A Austrália, que já foi vista como uma “periferia” do UFC, hoje aparece com o terceiro maior contingente de atletas no plantel da organização. Ao todo, são 23 lutadores do país no roster, atrás apenas dos Estados Unidos (200) e do Brasil (106). O dado chama atenção ainda mais quando se lembra que, há poucos anos, esse número era praticamente metade. Nos últimos dois períodos, porém, uma nova leva de talentos chegou com força: desde o início de 2024, doze australianos já estrearam ou voltaram ao octógono, com quatro em 2024, seis em 2025 e mais dois neste começo de ano.
Uma geração puxando o crescimento
Mesmo com nomes consolidados mantendo o padrão alto — como Robert Whittaker, Alexander Volkanovski e Jake Matthews —, o movimento recente tem sido liderado por atletas que vêm abrindo caminho para a próxima safra. Entre eles, destacam-se Jack Della Maddalena, ex-campeão peso-meio-médio, além de Quillan Salkilld e Tom Nolan.
“Parece uma grande família”
Tom Nolan falou sobre o ambiente de união entre equipes e atletas do país antes de encarar Fares Ziam no dia 6 de junho. Na visão do lutador, existe uma sensação de proximidade que vai além das academias, conectando treinadores e parceiros de treino como se fosse um círculo único.
“É como se fosse uma grande família”, declarou Nolan. “Obviamente, algumas equipes se sentem mais próximas do que outras. Mas eu me dou muito bem com Cody (Haddon) e com o treinador do Quillan, o Romel (Luistro). A gente conversa e se entende muito bem, a ponto de parecer que as academias são quase como academias ‘de irmãos’ ou ‘de irmãs’, do jeito que você quiser chamar. E isso também se aplica ao Ben (Vickers) e ao Scrappy (MMA), e aos caras.”
Representando a Team Compton, de Brisbane, Nolan ampliou a ideia e citou o que enxerga como evolução coletiva do MMA australiano. Ele também mencionou a presença de nomes do topo treinando juntos, como Rob Whittaker e Israel Adesanya, como sinal de que o mundo começa a enxergar melhor a qualidade que vem do país.
“Espero que, com o tempo, todas as equipes do país fiquem nessa mesma sintonia”, acrescentou o lutador. “É muito legal ver Rob (Whittaker) e Izzy (Adesanya) treinando juntos. A sensação é que existe uma grande evolução agora, porque a parte do mundo em que a gente está está começando a mostrar o quanto é forte e quantos atletas tem. Ainda vai ter muita gente passando por aqui — gente da cena local que já fala: ‘esse cara vai estar no UFC’, ‘esse aqui vai fazer bem’. E, eventualmente, a gente provavelmente vai ter um elenco tão grande quanto o lado americano.”
Avanço na cartel e no ranking
A dificuldade de alcançar o número de atletas dos Estados Unidos é grande, mas o nível do que chega da Austrália hoje não deixa dúvida. Della Maddalena, por exemplo, teve uma ascensão rápida no peso-meio-médio e entrou para a lista de campeões australianos do UFC, juntando-se a Whittaker e Volkanovski. Já Salkilld disparou até o Top 15 do peso-leve graças a uma sequência de cinco vitórias em sequência.
Além disso, o crescimento não para: Cody Haddon e Jono Micallef também fazem parte do grupo de nomes em ascensão, assim como Cam Rowston, da turma do Contender Series de 2025, e o companheiro de equipe no peso-pesado Brando Pericic. Com isso, a sensação é de que várias divisões começam a receber atletas que chegam para causar impacto.
Nolan chega em sequência de vitórias
Tom Nolan, por sua vez, entra no radar com um momento bem definido. Ele desembarca em Las Vegas, no estado de Nevada, após uma sequência de quatro triunfos seguidos e também depois de um desfecho que lhe rendeu bônus, obtido em setembro, diante de Charlie Campbell. Agora em seu terceiro ano no elenco do UFC, o australiano de 26 anos — apelidado de “Big Train” — diz que vem encontrando estabilidade e confiança para o que vem pela frente.
O valor do intercâmbio com atletas de alto nível
Um dos pontos que Nolan aponta como decisivos é a troca de experiência com lutadores do mais alto patamar. Para ele, quando o atleta é mais jovem e “menos polido”, é difícil medir o quanto está aprendendo. Mas, à medida que o próprio desempenho evolui, ele passa a enxergar a diferença de estar em um ambiente que reúne gente no mesmo nível de elite.
“Trabalhar com outros caras de alto nível é algo fenomenal”, afirmou Nolan. “E isso dispensa explicação. Quando você ainda é mais novo e está mais ‘verde’, você não consegue medir exatamente o que acontece quando você anda com gente que é incrível. Só que quando você vira incrível também, você pensa: ‘tá tudo certo, eu tô junto, a gente tá no mesmo patamar de campeão mundial, só que em momentos diferentes da jornada’. A gente treina com lutadores do UFC, mas é muito legal que — um lado do país está de um lado e o outro lado está do outro — e todo mundo faz coisas parecidas, só que também faz diferente.”
