Todos que pisam no Octógono no domingo, 14 de junho, na Casa Branca, ao lado de Aiemann Zahabi, são ou foram campeões do UFC. Seja com cinturão interino ou com título absoluto, os cinco atletas que vão entrar na gaiola no UFC Freedom 250, evento que acontece no South Lawn, carregam no currículo algum tipo de conquista na organização. Nesse contexto, o fato de o canadense de 38 anos ser o último nome a cruzar a área externa entre os participantes que não possuem um reinado de campeão reforça o tamanho da chance que aparece para ele no mês seguinte.
Em entrevistas recentes, Zahabi comentou que a oportunidade sempre fez parte dos seus planos. “Eu sempre sonhei em estar aqui. Eu só estava dizendo para as pessoas que estou fazendo isso pelo garoto que eu era, lá atrás, com 16 anos. Por que eu teria medo desse momento? Eu encaro essa fase com muito orgulho”, afirmou, ao falar sobre o duelo contra Sean O’Malley. Segundo ele, o caminho de 20 anos até chegar a esse tipo de palco foi construído com trabalho e decisões voltadas para aproveitar as portas que surgiram. “É uma obra de trabalho desses últimos 20 anos, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para conquistar essas oportunidades. Por isso estou animado para entrar e lutar contra mais um ex-campeão.”
Para parte do público mais amplo do MMA, Zahabi ainda pode soar como um nome menos conhecido, principalmente quando comparado ao peso midiático de outros atletas que aparecem em um evento exclusivo e histórico como esse. No entanto, dentro do cenário competitivo dos penas-galos (bantamweight), ele já ocupa o sexto lugar no ranking da categoria e chega ao confronto contra O’Malley após uma sequência de sete vitórias. Mesmo assim, o sobrenome Zahabi costuma ser lembrado com mais força pela trajetória do irmão e treinador, Firas, do que pela própria trajetória do lutador — um detalhe que, na visão de quem acompanha com regularidade a modalidade, ajuda a explicar por que o reconhecimento ao redor dele ainda não acompanha o que a sequência recente oferece.
Quem segue o esporte de forma mais constante conhece melhor a história do mais jovem dos Zahabi: a jornada no MMA, as dificuldades iniciais no UFC, e como ele conseguiu, com o tempo, voltar a executar o que tem de melhor. Nos últimos anos, a fase se transformou de maneira clara e contínua, com triunfos em sequência, incluindo vitórias apertadas e importantes sobre José Aldo e Marlon “Chito” Vera, duas referências que ajudaram a consolidar seu momento. Ainda assim, apesar de estar tão perto do tipo de disputa que muitos sonham — e de estar atravessando um ciclo vitorioso que já dura quatro anos — o técnico que vem em ascensão segue sem receber, segundo ele, o tipo de atenção proporcional a uma sequência de sete vitórias em uma divisão extremamente disputada.
Para Zahabi, justamente por isso, a oportunidade pesa tanto. “Essa é uma grande chance porque eu sempre quis entrar no mainstream, ter uma grande base de fãs e todo esse tipo de coisa, e essa é a minha oportunidade na Casa Branca. Não existe evento maior do UFC do que este. Não vai haver outra ocasião com tanta audiência quanto esta”, disse. Ele também ressaltou o impacto que o palco pode trazer para a carreira: “Isso impulsiona meu caminho. Eu espero vencer e fazer isso diante de todo o público dele, para que os fãs dele comecem a me acompanhar também. Seria ótimo.”
Mesmo vendo o UFC Freedom 250 como uma espécie de rampa de lançamento para aumentar seu tamanho dentro da divisão e para o público geral do MMA, Zahabi entende que, no fim, nada do espetáculo externo garante resultado. Ele já está tempo suficiente no esporte para saber que, quando a porta do Octógono se fecha, tudo se resume ao que acontece nos 1 contra 1. “Você precisa aproveitar esses momentos quando surge alguém grande, como um ex-campeão. Isso é tudo o que você já quis. Se você realmente quer ser o melhor, você tem que vencer o melhor, e eu estou aqui para derrotar ele”, afirmou. Na leitura dele, o restante é apenas cenário: “Para mim, é todo esse lado de pompa, é teatro, é coisa para mostrar. Isso é para os fãs. Para os lutadores, é só um contra um dentro da jaula.”
Ele completou reforçando que ninguém consegue interferir no combate. “Ninguém vai entrar na luta. O fato de ele ter uma torcida ou um número grande de seguidores não entra na gaiola para ajudar. Não importa se você tem 30, 40, 50 mil seguidores como eu, ou se tem um milhão como ele. No final, eu estou lutando contra Sean O’Malley, Sean O’Malley está lutando contra mim, e ninguém consegue ajudar ele.”
Ao longo da atual fase de vitórias, Zahabi diz que há um fator que permaneceu constante: a postura mental e a confiança inabalável. A sequência começou com um nocaute no primeiro round sobre Drako Rodriguez, em fevereiro de 2021, interrompendo uma sequência anterior de dois reveses. Apesar de ser um striker altamente técnico e um atleta reconhecido pela responsabilidade defensiva, o que, segundo ele, sustentou o desempenho em momentos mais duros foi o trabalho feito com o treinador mental “Mindset Mike” Moor.
Em lutas extremamente disputadas, Zahabi encontrou respostas quando outros teriam se quebrado. Um exemplo citado por ele passa por um confronto contra Aldo, em que o lutador sofreu uma queda e ficou atordoado no final do terceiro round, mas conseguiu manter o foco, criar espaço e reorganizar a própria resposta antes de reagir e vencer o brasileiro em casa, em Montreal, no UFC 315. Para Zahabi, essa combinação de resiliência mental e tenacidade é justamente o tipo de vantagem que pode aparecer quando ele entrar no octógono contra O’Malley no dia 14 de junho.
Ao falar sobre o duelo, ele também comentou a fome que acompanha sua fase e o momento do adversário. “Eu tenho, sim, bastante fome. Mas também venho de uma sequência de sete vitórias, mesmo tendo perdido duas seguidas antes e, depois, voltado a vencer recentemente. Eu sinto que meu estado mental pode ser a diferença nesta luta”, declarou. Na visão dele, os dois são lutadores com alto nível técnico — “obviamente, ele é um grande atleta e ex-campeão” — mas, quando o assunto é mentalidade, ele acredita que a própria postura será “inquebrável”.
E, caso a cabeça e o arsenal técnico não sejam suficientes para levar Zahabi à vitória, ele e o irmão vêm comentando desde o anúncio do combate uma espécie de arma inesperada que pode favorecer o canadense no confronto ao ar livre. “É engraçado”, disse ele, sorrindo ao falar sobre lutar fora de ambiente fechado pela primeira vez na carreira. “Durante os treinos, meu irmão levantou um ponto bom: no Tristar Gym não tem ar-condicionado. No verão, em Montreal, é extremamente úmido, e ele falou: ‘Você vê? Esses últimos 20 anos treinando sem ar-condicionado nesse lugar valeram a pena. Agora você vai lutar ao ar livre em Washington, que também é úmido, e vai estar bem preparado.’”
Zahabi riu ao admitir que, sem perceber, vinha se preparando para esse tipo de circunstância a vida inteira. Para ele, a “lógica” do treino não está somente na falta de ar no ginásio do terceiro andar, na Ferrier Street, mas principalmente no hábito de disciplina que se construiu ao longo de duas décadas.

