Depois de um mês recheado de lutas e encerrado com um card que entregou entretenimento de sobra em Macau, o calendário vira a chave para junho. E, ao longo do mês, uma sequência de confrontos ganha peso justamente por poder mexer em rumos importantes no ranking — com um destaque histórico para o UFC Freedom 250, que acontece no gramado sul da Casa Branca, em Washington, D.C., no dia 14 de junho.
Para quem quer entender quais lutas tendem a ter maior impacto nas divisões e podem definir trajetórias nas próximas semanas, a seguir está uma seleção com os principais combates do período, começando pelo UFC Fight Night que abre o mês, em Las Vegas.
UFC Fight Night: Muhammad vs Bonfim — sábado, 6 de junho (Las Vegas, Nevada)
O UFC Fight Night com Muhammad contra Bonfim acontece com um contexto curioso: oito dias antes de um cinturão estar em jogo no UFC Freedom 250, Farès Ziam e Tom Nolan se enfrentam em Las Vegas em uma luta que pode não soar como “evento de título”, mas carrega mais intriga do que muita gente imagina. Ziam chega como número 14 do ranking e tenta emendar a sexta vitória consecutiva, mas ainda não encontrou uma chance em meio à concorrida divisão, enquanto Nolan entra no maior compromisso da carreira com uma sequência de quatro triunfos. São dois talentos jovens em fase ascendente, e a grande pergunta é se o australiano Nolan está no mesmo patamar do francês Ziam — justamente aí mora o interesse do combate.
Se o francês, apelidado de “Smile Killer”, conseguir superar Nolan com relativa facilidade, o resultado tende a evidenciar com mais clareza a diferença de níveis entre os dois e, principalmente, abrir caminho para que Ziam finalmente receba um confronto contra um dos veteranos que ainda seguram posição no Top 15. Caso Nolan triunfe, ele se coloca como mais um nome de ponta vindo do DWCS e do grupo de revelações australianas — seguindo o caminho de Quillan Salkkilld — e também pode passar a mirar uma luta contra um adversário mais experiente na categoria dos leves.
Na sequência do card, Belal Muhammad encara Gabriel Bonfim em um duelo que chama atenção por um motivo bem específico: fora as disputas de cinturão do UFC Freedom 250, este pode ser o combate mais determinante do mês. Dependendo de quem vencer, as consequências para a divisão mudam de forma significativa. Muhammad, apesar de ter perdido o título dos meio-médios há pouco mais de 13 meses, vive um momento de cobrança: ele foi derrotado por decisão unânime por Ian Machado Garry em novembro do ano passado e, embora ainda esteja estacionado no número 5 da categoria, o cenário ao redor dele tem um sabor de “escorregão no ranking”, especialmente por causa da idade — ele completa 38 anos em julho — e por estar diante de uma adversidade considerável.
Bonfim, por sua vez, vem em trajetória absurda desde a formatura no DWCS da turma de 2022. Foram seis vitórias em sete apresentações na carreira, incluindo triunfos em sequência sobre Stephen “Wonderboy” Thompson e Randy Brown. Para o brasileiro, é um salto relevante de adversário, mas é um avanço coerente com o momento que atravessa e com a dinâmica atual da divisão.
O que torna o confronto ainda mais interessante é que, se Muhammad vencer, o quadro tende a permanecer relativamente estável. Já uma vitória do atleta de 28 anos mudaria completamente o panorama e colocaria mais uma revelação abaixo dos 30 diretamente na conversa por disputas de título. A divisão dos meio-médios nunca esteve tão em alta, e este duelo pode ajudar a reorganizar as peças do xadrez nas últimas partes do ano.
UFC Freedom 250 — domingo, 14 de junho (Washington, D.C.)
No UFC Freedom 250, um dos confrontos que mais desperta curiosidade é Diego Lopes contra Steve Garcia. A expectativa geral é que Lopes, que já foi desafiante ao cinturão por duas vezes, volte a trilhar o caminho certo ao passar por Garcia — que, hoje, pode ser visto como um dos atletas do Top 10 mais “discretos” do plantel. A análise costuma apontar a qualidade dos adversários que Lopes já enfrentou, comparar com o que Garcia fez e concluir que o brasileiro vai dominar a situação.