Ele ainda reforçou que, embora a familiaridade com companheiros de equipe ajude, o contato com outros atletas do UFC amplia o repertório. Nolan descreveu o treinamento como uma oportunidade de juntar métodos e ferramentas, criando um ambiente de aprendizado sob pressão.
“Você fica confortável com seus companheiros. Você também fica confortável com outros caras do UFC que são seus parceiros. Mas quando você mistura, troca e aprende junto, compartilhando conhecimento, é como se desse para colocar tudo isso dentro de uma panela de pressão, e todo mundo crescer em aspectos individuais diferentes. Todo mundo tem conjuntos de habilidades e especialidades distintas. E é muito bom poder juntar isso.”
Ajustes para a “maior vitrine”
Outro fator que Nolan destaca para destravar sua evolução é a capacidade de fazer correções que só aparecem quando o atleta começa a se adaptar ao estilo de vida e à rotina de competir no maior palco do esporte. Ele reconhece que, quando o lutador vem de circuitos regionais, é possível “escapar” de alguns erros por causa do nível desigual. No UFC, porém, tudo precisa ser ajustado com mais precisão, e esse processo leva tempo.
Para Nolan, esse período já está majoritariamente para trás.
“Eu era bem jovem quando assinei com o UFC”, disse ele. “Eu sentia um tipo de pressão para ter cuidado com o que eu falava, com o que eu fazia, e com o que as pessoas iam pensar. Agora eu só faço o meu trabalho. Eu amo a minha vida. Todo dia eu acordo e agradeço por poder fazer isso todo dia — e os resultados vêm disso.”
Treino com foco em qualidade
Nolan também explicou que sua abordagem mudou conforme ele ficou mais confortável com a própria realidade. Em vez de “se moer” por causa de uma ideia de trabalho duro a qualquer custo, ele diz que passou a priorizar o treino com qualidade — e não apenas intensidade.
“Eu penso assim: eu gosto dessas sessões. Eu até queria fazer mais, mas eu não vou porque preciso ser inteligente para a luta”, declarou Nolan. “Eu preciso vencer a luta; eu não preciso vencer no ginásio.”
O desafio: parar Fares Ziam
Para vencer neste fim de semana, Nolan terá que fazer algo que ninguém conseguiu nos últimos mais de quatro anos: derrotar Fares Ziam. Depois de dividir as quatro primeiras aparições no octógono, o atleta francês de 29 anos emplacou seis vitórias consecutivas e escalou até a 14ª posição do ranking. O último compromisso dele no momento citado foi em dezembro, no UFC 323, quando venceu Nazim Sadykhov com interrupção no segundo round.
Estratégia e leitura de estilo
Ao falar sobre o que acredita ser o caminho para o triunfo, Nolan citou presença e pressão como chaves, além de paciência — mas uma paciência que incomode o adversário. Ele comentou que o estilo de Ziam funciona bem quando o lutador consegue controlar a distância usando o próprio alcance, principalmente contra oponentes mais baixos. Porém, Nolan acredita que, por serem parecidos em altura, isso tende a ser mais difícil.
“Eu acho que é presença e pressão”, afirmou Nolan. “Você tem que ter paciência, mas fazer com que seja desconfortável para ele. Ele usa bem o alcance contra caras mais baixos. Só que eu acho que vai ser difícil para ele fazer isso contra mim, porque a gente tem alturas bem parecidas. Eu não vou ficar tanto por baixo dele. A gente vai ser bem parecido, e eu vejo isso como uma vantagem grande. Eu tenho gás para dias. Eu consigo ir e ir e ir. Não quer dizer que ele não consiga, mas eu acho que ele é um tipo de lutador que precisa que as coisas estejam mais ‘bonitas’, que do lado de fora esteja tudo certinho.”
Na sequência, Nolan afirmou que pretende atrapalhar o ritmo de Ziam para dificultar que ele encontre o “rolar” no combate. Caso o francês consiga encaixar suas sequências, Nolan diz que conta com resistência para não se perder no jogo.
“Quando eu atrapalhar o ritmo dele e a minha presença estiver ali, eu acho que fica difícil para ele começar a ‘rodar’”, continuou. “E se ele conseguir colocar o jogo dele para funcionar, eu também acho que eu sou resiliente. Eu amo lutar, então para mim isso é bom. Já do outro lado, eu sinto que, quando isso começa, vira um buraco difícil para ele cavar e sair.”
O tamanho da oportunidade
Com tanta concorrência constante na categoria dos pesos-leves, Nolan entende que ter sido escalado para um confronto como este é reflexo tanto do que ele já construiu quanto do modo como a organização enxerga seu momento. Para ele, é uma oportunidade enorme — especialmente por ser um atleta oriundo do Contender Series.
“Um bônus seria ótimo”
O australiano declarou que quer aproveitar ao máximo o compromisso do fim de semana. Ele disse que um bônus seria bem-vindo, mas que o parâmetro principal não é somente isso. Na prática, Nolan define um “cenário ideal” como voltar para casa com o nome na rota do sucesso, mantendo o momentum dentro do UFC.
“Um bônus seria ótimo”, concluiu Nolan, com um sorriso. “Não é uma das metas (de sucesso), porque é o que é, mas seria ótimo. Uma viagem bem-sucedida para mim seria acordar na segunda-feira com um número ao lado do meu nome.”
