Pound-for-pound, Carlos Prates pode ser uma das energias mais “frias” (no sentido de postura e presença) do elenco. A palavra “cool” é subjetiva, mas existe um tipo de magnetismo que parece vir de dentro: a pessoa não precisa forçar nada, apenas seguir o próprio ritmo — e o público acaba acompanhando. No caso do brasileiro, esse “clima” ganha ainda mais força quando ele transforma cartel em sequência de nocautes, apagando adversários de alto nível com uma naturalidade que chama atenção.
Desde que garantiu contrato no programa de Dana White em 2023, pelo Contender Series, Prates não desacelerou. Foram seis vitórias que renderam bônus de performance, todas com nocaute como assinatura. E, justamente por isso, quando surgem comentários sobre o estilo de vida agitado — cigarro e festas pesadas — muita gente fala com mais fascínio do que com tom de crítica. Há mais admiração do que repreensão, em parte porque o desempenho no octógono fala por ele.
Ainda assim, há um capítulo que foge do roteiro perfeito: a única derrota de Prates dentro do UFC. Ele caiu em decisão contra Ian Machado Garry, mas o enredo daquela luta trouxe um detalhe importante para o futuro. No fim do combate, Prates reagiu com força e chegou a quase parar Machado Garry no quinto round, mostrando que o brasileiro não “desliga” e tem capacidade de virar o jogo mesmo quando as coisas parecem não favorecer.
Por isso, quando o assunto é torcida, não deve ser surpresa se o cenário em RAC Arena, em Perth, não for totalmente a favor de Prates. Ele vai encarar Jack Della Maddalena, natural de Perth. Ainda que o favoritismo em casa costume favorecer o desafiante, a expectativa é de uma arena mais dividida do que muita gente imagina, principalmente por conta do respeito que Prates vem acumulando com as lutas recentes.
Nas palavras do brasileiro
Em entrevista, Carlos Prates resumiu o sentimento de estar sendo reconhecido pelo público e, ao mesmo tempo, deixou claro que não pretende relaxar. Ele afirmou: “Eu trabalho há 16 anos desde o meu primeiro dia nessa jornada, então é bom ser amado. É bom, mas eu gosto de manter os pés no chão. Continuar trabalhando, evoluindo e me aproximando cada vez mais de ser campeão”.
Antes de chegar ao confronto em Perth, Prates viveu uma sequência que consolidou seu nome. Depois de perder para Ian Machado Garry um ano atrás, ele emendou dois golpes decisivos: primeiro, nocauteou Geoff Neal com um cotovelo giratório; depois, emplacou um nocaute de Leon Edwards com um cruzado de esquerda em Nova York, mostrando variedade de finalizações e precisão na hora de encostar.
Com vitórias que vieram com apenas três meses de intervalo, Prates acabou sendo colocado frente a frente com Della Maddalena na Austrália Ocidental. E, caso ele consiga a segunda vitória consecutiva sobre um ex-campeão, a tendência é que o brasileiro se destaque ainda mais em uma categoria extremamente competitiva, a dos pesos leves (170 libras).
Sobre o adversário, Prates reforçou respeito, mas também projetou uma noite longa para Jack Della Maddalena. Ele declarou: “Eu respeito ele. Ele tem boas habilidades e um bom boxe. Mas no sábado à noite vai ser uma noite longa. Eu vou nocautear e garantir minha luta pelo título”.
A chave do confronto contra Della Maddalena
Embora Della Maddalena já tenha mostrado competência no grappling em outras ocasiões, o cenário muda quando a referência é o UFC 322, onde ele enfrentou o atual campeão Islam Makhachev. Naquele confronto, o australiano foi surpreendido e acabou sendo superado pela pressão e eficiência do campeão.
Prates, porém, não é Makhachev — e o brasileiro sabe disso. Ainda assim, ele entende que tem pela frente um lutador completo, com repertório de artes marciais mistas, e que o jogo pode exigir resposta tanto no chão quanto em pé. O ponto que costuma separar Prates é justamente a capacidade de administrar tentativas de queda e clinch sem entregar o controle, mantendo o combate no lugar onde ele é mais perigoso.
Ao longo da passagem pelo UFC, observa-se um padrão: quando um striker de boa reputação tenta clinchar e “travar” Prates, muitas vezes o brasileiro parece achar graça, como se já soubesse que a vantagem dele nos momentos de trocação faz o adversário buscar outras rotas. O crédito para “The Nightmare” cresce porque, na maior parte das vezes, ele consegue neutralizar essas investidas e manter a luta sob sua cartilha — onde os golpes perigosos entram e a finalização fica mais próxima.
Prates também falou sobre como enxerga o plano para a luta. Segundo ele, a ideia não deve ser surpresa: “A minha estratégia não é surpresa para ninguém. Eu vou machucar meus adversários, fazer com que eles desistam [na cabeça] e, depois, nocautear. A próxima luta vai ser igual. Eu planejo fazer a mesma coisa com o Jack, e estou muito animado para fazer isso”.
Fight week, foco total e a mira no cinturão
Mesmo mantendo o estilo de entretenimento, Prates sustenta que a abordagem é de compromisso. Para ele, a semana de luta é a parte mais leve do processo — o momento em que o treino perde espaço para a rotina de pesagem e ajustes de última hora — até o auge na noite de sábado, quando ele fará a penúltima caminhada do evento.
Mas todo esse “clima” fica pequeno quando a conversa vira objetivo. O que realmente move o brasileiro é a chance de disputar o cinturão do UFC. É por isso que a posição no card principal, a luta em si e, no cenário mais favorável, a performance esperada no octógono importam: o caminho para se tornar campeão.
Prates deixou isso ainda mais evidente ao falar sobre o que considera mais empolgante no confronto. Ele disse: “A parte mais emocionante é conseguir minha chance pelo título. Por isso eu viajo até aqui. Eu trago muita gente comigo: eles atravessaram o mundo para me ver conquistar essa luta pelo título. Vai ser enorme para nós”.