Mas a leitura alternativa é justamente a que deixa o combate mais atraente. Garcia não teve a mesma vitrine de nível de oponentes que Lopes, mas também não teve as mesmas oportunidades. O que ele construiu, no entanto, é um ciclo com sete vitórias seguidas, sendo seis por finalização/encerramento da luta e quatro ainda no primeiro round. Além disso, o atleta de Albuquerque tem jogo que oferece disposição e boa potência, com uma vantagem de envergadura de 2,5 polegadas sobre Lopes — um lutador que nunca foi conhecido por evitar ser atingido.
É possível que tudo pareça “previsível” no papel, mas o UFC ainda é UFC, e justamente por isso os atletas caminham até o octógono e encerram o capítulo atrás de si. A distância entre teoria e execução é onde mora o espetáculo.
Outro duelo que entra com força no radar é Josh Hokit contra Derrick Lewis. A “experiência Hokit” já vem chamando atenção e, mais do que isso, o interesse é entender se ele é um prospecto real e como ele se adapta a um ambiente de confronto contra o maior nocauteador da história da organização. Antes do UFC 327, havia espaço para tratar Hokit como um novato supervalorizado, beneficiado por uma persona chamativa — e, talvez, até múltiplas identidades — sem ter encarado nomes grandes o suficiente para comprovar tudo. Só que ele venceu Curtis Blaydes em Miami, e Blaydes não é um adversário qualquer. Mesmo que parte do público não goste de provocações e personagens estranhos, é hora de começar a observar se Hokit realmente é “o cara” para liderar a divisão de pesos pesados.
O ponto que sustenta essa expectativa é o perfil de atleta: no papel, Hokit é exatamente o tipo de esportista que o MMA sempre quis ver fazer a transição. Ele foi um atleta de dois esportes, com histórico no boxe e com planos na NFL que foram deixados de lado depois de alguns períodos atuando como integrante do treino. Agora, com nove lutas profissionais sem derrota, ele já conseguiu entrar no Top 5 em apenas três apresentações no UFC. E, para cravar de vez o status de candidato de verdade, uma vitória sobre Derrick Lewis pode consolidar a história que está sendo construída.
Se alguém dissesse no fim do ano passado, quando Hokit ainda estava no Contender Series, que ele chegaria ao ponto de ser considerado candidato real em apenas quatro combates, a reação seria descrença. Mas é exatamente isso que está à vista, e o sentimento é de estar na beira desse desfecho.
Sean O’Malley encara Aiemann Zahabi em um duelo que chega em um momento em que o topo da divisão de pesos galos segue sem definição final. O combate no palco da Casa Branca tem tudo para esclarecer caminhos para ambos. “Suga” voltou a vencer em janeiro, com uma decisão unânime sobre Song Yadong, e agora quer manter-se no caminho do cinturão caso Petr Yan continue por cima — lembrando que Yan tem uma vantagem estreita sobre o dono do título, com vitória apertada nesse duelo anterior. Zahabi vem embalado por uma sequência de sete vitórias, com triunfos em decisões muito disputadas em sequência contra José Aldo e Marlon “Chito” Vera. Ainda que isso seja discutível ou não, o cenário coloca Zahabi como um adversário mais “seguro” e acessível para O’Malley, exatamente o tipo de adversário que Cory Sandhagen vinha tentando alcançar com urgência.
O que mais chama atenção em O’Malley é que ele não parece ser o mesmo “Suga” que subiu degrau por degrau e conquistou o cinturão há cerca de três anos. Ele continua tecnicamente muito apurado e com talento inegável, mas a pergunta é direta: ele é significativamente melhor do que Zahabi? É isso que o combate vai responder. Outro aspecto que agrada é o estilo de Zahabi: ele é um lutador de verdade, que briga por vitória em rounds apertados e em lutas ainda mais fechadas. Dá para discutir critérios de pontuação nas duas últimas vitórias, mas há mérito no fato de ele ter sobrevivido a um susto perto de ser finalizado para virar contra Aldo, e também de ter recebido a decisão contra Vera, algo que a maioria considerou correto.
Com um jogo completo, técnica e bases defensivas consistentes, Zahabi pode ser uma dor de cabeça para qualquer adversário. E, por isso, não surpreende se o resultado for uma luta altamente competitiva do começo ao fim.
