Gina Carano não luta desde 2009, e por isso é natural que o público siga pressionando por respostas sobre o quanto ela está realmente preparada para encarar no sábado a lenda do UFC e ex-campeã Ronda Rousey. No auge, Carano foi o rosto do MMA feminino e uma striker perigosa, capaz de nocaute, mas sua invencibilidade acabou quando ela foi derrotada de forma ampla por Cris Cyborg, em duelo válido pelo Strikeforce. Desde então, ela passou quase toda a última década e meia concentrada na carreira de atriz, embora já tenha cogitado um retorno ao esporte em outras ocasiões — inclusive quando o UFC insinuava, há mais de uma década, uma possível luta contra Rousey.
- Enfrentamento: Gina Carano x Ronda Rousey
- Contexto: Carano busca voltar ao MMA após longo hiato; Rousey chega como Hall of Famer e ex-campeã
- Última luta de Carano: 2009 (sem combate desde então)
- Histórico relevante: Carano teve sua sequência invicta encerrada ao perder de forma ampla para Cris Cyborg no Strikeforce
- Preparação: Treinos com John Wood (Syndicate MMA) por vários meses, além do suporte de Lucas Brennan e do grappler Chris Brennan
Treinamento de Carano foca em potência, velocidade e ajustes
Com a “fantasia” de uma luta contra Rousey virando realidade, Carano chamou o treinador John Wood, da Syndicate MMA, para conduzir a preparação específica para o retorno. O trabalho, segundo a própria equipe, tomou vários meses e foi longo, com etapas difíceis em determinados momentos. Ainda assim, Wood diz ter ficado impressionado com a transformação da atleta, ainda que alguns “truques” do passado tenham aparecido cedo no ginásio, desde o primeiro dia.
Wood fez questão de destacar que o que sempre definiu Carano ainda está lá: a capacidade de encurtar distância com impacto e a velocidade para acertar. Para ele, o ponto central do combate será aprender a usar esse poder com inteligência, sem desperdiçar potência e sem entregar timing para uma grappler como Rousey. Ele ressaltou que Carano consegue “tocar” adversárias mesmo sem precisar forçar ao máximo, e que seus golpes — especialmente chutes — mantêm uma característica de violência que continua assustando.
Além disso, o time de Carano vem recebendo suporte de pessoas ligadas ao camp de Rousey. Lucas Brennan, recém-chegado ao UFC, tem trabalhado com a campeã olímpica e estrela há meses, com o pai dele, o lendário grappler Chris Brennan, atuando como um dos principais treinadores. Brennan afirma que as melhorias de Carano foram inspiradoras e que, mais do que apenas “melhorar técnica”, ela tem mostrado capacidade real de colocar o arsenal de trocação em prática durante os treinos.
Em falas sobre a atuação de Carano, Brennan descreveu a força dos golpes com comparações contundentes, enfatizando que ela acerta com impacto acima da média até dentro de um ambiente repleto de atletas fortes. Ele também mencionou que o trabalho ocorre diariamente com parceiros do camp — com ele e o irmão Tyler trabalhando lado a lado com Carano — enquanto o pai Chris, John Wood e ainda o marido de Carano, Kevin Ross, entram no processo para cobrir aspectos variados. A mensagem de Brennan é que o camp tem sido harmonioso e com energia alta, mesmo quando a carga de treino esgota as atletas.
Mais apoio na Syndicate e a grande dúvida: como lidar com a luta no chão
Outro nome citado no processo de preparação é Brandon Jenkins, que abre o card do confronto em que Rousey e Carano estarão no sábado, enfrentando Chris Avila, companheiro de Nate Diaz. Jenkins também treina regularmente na Syndicate há alguns meses e, assim como Brennan, tem acompanhado de perto o que Carano faz quando coloca a trocação em ação — especialmente no que diz respeito ao impacto nos pads e à capacidade de impor pressão com golpes fortes.
