Abril de 2026 no octógono: 50 lutas, 14 nocaute/KO e oito finalizações

Quatro eventos já passaram em abril, e ainda faltam oito para fechar o calendário. O mês começou com a tradicional etapa numerada em Miami e, no meio do caminho, ganhou ritmo com o retorno a Winnipeg, encaixado entre noites importantes no Meta APEX. No total, foram 50 lutas no octógono ao longo do período, com 14 vitórias por nocaute ou nocaute técnico, oito finalizações, 26 decisões e ainda dois empates — números suficientes para alimentar debates sobre rumos de cinturão, escaladas no ranking e evolução de atletas.

Ethyn Ewing e a pressão do “segundo UFC”

Antes mesmo de entrar novamente no UFC, Ethyn Ewing já carregava um tipo de expectativa diferente: era a segunda aparição na organização, depois de ter chamado atenção ao entrar em cena com pouco tempo e surpreender Malcolm Wellmaker. A tarefa, porém, não era simples. No primeiro card do mês, o bantamweight precisou receber o brasileiro Rafael Estevam, em uma luta que colocava holofotes no que foi chamado de “continuidade” após a estreia.

Em sua apresentação, Ewing deixou claro que o sucesso anterior não tinha sido acaso. Ele trabalhou com paciência, foi desmontando Estevam aos poucos e encontrou o momento para encerrar a trocação com um golpe forte na região do corpo no começo do terceiro round, derrubando o ritmo do adversário e levando a luta a terminar cedo. A leitura geral do desempenho foi a de uma versão mais “assentada” do que ele já tinha mostrado antes: golpes técnicos, controle do espaço e segurança na faixa de trocação — com um bônus importante, já que o nível de dano sofrido por Ewing foi menor do que o esperado para quem vinha de uma trajetória recente na divisão.

Com 28 anos, o lutador não costuma chamar atenção por personalidade chamativa nem por estilo exagerado. Ainda assim, as performances estão fazendo o trabalho por ele. O cenário atual indica que não deve demorar para que Ewing se torne um nome que muita gente na categoria evite encarar no futuro, justamente por conta dos fundamentos bem sólidos e pela forma “limpa” como ele aplica o boxe de precisão. A tendência é que ele consiga uma escalada gradual no ranking nos próximos anos.

Declaração em destaque

“Ewing termina cedo e garante o TKO sobre Rafael Estevam” — luta destacada do mês

Menções honrosas: Alice Pereira, Tommy McMillen, Abdul Rakhman Yakhyaev, Josh Hokit, Marcio Barbosa, Michelle Montague

Tatiana Suarez mostra que ainda é ameaça real

É curioso olhar para a linha do tempo e perceber como as percepções mudam rápido no MMA. No começo do ano passado, muita gente acreditava que Tatiana Suarez iria tirar Zhang Weili do cinturão dos pesos palha. Porém, 14 meses depois, ela apareceu em uma luta mais “equilibrada” no papel contra Loopy Godinez, que chegava como sexta colocada do ranking.

O contexto ajudava a gerar dúvidas. Depois de ser superada de forma contundente por Zhang e de vencer com uma decisão mais morna contra Amanda Lemos em setembro, no Noche UFC, Suarez parecia vulnerável. Do outro lado, Godinez vinha de duas vitórias seguidas: uma sobre Julia Polastri e outra sobre Jessica Andrade. Apesar de ter sido surpreendida no início — com um susto e um golpe que a tirou do eixo —, Suarez respondeu voltando ao que sempre foi base da carreira: a ofensiva com wrestling.

Em Miami, ela mostrou que ainda está acima de Godinez e de outras rivais com perfil semelhante. A luta seguiu para uma segunda etapa em que a dominância de Suarez ficou ainda mais clara, até o momento em que ela encaixou a finalização no segundo round. O resultado foi lido como uma prova de que, entre setembro e 11 de abril na Flórida, houve ajuste suficiente para transformar a forma de competir de Suarez.

Declarações pós-luta

Entrevista de Tatiana Suarez após a luta

O entendimento geral é que essa foi a melhor versão de Suarez em algum tempo — com muitos apontando inclusive que ela não se movia tão bem desde o ciclo anterior, quando enfrentou Carla Esparza. Ela transitou rápido entre ações, manteve a cadência sob controle e venceu Godinez em praticamente todos os momentos de contato e em cada tentativa de emaranhamento. Qualquer mudança que tenha ocorrido entre o último compromisso e o dia 11 de abril foi significativa e apareceu na performance.