Entre os confrontos que marcam o tema “estrelas em ascensão” do UFC Freedom 250, Alex Pereira enfrenta Ciryl Gane. Mesmo que o foco principal seja a tentativa de Pereira se tornar o primeiro campeão da história do UFC em três divisões, o duelo segue sendo chamativo por outro motivo: ele pode bagunçar ainda mais os planos do peso pesado ou, por outro lado, mostrar limites para o que “Poatan” consegue fazer dentro do octógono. A sensação é de que as medidas e parâmetros técnicos parecem próximos, mas só dá para tirar uma conclusão real depois de ver Pereira lidando com a transição para o peso pesado. A comparação que surge é com Max Holloway desafiando Dustin Poirier pelo cinturão interino: ainda que estivessem no mesmo recorte, havia diferenças relevantes — Poirier era “de vida” na categoria, enquanto Holloway parecia mais um visitante.
Ainda que não exista surpresa caso Pereira caminhe para uma adaptação rápida e histórica, este também é um daqueles momentos “preciso ver ao vivo”. Afinal, Gane já mostrou capacidade de bater pesado em adversários talentosos no peso pesado e se mover como poucos atletas com aquele porte conseguem dentro do octógono. Se ele conseguir trabalhar o jab, manter distância e impedir Pereira de chegar com conforto, o cenário também não seria totalmente fora do roteiro.
Uma vitória de Pereira seria ainda mais histórica e aumentaria a intriga na divisão. Mas, se Gane vencer, a conversa continua intensa: ainda haverá muito a analisar e discutir sobre o que esse resultado significa para o futuro dos pesos pesados.
No outro grande confronto do evento, Ilia Topuria encara Justin Gaethje em um duelo em que o cinturão dos leves está em jogo — com a chance de o americano encerrar a noite de forma marcante, transformando o momento histórico em um título. Ainda assim, a sensação é de que a luta tem um sabor maior de legado para os dois lados. A carreira dos atletas já está estabelecida, mas o que acontecer no domingo muda o peso de como cada um será lembrado daqui para frente.
Topuria vem de uma sequência de três lutas finalizando Alexander Volkanovski, Max Holloway e Charles Oliveira. Trata-se, possivelmente, da melhor sequência de finalizações em três combates da história recente do UFC, e se ele fechar a conta com a quarta vitória seguida, estacionando Gaethje com um nocaute/estopim, a discussão sobre onde “El Matador” se encaixa entre os maiores de todos os tempos fica inevitável. Também existe curiosidade legítima sobre como o campeão se comporta caso não consiga apagar o fogo rápido e precise enfrentar um confronto mais longo, com Gaethje derrubando o ritmo e exigindo resistência — um duelo de pancada, “vai e volta” e troca de impacto até o fim.
Gaethje, por outro lado, é um campeão interino duas vezes, um atleta que costuma ganhar bônus e que entrega entretenimento como poucos. Ele entra no Hall da Fama assim que pendurar as luvas. O que falta no currículo dele é exatamente o cinturão definitivo dos leves. Se ele finalmente conquistar o ouro no palco da Casa Branca, o impacto emocional tende a ser enorme — e a expectativa é de que o UFC Freedom 250 termine com uma daquelas cenas que ficam na memória.
Completando a cobertura do evento, há também destaque para a galeria de fotos com os lutadores do UFC Freedom 250 visitando a Casa Branca.
Ainda sete dias depois, a ação volta ao ritmo normal com mais um Fight Night em Las Vegas. No UFC Fight Night: Kape contra Horiguchi, marcado para sábado, 20 de junho, o card acontece na Meta APEX e tem como atração principal um confronto de peso mosca entre Manel Kape e Kyoji Horiguchi. O duelo pode definir quem fica como segundo na fila para tentar o cinturão — e Alexandre Pantoja, ex-campeão e atual primeiro da lista, já está reservado como referência.
Kape vem em curva ascendente desde uma derrota incomum e com longo período de inatividade contra Muhammad Mokaev, em Manchester, e depois emendou três vitórias seguidas por encerramento, subindo até o número 2 do ranking. Horiguchi, por sua vez, fez 2-0 desde o retorno ao UFC e rapidamente saltou para a quinta posição. Mesmo sem garantias, faz sentido imaginar que o vencedor daqui se aproximará do confronto entre Joshua Van e Pantoja, que é tratado como um possível rumo de revanche — com o fim do ano ou o começo de 2027 como janela plausível para essas decisões.