Apesar de o estilo de Carano nos pés ser conhecido, a maior interrogação antes do combate é justamente como ela conseguirá lidar com o jogo de grappling de nível mundial de Rousey. A ex-campeã entrou no esporte trazendo um conjunto de habilidades singular: por ser medalhista olímpica no judô, ela costuma derrubar adversárias com facilidade e, em seguida, finalizar com a chave principal que a consagrou, o braço travado (armbar). O padrão dela, frequentemente, é encerrar lutas rapidamente, muitas vezes antes mesmo de a primeira etapa do relógio chegar ao fim.
Para o duelo do sábado, Rousey é amplamente favorita. Um componente importante dessa projeção é o domínio avassalador dela no chão, o que faz muita gente acreditar que ela repetirá o roteiro que aplicou em inúmeros adversárias no UFC. Ainda assim, John Wood garante que Carano tem trabalhado de forma intensa para responder a qualquer tentativa de queda e, com isso, lidar com judô, jiu-jitsu, wrestling ou qualquer outro caminho que apareça durante a luta.
Wood diz que o plano é cobrir possibilidades e evitar “engessar” o combate
Wood afirma que não existe mistério quando o assunto é a proposta do confronto: é um cenário clássico de lutadora de trocação contra grappler. Ele também reforça que o MMA já mostrou, repetidas vezes, que resultados podem fugir do roteiro, seja com wrestlers superando expectativas ou com lutadoras de chão surpreendendo em momentos decisivos. A visão do treinador é que Carano precisa estar pronta para o imprevisível, treinando cada detalhe necessário para não ser pega de surpresa.
Para ele, o trabalho da comissão técnica é justamente preparar Carano para todas as situações prováveis e ajustar o que for preciso com base no que ela demonstrar em treino. Wood também citou a chegada de Chris Brennan como responsável pelo comando do jiu-jitsu na Syndicate, descrevendo um ambiente com atletas qualificados e jiu-jitsu com alto nível. Dentro dessa estrutura, ele aponta que os filhos de Chris Brennan — Lucas e Tyler — estão no camp, além de um grupo grande de parceiros com base forte em judô e outras ferramentas do chão, o que deixa o processo mais completo e funcional.
Mesmo com o foco parecendo ser “como Carano vai reagir às tentativas de queda”, Wood destaca que a estratégia no MMA precisa considerar o inesperado. Ele argumenta que uma das piores coisas que um treinador pode fazer é gastar tempo demais imaginando apenas o que a adversária “vai tentar”, em vez de permitir que a lutadora execute o plano próprio dentro do octógono. A ideia, segundo ele, é que Carano não entre em combate com medo do chão a ponto de não conseguir lutar de forma ativa.
Wood reforça que seu objetivo não é preparar Gina Carano para ficar paralisada diante da luta no solo, mas sim para ser a melhor versão possível dela no evento. Ele diz que está observando a movimentação, a defesa e o desempenho dela quando tenta derrubar adversárias, afirmando que Carano tem um jogo no chão “real”, com capacidade de levar o duelo para onde quiser. Na avaliação do treinador, o conjunto geral está ficando bem redondo, com respostas para vários cenários do combate.
Possibilidade de nocaute existe, mas o treinador mira um combate fluido
Para o dia da luta, Wood demonstra confiança de que Carano pode produzir um nocaute devastador. Ao mesmo tempo, ele reconhece que vencer Rousey não precisa ocorrer apenas dessa forma. Ele lembra que, em uma luta, “as coisas mudam” com rapidez: um único golpe pode alterar completamente um plano, seja um soco, um chute ou até uma tentativa de queda que não saia como esperado. Por isso, ele evita fazer um excesso de planejamento engessado, com medo de que o plano falhe quando o combate sair do roteiro.
Na visão de Wood, o camp foi montado para aliviar pressão e manter Carano pronta para o que vier. Se a luta evoluir para um caminho inesperado, a equipe acredita que ela estará preparada. Em resumo, o treinador aposta em um combate de execução: entrar no octógono, aceitar a fluidez do MMA e responder com a mesma prontidão a qualquer acontecimento que surja no caminho.

