Most Valuable Promotions (MVP) e Netflix promoveram, na noite deste sábado (16 de maio de 2026), um espetáculo de artes marciais mistas no Intuit Dome, em Los Angeles (Califórnia). O evento teve como luta principal a vitória de Ronda Rousey sobre Gina Carano, com finalização por finalização/submissão, em um card que ainda contou com a “destruição” de Nate Diaz por Mike Perry e a presença de Francis Ngannou em uma produção cinematográfica estrelada por Philipe Lins.
Do ponto de vista da produção, a noite chamou atenção: o formato e o visual ficaram bem diferentes do que o público costuma associar ao UFC e também à PFL. Dentro do octógono, a maior parte dos combates entregou ação. Ainda assim, é possível que parte da torcida tenha ficado frustrada com a finalização no main event, que aconteceu rápido demais. O ponto é que o card inteiro foi montado em torno do projeto pessoal de Rousey.
O que realmente estava em jogo
Apesar do barulho em torno da parceria, não parecia uma “revolução”. O evento soou mais como um retorno tardio — uma espécie de segunda chance para um formato que já havia sido testado antes no mercado. E, na prática, a ligação entre MVP e Netflix com Rousey aconteceu porque o UFC recusou a proposta de colocar a atleta em um duelo único contra Carano.
Depois disso, “Rowdy” passou a falar em confronto com a organização e chegou a negociar o combate com Nakisa Bidarian, ex-funcionário do UFC e um dos cofundadores da MVP ao lado do influenciador Jake Paul. Bidarian, segundo o enredo do próprio evento, teria estrutura e agenda para viabilizar a luta graças ao histórico de trabalho com a Netflix.
Fica a ironia: enquanto comandava essa fase milionária no UFC, Rousey parecia não se importar com questões que agora ganham outro peso na narrativa.
Idade, desgaste e o problema maior: falta de elenco
O card de sábado não foi construído para plantar algo novo. A leitura mais forte é que se tratou de uma repetição de nomes grandes que já foram relevantes no UFC. Diaz, por exemplo, tem 41 anos e, após anos de pancadaria, apresenta um rosto que reflete o desgaste — e ainda assim está três anos abaixo de Carano, que tem 44.
Rousey e Ngannou também têm 39 anos. Só que, fora os números, existe um obstáculo maior para a MVP no cenário atual do MMA: a empresa não tem lutadores suficientes para sustentar um produto que atraia atenção constante. Não é apenas sobre fazer um evento pontual, mas sobre manter o interesse do público e do streaming.
Mesmo que Bidarian tivesse intenção de organizar uma segunda data ou criar um caminho mais consistente para o futuro, faltam estrelas que garantam tração constante. Esse vácuo ajuda a explicar por que negociações entre UFC e Netflix não avançaram no ano passado, justamente quando Dana White e o grupo do UFC buscavam um novo parceiro de transmissão. O streaming, na linha do que se desenha aqui, não demonstrou interesse em cards menos chamativos, com eventos frequentes em Las Vegas.
Em resumo: a Netflix quer grandes eventos, aqueles com apelo de “marca” e nome forte no card.
Rousey x Carano como aposta de audiência
O duelo entre Rousey e Carano pode, sim, virar um dos eventos de MMA mais assistidos da história — impulsionado principalmente pela possibilidade de distribuição ampla e pelo custo mais acessível dentro da lógica da Netflix. O argumento lembra um episódio anterior: em 2008, o EliteXC já havia estabelecido um recorde de audiência para o MMA, apoiado no apelo popular de Kevin “Kimbo Slice” Ferguson. Pouco depois, o projeto acabou perdendo força e desapareceu do radar.
A conclusão tirada dessa comparação é direta: promover MMA exige muito mais do que colocar lutas grandes de tempos em tempos.
O recado sobre contratos, estrelas e o “tamanho” do desafio
Do ponto de vista esportivo, o texto defende que o público gostou do encontro entre Rousey e Carano e deseja que todos os envolvidos consigam ganhos altos com o trabalho. Ao mesmo tempo, levanta-se uma preocupação com as limitações atuais do mercado: há poucas rotas disponíveis para grandes nomes migrarem ou criarem novas oportunidades fora dos grandes centros.
Também entra na conta o clima de bastidores envolvendo Francis Ngannou e Jon Jones. A rivalidade verbal, segundo essa leitura, soou tão deslocada na noite de Los Angeles quanto havia soado três anos antes, quando a PFL tentou explorar um ângulo semelhante. Jones, que completa 39 anos em julho, estaria preso ao seu contrato de oito lutas com o UFC — e a mensagem é dura: ele não escaparia desse vínculo.
Em tese, seria interessante que a MVP conseguisse repetir “megaeventos” no ritmo de Rousey contra Carano a cada poucos meses. Só que, para isso, seria necessário um grande serviço de streaming bancando a conta — já que o modelo de pay-per-view, que antes era muito rentável, hoje estaria praticamente no fim da linha. Mais do que isso, seria preciso fechar com nomes grandes o suficiente para puxar a atenção de uma base de fãs cada vez mais cansada e exigente. E, no momento, muitos dos principais nomes do circuito já estão sob contrato ou ocupados em eventos do UFC.
No fim, fica a percepção de que o futuro pode ser melhor ou pior — mas, para a MVP e para qualquer concorrente que tente competir no mesmo patamar, a questão central segue sendo a mesma: estrelas disponíveis e investimento que sustente frequência, relevância e audiência.

