendas, mas cita Josh Hokit
Mesmo sem conseguir fazer uma comparação direta entre alguns dos melhores peso-pesados de hoje e as grandes referências do passado — muitos deles vistos como nomes entre os maiores da história —, Barnett demonstrou apreço por um atleta que vem chamando atenção no UFC. Ele citou Josh Hokit, estrela em ascensão que, segundo ele, coloca tudo em jogo quando sobe ao octógono e também conquista notoriedade com comportamento fora do padrão.
Para Barnett, esse conjunto imediato de ação e interesse faz o público criar vínculo com o combate. Ele gostaria de ver mais atletas com esse tipo de postura no futuro.
“Se você consegue produzir uma luta que vá para águas profundas e, ainda assim, gerar interesse, isso acontece”, explicou. “Se as pessoas ficarem compelidas a assistir porque a luta é interessante, não vai importar se [Josh] Hokit foi melhor do que esse cara ou aquele cara.”
“O ponto é que ele está entregando lutas boas, as pessoas estão se divertindo e ele está fazendo o que está fazendo dentro do tipo de adversário que existe hoje”, completou.
Novidades no peso-pesado: Alex Pereira, Ciryl Gane e Gable Steveson
Para Barnett, há algum sinal de esperança no peso-pesado — principalmente no UFC. Em junho, no evento UFC White House, Alex Pereira vai subir para a categoria para encarar Ciryl Gane em busca de um cinturão interino. A expectativa é que o vencedor do duelo enfrente Tom Aspinall assim que ele estiver liberado para voltar a competir.
Além disso, existe a presença de Gable Steveson, medalhista olímpico, já contratado pelo UFC. A estreia dele está marcada para o UFC 329, em julho, como parte da International Fight Week.
Para Barnett, esses dois nomes são apenas peças iniciais do quebra-cabeça, mas ele quer mais lutadores pesados com potencial assinando com o UFC para avaliar o que conseguem fazer e, com isso, injetar novamente energia na divisão.
O problema da “falta de consistência” e a busca por estabilidade
Ao mesmo tempo, Barnett ressaltou que existe uma deficiência adicional: a falta de regularidade nas atuações. Na avaliação dele, o público também quer ver desempenho consistente — e não um cenário em que um atleta ganha várias lutas em sequência e, na seguinte, falha completamente.
“O ponto é que existe também uma falta de consistência”, disse Barnett. “Eu acho que isso é outra coisa que as pessoas realmente querem: ver consistência nas apresentações. Quando você vê um cara entrando e detonando, vivendo uma sequência de vitórias, e aí na próxima luta ele simplesmente estraga tudo, você fica tipo: ‘Ok, caramba. Para onde a gente vai daqui? Como a gente conserta isso?’”
Como voltar ao protagonismo: scouting e mentoria
Mesmo com o diagnóstico duro, Barnett afirmou que não pretende desistir do peso-pesado. Para ele, existe um caminho para a categoria recuperar destaque — especialmente dentro do UFC —, mas isso não acontece da noite para o dia.
Uma das saídas seria ampliar o trabalho de observação de novos lutadores pesados para competir em plataformas como o The Contender Series. Outra alternativa seria apostar na mentoria de atletas jovens que, muitas vezes, nem consideravam lutar até efetivamente tentarem.
“Essa divisão pode ser consertada”, afirmou Barnett. “Eu acho que sim. Mas você precisa de alguém com a visão certa, com a compreensão certa, para saber como resolver.”