Com isso, Suarez segue como uma ameaça de título, independentemente de quem esteja com o cinturão no momento. E, após emendar vitórias consecutivas sobre adversárias do top 10, a chance de voltar a disputar a parte mais alta da tabela deve crescer rapidamente.

Menções honradas: Tresean Gore vs Azamat Bekoev, Yakhyaev vs Brendson Ribeiro, Renato Moicano vs Chris Duncan, Vicente Luque vs Kelvin Gastelum, Mateusz Gamrot vs Esteban Ribovics, Robert Valentin vs Julien Leblanc, Jackson McVey vs Sedriques Dumas

O nocaute que desafiou a lógica: Carlos Ulberg

Há um tipo de luta que fica na memória por mais do que o resultado. Quanto mais tempo passa desde aquela finalização, mais o feito de Carlos Ulberg segue ganhando espaço na lista de nocauteadores favoritos de quem acompanha o esporte. O motivo é simples: não é apenas sobre encerrar uma luta — é sobre fazer isso depois de lidar com uma lesão debilitante.

Ulberg sofreu um problema sério, envolvendo o joelho, quando sentiu o rompimento do ligamento anterior (ACL). Mesmo com a dor e com a urgência mental de quem sabe que a situação é grave, ele conseguiu “varrer” pensamentos negativos e executar a ideia que levaria ao fim: quando entendeu que ainda tinha tempo no round para finalizar o combate, encontrou o caminho até o golpe decisivo. O contexto da fala é o mesmo que foi descrito após o UFC 327: rapidamente afastar o que poderia tomar conta da cabeça e focar no único objetivo que importava.

Golpe que encerrou

Do ponto de vista técnico, o que sempre aparece como marca registrada de Ulberg é o gancho de esquerda. Em Miami, ele voltou a ser “bonito” no sentido mais prático da palavra: compacto, rápido e certeiro. Quando o golpe conectou, a luta acabou.

Declaração em destaque

Carlos Ulberg fala sobre o caminho até a recuperação

Agora, a expectativa é a recuperação mais rápida possível do campeão, que chegou a 10 vitórias seguidas para ocupar o topo de uma das divisões mais intrigantes do momento dentro da promoção.

Menções honradas: Pereira vs Hailey Cowan, Alessandro Costa vs Stewart Nicoll, Ewing vs Rafael Estevam, Cub Swanson vs Nate Landwehr, Barbosa vs Dennis Buzukja, Ryan Spann vs Marcus Buchecha

Josh Hokit prova que pode incomodar no peso-pesado

Além de todas as performances e do jeito marcante que Josh Hokit costuma assumir ao redor do octógono, existe algo mais importante: ele é um prospecto realmente interessante no peso-pesado. E o confronto dele com Curtis Blaydes no começo do mês foi um lembrete para quem ainda estava decidindo o que pensar sobre o americano.

Antes do duelo, poucas pessoas tinham a postura agressiva de encarar Blaydes da forma que Hokit encarou. Só haviam feito isso Francis Ngannou (duas vezes), Sergei Pavlovich e Tom Aspinall. Os nomes citados pesam no cenário: são campeões e potências com capacidade de apagar adversários rápido — tanto que cada uma das seis primeiras vitórias no UFC de Hokit vieram por paralisação ainda no primeiro assalto.

Contra Blaydes, no entanto, Hokit não conseguiu finalizar. Mesmo assim, o contendores de longa data conseguiu se recuperar e voltar ao combate, criando momentos positivos também. Ainda assim, o que chama atenção é o “pacote” do desempenho: em sua terceira luta no UFC, no nono compromisso profissional e após apenas 30 meses como atleta profissional, Hokit levou a briga até Blaydes e deixou claro, em leitura ampla, que conseguiu vencer etapas importantes e impor presença.

Ele segue com margem para crescer — ainda é um lutador em formação, com peças a lapidar —, mas a base já existe. Aos 28 anos, há sinais de que ele pode virar um nome competitivo de verdade e que deve permanecer no radar como contender por vários anos. É possível que alguém o derrube um degrau no futuro, mas, mesmo que isso aconteça, o que ele mostrou nesse duelo e o que vem apresentando ao longo dos últimos meses no UFC obrigam o público a reconhecer o talento.

Menções honradas: John Castaneda vs Mark Vologdin, Jai Herbert vs Mandel Nallo, Charles Jourdain vs Kyler Phillips, Davey Grant vs Adrian Luna Martinetti

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.