O que mais agrada neste confronto não é apenas o fato de colocarem dois nomes entre os cinco melhores para brigar: é a postura de ambos. Eles têm mantido ritmo alto e escolhido seguir lutando em vez de preservar o cartel e aguardar que uma disputa de título caia no colo. Esse é um dos momentos em que o MMA parece mais “vivo”, com atletas defendendo posição e disputando espaço no topo. Como se trata também de uma revanche, existe uma camada extra de história para ser levada em conta — o que deixa o Fight Night quase como um “recarregamento” pós-Casa Branca, menos de uma semana depois do grande evento.
Na sequência, em sábado, 26 de junho, o UFC Fight Night: Fiziev contra Torres acontece em Baku, no Azerbaijão, com um card que também traz um duelo de abertura chamativo. Antes do combate principal, Abdul Rakhman Yakhyaev enfrenta Julius Walker, e aqui existe uma justificativa para a inclusão específica do duelo: mesmo sem encaixar perfeitamente no restante da lista, a presença de Yakhyaev é o motivo. Recém-egresso do DWCS, ele começou a carreira no UFC com dois nocautes por encerramento no primeiro round, chegando ao 9-0 no total e com praticamente todas as vitórias acontecendo dentro do tempo inicial. Ele é um finalizador que não depende de um único caminho: pode vencer por TKO (3 vezes) ou por finalização (5). E, com mais uma vitória consecutiva sobre Walker, dessa vez em território azerbaijano, ele pode reforçar o status de promessa entre os principais nomes do elenco.
O ponto mais relevante, porém, vai além do desempenho: Yakhyaev tem 25 anos. Em uma categoria em que os mais jovens ranqueados chegam a 33 anos — com Jiri Prochazka e Bogdan Guskov como referências — e em que a média de idade dos 16 atletas considerados no recorte é de 35,69, a impressão é de que existe espaço de sobra para crescer rápido. Se ele vencer novamente, a tendência é acelerar a escalada no ranking.
No combate seguinte do evento, Rafael Fiziev encara Manuel Torres. Um mês depois de maio terminar com um atleta do país-sede conquistando uma vitória em meio a uma torcida barulhenta, Fiziev tenta repetir o roteiro em Baku ao receber Torres para um confronto que promete ser interessante enquanto durar. Fiziev, que representa o Azerbaijão, entra após uma derrota difícil para Mauricio Ruffy no início do ano, e busca não apenas se recuperar com uma vitória no intervalo de dois anos em solo local, mas também garantir que segue firme no Top 15.
No papel, o confronto representa um degrau razoável de dificuldade para Torres, que vem de vitória sobre Grant Dawson na última apresentação. Ainda assim, a sensação é de que a avaliação do salto pode ser frágil. Sem entrar na discussão de “quem ele realmente enfrentou”, a reputação de Fiziev parece ter ganhado brilho porque ele duelou bem contra Justin Gaethje duas vezes, depois de uma sequência de vitórias contra nomes considerados bons. Só que, desde o verão de 2022, ele registra apenas uma vitória — sobre Ignacio Bahamondes — e, ainda assim, no recorte completo dos últimos anos, o desempenho é de 1-4. Isso faz com que a diferença clara entre Fiziev e Torres talvez não seja tão óbvia quanto alguns imaginam.
O “ponto estranho” do MMA, aquele cálculo que muda narrativas por causa das conexões entre lutas, é que a única derrota de Torres no UFC foi para Bahamondes. Na ocasião, Bahamondes aproveitou a agressividade do adversário e aplicou um nocaute em um evento do Noche UFC na Sphere, em 2024. Desde então, Torres venceu Drew Dober e também Dawson. A expectativa, portanto, é que ele tente fazer a mesma coisa com Fiziev para encerrar o mês com mais um resultado grande.
Como ocorre com a maioria dos combates em uma lista como essa — e com a maior parte das lutas em geral — o desfecho vai servir como um termômetro importante para avaliar onde cada um se encaixa na divisão de leves, que segue lotada de nomes e repleta de candidatos. E, exatamente por isso, junho promete ser um mês em que cada resultado pode mudar a rota não só do vencedor, mas de toda a hierarquia ao redor.
