No universo do MMA, por mais bem planejado que seja, uma luta pode virar do avesso em questão de segundos. E foi exatamente assim que Alexandre Pantoja viu seus planos ruírem quando se machucou no confronto contra Joshua Van, perdendo o cinturão peso-mosca apenas 26 segundos após o início do duelo no UFC 323. A lesão, somada a uma sequência recente com duas vitórias seguidas por interrupção no segundo round, colocou Tatsuro Taira em posição de destaque para uma chance de título diante do novo campeão, cenário que parecia encaminhado para o UFC 327, em Miami, como a primeira disputa de cinturão do Ultimate envolvendo atletas nascidos após 2000.
Mesmo com o caminho apontado para a luta pelo troféu, um novo problema surgiu: uma lesão de Van fez com que os planos fossem desfeitos. Ainda assim, o confronto foi mantido e, agora, tem data marcada no calendário do UFC 328, com realização prevista para 9 de maio. Para Taira, a possibilidade de um adiamento de quatro semanas aparece como o melhor desfecho possível, especialmente porque Pantoja aguardava nos bastidores por uma nova oportunidade. Com a reprogramação rápida, o japonês pôde ajustar a preparação sem perder o foco total no objetivo principal.
Em entrevista, Taira demonstrou alívio com a confirmação da luta. Ele afirmou que ficou “relieved” pelo fato de, enfim, poder disputar o cinturão e disse que preparou ainda mais do que já tinha treinado para esta chance. Aos 26 anos, o lutador também enxerga tempo como aliado. Natur de Okinawa, Taira é apontado há tempos como uma promessa com cara de campeão, desde a estreia no MMA profissional em maio de 2022, quando ainda tinha 22 anos. A ascensão dele foi construída de forma consistente, com acúmulo de experiência dentro do octógono. Depois de abrir a conta no UFC com cinco vitórias — incluindo três encerramentos —, Taira conquistou sua primeira oportunidade como principal nome do card contra o ex-desafiador ao título Alex Perez.
No combate, ele passou pelo teste com autoridade. A atuação foi marcada por controle e tranquilidade até que, no segundo round, Perez caiu por conta de uma lesão no joelho. Quatro meses depois, Taira voltou a mirar o topo ao encarar Brandon Royval como mais um desafiante ao cinturão. A luta, intensa e com trocas em sequência, virou um duelo de resistência: os dois foram até o limite, completando 25 minutos. Ainda que Royval tenha saído com decisão dividida a favor dos juízes, a leitura de Taira após o resultado foi positiva, com elogios ao adversário — um reconhecimento que, por si só, diz muito sobre a maturidade que ele vem construindo em cada etapa da carreira.
Em 2025, o japonês continuou evoluindo com clareza. Primeiro, ele aceitou uma luta principal contra Hyunsung Park, que entrou como substituto em cima da hora, e tratou de resolver o confronto da maneira que se espera de alguém que realmente se coloca como candidato ao cinturão. O grande divisor de águas, porém, aconteceu no UFC 323, quando Taira enfrentou o então ex-campeão Brandon Moreno. Após um primeiro round equilibrado, ele conseguiu impor seu ritmo na segunda parcial e anotou a finalização no meio do round, tornando-se o primeiro atleta a finalizar “The Assassin Baby”. Na mesma noite, o cinturão mudou de mãos, e embora Taira previsse que Pantoja defenderia o título novamente, ele também demonstrou interesse em encarar Van depois de acompanhar a forma como o novo campeão levou o combate contra Royval no UFC 317.
Quando falou sobre o adversário, Taira deixou claro que enxerga um duelo especial entre gerações. Ele disse estar animado para lutar com Van e destacou que sabe que o confronto é uma batalha entre lutadores da nova geração, afirmando que quer “ensinar” o adversário a lutar durante a própria luta — uma maneira de traduzir confiança e, ao mesmo tempo, foco em colocar seu plano em prática dentro do octógono.
Para lapidar ainda mais o jogo, Taira tem buscado diferentes ambientes de treino, migrando o campo de preparação para fora do Japão. Ele realiza o camp nos Estados Unidos, treinando no ginásio Tiger Beetle Martial Arts, em Denver, no Colorado, região reconhecida pela qualidade dos atletas e pela força dos treinos. No local, ele tem trabalhado com nomes como Cory Sandhagen, além de aproveitar a variedade de estilos e as “caras” diferentes proporcionadas pelos parceiros de treinamento. Taira também fez questão de destacar a recepção que recebe por lá. Ele afirmou que aprecia o jeito como o time o acolhe, dizendo que se sente tratado como um companheiro de verdade, e comparou a experiência com o que vive em Okinawa com a equipe “The Black Belt Japan”. Segundo ele, representa tanto o Japão quanto o estado do Colorado, reforçando o vínculo com o processo de crescimento que está em curso.
Ao pensar na chance pelo cinturão, Taira imagina uma mudança definitiva de mãos, ou seja: acredita que consegue parar Van dentro do tempo regulamentar. No histórico do octógono, apenas Charles Johnson conseguiu encerrar Van, e ainda assim o campeão também havia sido finalizado na terceira luta profissional. Para Taira, apesar de reconhecer que Van é um lutador bastante diferente de versões anteriores, ele entende que o adversário vem melhorando em saltos — e faz questão de apontar a confiança que vem com a juventude como parte do que torna o desafio ainda mais interessante.
Além do cinturão, há um legado que Taira quer construir. Uma vitória no dia 9 de maio não significaria apenas colocar a correia no próprio corpo, mas também fazer história como o primeiro campeão indiscutível do Japão. Trata-se de um feito com potencial para mudar o cenário e abrir portas para todo um país no esporte, e Taira afirma se sentir pronto para isso. Ele declarou que levar o cinturão do UFC para o Japão é um sonho antigo, não apenas para ele, mas para o povo japonês — e que, por isso, vai fazer acontecer.

