O ex-lutador aposentado do UFC Ben Askren voltou a chamar atenção do público ao transformar um antigo capítulo de rivalidade com Jorge Masvidal em um reencontro cordial. A decisão de deixar de lado a briga histórica aconteceu depois de um encontro que, inicialmente, nem estava previsto para reacender qualquer tipo de confronto — e sim para encerrar um ciclo, com amizade e conversas longe do octógono.
O reencontro após um susto de saúde
A aproximação entre os dois ganhou ainda mais peso porque Askren passou por um período crítico de saúde. Antes de sua vida ser salva, ele enfrentou uma emergência médica que o levou a um coma induzido de forma clínica. Mais tarde, o processo de recuperação seguiu com um transplante duplo de pulmões, etapa que marcou profundamente sua trajetória fora das lutas.
Com a história em andamento — incluindo relatos feitos nas redes sociais — Askren contou que um documentário sobre esse caminho começou a ser discutido quando Masvidal entrou em contato. O motivo, segundo o ex-campeão, foi simples: Masvidal quis saber se os dois poderiam se encontrar.
“Estão fazendo um filme sobre o que eu vivi. A minha esposa, inclusive, era amiga de infância de alguém do ramo de produção de filmes. Eles disseram: ‘olha, a gente quer fazer alguma coisa’. Eu falei: ‘ok, claro que estou aberto’. Acho que minha história pode inspirar muita gente”, disse Askren.
Na sequência, Askren revelou que, durante esse processo, Masvidal fez um convite bem pessoal. “Em algum momento, o Jorge falou: ‘eu queria sentar, almoçar e orar com você’. Aí eu respondi: ‘qualquer hora, você é bem-vindo’. Eu ainda não estava viajando quase nada, então foi bem fácil combinar. Ele topou subir. Eu fiz um batismo no fim de semana. Foi bom”, completou.
A rivalidade que virou gatilho para um duelo no passado
Apesar do clima atual, o histórico entre Askren e Masvidal foi um dos mais intensos da categoria até então. No período em que os dois ainda estavam na ativa, o confronto de estilos veio acompanhado de provocações pesadas, com ambos explorando o desgaste psicológico antes de qualquer encontro oficial dentro do UFC.
O encontro entre eles aconteceu no UFC 239, em 2019. Naquela noite, o duelo teve um desfecho rápido e explosivo: Masvidal partiu para cima de Askren e conectou um nocaute com uma joelhada voadora. O golpe final aconteceu apenas cinco segundos do primeiro round, encerrando a luta de forma imediata.
Com o resultado, Masvidal registrou o nocaute mais rápido e também a finalização mais veloz da história do UFC até aquele momento.
“Foram necessárias” as pancadas após o nocaute
Mesmo depois do fim do combate, Masvidal seguiu alimentando a narrativa que marcou a rivalidade. Em declarações que ficaram famosas, ele defendeu que as agressões adicionais depois do nocaute foram justificadas — especialmente considerando tudo o que Askren havia dito e criado antes da luta.
Agora, sete anos após aquele encontro, Askren reconhece que a forma como a briga foi construída não surgiu apenas do ódio pelo adversário. Segundo ele, o objetivo era outro: garantir uma chance pelo cinturão do UFC, em um cenário de poucas alternativas na época.
“Para ser bem honesto, eu senti até um pouco de culpa. E eu deveria ter falado isso. Quando eu fui lutar contra ele, eu sabia que meu relógio estava correndo dentro do UFC por causa do problema no meu quadril”, explicou Askren. “Eu lutei contra o Robbie [Lawler] bem cedo. Conforme o mês foi passando, eu percebi que a única pessoa que eu realmente conseguia enfrentar era ele. Então eu precisava que ele dissesse ‘sim’. Eu tive que provocar muito. Eu tive que falar coisas que talvez eu não quisesse dizer totalmente. Porque senão eu ia acabar no banco.”
Sem opções: a estratégia por uma luta que levasse ao título
Askren detalhou como a janela de oportunidades influenciou diretamente o planejamento. De acordo com o ex-lutador, vários nomes que poderiam ser considerados não entravam no caminho por afinidades pessoais ou por decisões de carreira que já estavam encaminhadas.
Ele lembrou que, naquela fase, o plano de título estava desenhado para outras pessoas. “Se você lembrar, isso já faz sete anos. O Tyron [Woodley] perdeu para o [Kamaru] Usman. Eles não iam me dar a luta pelo título; seria Usman contra Colby [Covington]. Esse era o plano. Eu não ia encarar o Tyron porque ele é um amigo próximo. ‘Wonderboy’ [Stephen Thompson] tinha sido nocauteado por Anthony Pettis, então eu não ia lutar com o Anthony porque ele também é um amigo próximo. E quando o Jorge nocauteou o Darren Till, eu não tinha como ir por esse caminho. Eu não tinha opções. Aí eu falei: ‘preciso colocar toda minha energia nele’ — e no fim aconteceu. Eu achei que ia ser bom pra mim. Acabou sendo ótimo pra ele também”, disse Askren.
O impacto na carreira de Masvidal
Depois daquele duelo, Masvidal seguiu em alta. Ele derrotou Nate Diaz pelo título inaugural do “BMF” e, em seguida, enfrentou Kamaru Usman em duas lutas consecutivas pelo cinturão dos meio-médios.
A sequência de cinco combates, que também incluiu um nocaute sobre Darren Till, transformou Masvidal em um dos atletas mais populares e com maior apelo comercial dentro do elenco do UFC. E, para Askren, foi justamente aquele nocaute sobre ele que virou um dos motores do salto de fama do rival.
Ao olhar para trás, Askren afirma que não necessariamente se arrepende do jeito como a rivalidade começou, mas deixa claro que atacar Masvidal foi, na prática, o caminho para conseguir um adversário disponível e ao mesmo tempo alguém que ele acreditava conseguir vencer — tudo isso com potencial de catapultá-lo para uma disputa de título.
Deixar o passado para trás
Com o tempo, a transformação do relacionamento ganhou uma dimensão quase terapêutica para Askren. Para ele, o contato e a conversa com Masvidal funcionaram como um fechamento real de um capítulo antigo.
“Eu falei isso nas redes sociais, mas eu quero dizer de verdade: guardar rancor é uma perda total de tempo para qualquer pessoa. Isso não significa que a gente vai virar melhores amigos. Eu tenho outras pessoas com relações até mais tensas e a gente se encontra, eu perdoo, e isso não quer dizer que vou ser amigo delas. Mas dá uma sensação boa limpar o ar”, declarou Askren.
Ele também comentou a logística e a realidade do convívio. “Com o Jorge, ele mora em Miami, eu moro no Wisconsin. Eu não sei o quão bom vai ser ser amigo assim, mas com certeza não ficou sentimento ruim. É o que é. É bom conseguir perdoar, ou chegar a um entendimento, ou um acordo e dizer: ‘olha, do meu lado não tem ressentimento’. Eu acho que ele sentiu a mesma coisa. Eu acredito que a gente tem bastante coisa em comum. Então foi muito legal”, concluiu Askren.

