Ngannou revela que a morte do filho quase o fez abandonar o MMA

Francis Ngannou admitiu que, após a morte do filho, chegou a pensar em abandonar as lutas de vez. Em 2024, o ex-campeão peso-pesado do UFC viveu uma das tragédias mais devastadoras que alguém pode enfrentar: o falecimento do pequeno Kobe, com apenas 15 meses. A criança morreu de forma súbita, em decorrência de complicações ligadas a uma má-formação no cérebro, e o episódio foi capaz de desorganizar completamente a rotina e o mundo do lutador.

Em conversa com Daniel Cormier, no canal do ex-atleta, Ngannou descreveu o impacto emocional como algo que não se apaga. Ele afirmou que é uma lembrança que nunca sai da cabeça e que o caso acabou mudando a forma como passou a enxergar a vida. Segundo o próprio lutador, o momento em que tudo aconteceu o pegou “a todo vapor”, quando ele acreditava já ter deixado de lado emoções que vinham sendo empurradas para segundo plano. Para Ngannou, a perda funcionou como um gatilho para perceber que ele continuava sensível, ainda humano como qualquer outra pessoa, e que a fragilidade da vida fica evidente de um jeito que nenhuma explicação substitui.

O camaronês também falou sobre a sensação de incapacidade e sobre como o luto traz um tipo de choque: você não sabe como vai reagir até chegar lá, e então entende o quanto o tempo pode ser curto demais. Ele disse que, no dia a dia, parece que existe um “plano” — como se dar tudo no octógono fosse o foco absoluto —, mas que, de um instante para o outro, qualquer momento pode ser o último. Para ele, isso vale tanto para si quanto para as pessoas que ama. Ngannou ainda ressaltou que não há controle sobre o que acontece com quem está ao redor, lembrando que “amanhã” pode ser diferente sem aviso. A partir disso, ele afirmou que acabou traumatizado com essa realidade.

Cormier, por sua vez, também reconheceu a dor de Ngannou. Em 2003, o comentarista e ex-campeão perdeu a filha em um acidente de carro. Na conversa, os dois dividiram a culpa intensa que costuma acompanhar esse tipo de perda, e Ngannou chegou a dizer que estava pronto para pendurar as luvas. Ele relatou que não queria continuar lutando, nem mesmo fazer qualquer outra coisa, porque naquele momento não enxergava motivo. Para ele, a motivação antiga estava ligada a segurança e a uma vida melhor, mas, diante do que aconteceu, veio um sentimento de impotência: como fazer sentido continuar se ele não conseguia “lutar” pelo próprio filho? Em suas palavras, a pergunta virou constante: qual é o propósito do combate quando a pessoa não consegue garantir o que mais importa?

Ngannou ainda descreveu cenas que ficaram presas na mente. Ele contou que, na última vez em que viu Kobe, estava deixando o apartamento, indo para o elevador, enquanto o irmão segurava a criança. Kobe chorava e não queria que ele fosse embora, se direcionando a ele como se pedisse para ficar. O lutador disse que, naquele instante, acreditou que voltaria logo e que estaria tudo bem, como se os momentos cotidianos fossem garantidos. Só que, quando a tragédia aconteceu, veio uma sensação absurda de desorientação: ele percebeu que não tinha ideia de “para onde estava indo”, como se nada mais tivesse importância. Na reflexão, Ngannou concluiu que talvez fosse melhor apenas ter ficado, ter escolhido estar ali, sem se afastar.

Apesar de ter considerado a aposentadoria, Ngannou não encerrou a carreira. Ele voltou a competir em outubro daquele ano para enfrentar Renan Ferreira pela PFL, e venceu com nocaute no primeiro round. O lutador dedicou a vitória ao filho Kobe, e, agora, enquanto se prepara para encarar Philipe Lins neste sábado, no MVP MMA 1, ele revelou que a memória do garoto foi um dos fatores que o empurrou de volta ao que faz melhor.

Ngannou explicou que, em determinado momento, tentou parar tudo. Ele disse que chegou a pensar “eu não preciso mais disso”, que não sentia vontade de continuar. Porém, com o tempo, percebeu que a decisão de parar poderia estar transferindo para Kobe a responsabilidade de interromper a própria vida do lutador. Ele afirmou que não queria colocar esse peso no filho, dizendo que Kobe não merecia ser transformado em justificativa para abandonar o que ele sabe fazer. Assim, a lógica mudou: se não era possível lutar “pelo” filho de outra maneira, talvez fosse melhor seguir competindo em homenagem a ele, em vez de simplesmente se retirar.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.