Sean Strickland não “fabricou” o clima de rivalidade com Khamzat Chimaev, mas reconheceu que, no mínimo, pode ter transformado tudo em uma espécie de delírio pessoal. Na noite de sábado, o norte-americano escreveu mais um capítulo marcante na própria carreira ao recuperar o cinturão dos médios com uma vitória surpresa sobre Chimaev, no evento principal do UFC 328. Antes do combate, a história entre os dois virou combustível extra: o presidente do UFC, Dana White, chegou a afirmar que a treta entre eles seria uma das mais intensas da história da organização. Mesmo com toda a pressão do enredo, Strickland disse que não se arrepende de nada.
“Eu vendo lutas”: Strickland mira o clima do UFC e provoca
Logo após o triunfo, em coletiva, Strickland foi direto ao ponto ao comentar a própria postura e o que ele acredita que move o espetáculo. Em vez de negar o confronto, ele fez questão de justificar a narrativa como parte do produto que é o esporte.
“Eu vendo lutas. Olha como o UFC fica. Sabe… é tão chato. O UFC é muito chato. Você chega a conhecer metade do elenco? Exceto o Alex [Pereira]… e ele nem conversa. Ele só é grande e assustador. Esse cara nocauteia geral. Mas tirando o Alex, é uma chatice”, disparou Strickland.
Dentro do octógono, porém, o discurso se transformou em resultado: Strickland recapturou o título dos médios em cima de um adversário que vinha com enorme força e expectativa. E, apesar de toda a tensão construída ao longo da semana, o encontro entre os dois tomou outro rumo.
O fim do “ódio”: luvas tocadas, abraço e o cinturão nas mãos
Strickland e Chimaev realmente colocaram fogo no combate ao transformar a prévia em um dos momentos mais assistidos do UFC. Mesmo com toda a guerra verbal, a rivalidade não durou “no mundo real” por muito tempo. Antes da luta, ambos tocaram as mãos e aparentaram estar bem. Depois, a cena foi ainda mais simbólica: os dois se abraçaram, e Chimaev chegou a colocar o cinturão dos médios na cintura de Strickland.
Para o campeão, isso não foi contradição — e sim consequência do que acontece quando dois atletas dividem o mesmo “campo de batalha”.
“Tem uma coisa que, a menos que você tenha vivido, você não entende. Quando você vai lutar com outro cara, sua alma fica exposta. Quando você está sangrando e ele também está sangrando… dá vontade de desistir. Ele também quer desistir. Ninguém quer estar ali, e você cria um respeito de um jeito que transcende raça, religião, nacionalidade, país. É algo que você só aprende vivendo. Depois que você tenta morrer e vence ou perde, você meio que vira irmão daquela pessoa”, afirmou Strickland.
Parte dos fãs não comprou a história: Strickland rebate
Apesar do abraço e do gesto com o cinturão, nem todo mundo aceitou a narrativa. Parte do público interpretou as atitudes antes e depois do combate como sinal de que a rivalidade teria sido encenada para aumentar o interesse no duelo — uma forma de “vender” a luta. Strickland descartou essa ideia com força.
“Na hora, o cara me chutou nas bolas! Que porra é essa?”, disse ele.
Na sequência, o campeão explicou por que entende o comportamento como ameaça, não como teatro. Ele também sugeriu que a postura de Chimaev em treinamentos teria sido mais intimidante do que a convivência permitiria chamar de brincadeira.
“Eu não gosto de ser ameaçado. Talvez seja só a forma dele como pessoa, mas quando ele estava na academia, ele era bem ameaçador. Tinha uma postura de ameaça. E talvez seja aquele ‘cara pequeno’ dentro de mim, mas quando você me ameaça, eu quero te matar. Quero te destruir. Talvez ele não tenha entendido desse jeito. Talvez seja o humor dele — sei lá — mas na academia ele sempre tentava me intimidar. Eu falava ‘vamos spar’, e a gente nunca spar”, continuou Strickland.
“Pode ser que eu tenha imaginado tudo”: possibilidade de “alucinação”
Mesmo com o tom firme sobre a ameaça, Strickland admitiu que não se vê como a pessoa mais estável do mundo. Ele abriu espaço para a chance de que as próprias percepções sobre Chimaev tenham sido distorcidas por problemas mentais que ele já sabe que pode carregar.
“Pra ser bem honesto, eu podia ter inventado aquela situação toda na minha cabeça. Tem momentos em que você não está bem mentalmente, você interage com pessoas e o cérebro pode achar que aconteceu outra coisa. Então existe a chance de eu ter alucinado toda aquela interação com o Chimaev”, declarou.
Chimaev pode subir aos meio-pesados: Strickland aprova
Independentemente de quem “imaginou” o quê, a tendência é que o próximo capítulo entre os dois não aconteça tão cedo. Logo após a luta, Chimaev informou ao presidente do UFC, Dana White, que pretende subir para a categoria dos meio-pesados (205 lb). Strickland enxergou isso como uma boa decisão.
“No fim das contas, eu ouvi ele falando que talvez queira subir para 205, e ele deveria. Se esse corte de peso está acabando com você, vai para 205, aproveita a vida. A competição é bem mais fácil”, disse o campeão.
Defesa do cinturão: possível revanche com Imavov e confiança no ranking
Com o cinturão novamente em mãos, Strickland volta ao papel de dono da divisão e, como primeiro passo, a tendência é que ele enfrente Nassourdine Imavov — cenário que envolve a ideia de revanche. O campeão demonstrou disposição para cumprir o caminho indicado pela organização.
“Eu realmente acredito no ranking do UFC. Eu acho que eles importam. E eu odeio quando os caras pulam a fila. Se é isso que a organização está dizendo — se é isso que são os rankings — então é com quem tem que ser. Vamos!”, finalizou Strickland.

