Chimaev x Strickland no UFC 328: disputa do cinturão dos médios no octógono

O UFC 328 chega com um confronto que promete colocar frente a frente estilos bem diferentes no octógono de New Jersey: Khamzat Chimaev e Sean Strickland disputam o cinturão dos médios no evento principal. Mesmo vindo de uma base fortemente ligada à luta agarrada, o checheno tem mostrado bastante conforto também no trocação, alternando posturas e usando o jogo de base para abrir espaço tanto para jabs rápidos quanto para ataques de impacto quando a distância permite.

Chimaev x Strickland: o que define o duelo

Chimaev parece confortável atacando de ambos os lados, distribuindo jabs “curtos e encaixados” a partir das duas guardas e, em seguida, colocando golpes de força para pressionar o adversário. A lógica do combate, em geral, passa por uma transição relativamente rápida: quando o oponente não apresenta um nível consistente de grappling, o lutador tende a reduzir o tamanho das trocas e, em seguida, ajustar a altura para derrubar e buscar o controle na luta de solo.

Quando o combate se estende, no entanto, Chimaev tem exibido mais variedade nos momentos em pé, incluindo entradas com aparência de “guarda aberta” e escolhas que tornam a leitura mais difícil para o oponente. Seja quando procura o chute frontal como arma preferida ou quando tenta alinhar uma direita mais pesada, a tendência é que ele procure situações em que consiga criar ângulos e marcar presença com consistência.

Mesmo com esse ataque em crescimento, um ponto de atenção é a defesa: o checheno precisa ter cuidado para não “esquecer” a proteção ao entrar em trocas. Aos 32 anos, a missão é respeitar a precisão e o repertório de Strickland, que costuma aproveitar exatamente os espaços que surgem quando o rival tenta ditar o ritmo.

A trocação de Strickland: alcance, teep e o jab como assinatura

Strickland, por sua vez, trabalha bem o alcance, usando o corpo e o posicionamento para permanecer longe quando convém. Ele tem recorrido a entradas com teep frontal de vez em quando e a uma sequência de jabs que acertam com frequência. O jab é o elemento que dá ao americano um “bom feeling” desde sua chegada ao UFC, seja quando ele circula com o golpe após um contra-ataque ou quando conecta jabs com cruzados alinhados no centro do octógono.

Quando está no timing, Strickland também não se limita à mesma posição o tempo todo: ele troca de postura durante combinações para atacar adversários que tentam se deslocar. Em duelos contra canhotos, como ocorreu diante de Krzysztof Jotko, essa capacidade de alternar a base foi usada para alimentar uma sequência constante de chutes baixos, que se mostraram bem eficientes.

Apesar de ter recursos para contra-atacar, Strickland não está imune a ser respondido. Sua postura mais ereta e a tendência de se mover e avançar em linha reta podem facilitar leituras do adversário, especialmente para um lutador como Chimaev, que busca justamente o momento em que a distância “abre” e o rival perde o ângulo.

Controle de jaula e o “gancho” que vem do trabalho de Eric Nicksick

Um fator que ganhou peso na trajetória recente do desafiante é a forma como Strickland tem conseguido administrar o espaço dentro da cerca. Desde a parceria com Eric Nicksick, ligado ao time da Xtreme Couture, o americano passou a controlar melhor a jaula — e isso ajudou a transformar o que parecia improvável em um dos maiores choques de 2023, quando conquistou o cinturão ao derrotar Israel Adesanya.

Mesmo com essa evolução, o desafio segue claro: para manter a iniciativa no combate e evitar que Chimaev imponha o fluxo desejado, Strickland precisa respeitar as ameaças de mudança de nível que vêm do grappling do checheno.

O jogo de quedas é a chave: wrestling como prioridade para os dois

Independentemente do quanto o duelo possa parecer decidido pelo trocação em alguns trechos, a essência do confronto continua sendo o controle das tentativas de queda e do ritmo do grappling. Por isso, vencer a disputa no wrestling deve ser prioridade tanto para Chimaev quanto para Strickland neste fim de semana.

Chimaev treina luta desde os cinco anos de idade e, pelo que vem demonstrando, adaptou o grappling como se fosse algo natural. Do jeito rápido de iniciar as entradas até a capacidade de trabalhar no clinch, o cartel de lutas profissionais já mostra que ele tem um arsenal completo dentro da lógica do wrestling.

Embora ele apresente movimentos que lembram bastante estilos de luta livre (e até elementos associados ao trabalho greco), o checheno também demonstra transições e controles de posição que costumam ser mais familiares a atletas que cresceram no estilo “folkstyle” americano. Em sua luta contra Li Jingliang no UFC 267, por exemplo, Chimaev aproveitou uma oportunidade para tomar as costas e fechou o combate com uma finalização por mata-leão com as mãos por trás, mostrando competência real também no jiu-jitsu.

O “spin cycle” e os punhos que viram acesso às finalizações

Na visão apresentada, Chimaev vem aprimorando de forma contínua um dos ciclos de ataque com rotação mais difíceis de neutralizar que já apareceu dentro de jaulas, quando o assunto é grappling. Ele prefere trabalhar o controle prendendo a região do quadril por trás (rear-waist), mantendo uma base forte, porém flexível, para ameaçar desde quedas do tipo trip até variações de controle de pernas em estilo de wrestling.

Quando o adversário tenta impedir o trabalho com as próprias mãos, costuma dar ao checheno acesso para criar posições com base em pegadas — incluindo entradas que alimentam trocas de punho e “ciclos” de controle que, em linguagem de bastidores, são comparados a “handcuffs” inspiradas na escola do Daguestão. Com isso, Chimaev consegue avançar na posição e, ao mesmo tempo, abrir janelas para golpes no ground and pound.

Mesmo assim, a análise ressalta que Chimaev não pode subestimar Strickland. Afinal, ainda que Kamaru Usman tenha conseguido dominar boa parte do confronto contra o americano em uma decisão anos atrás, desde que Strickland chegou ao UFC ele vem construindo respostas importantes também quando o assunto é lutar por baixo e disputar transições.

Strickland também muda nível e se defende para voltar de pé

No ataque, Strickland mostra que sabe executar duplas que mudam nível quando precisa, além de usar variações defensivas/ofensivas a partir do bloqueio de tronco (body lock) para ganhar ângulo e mirar as costas do oponente. Esse é um sinal relevante, especialmente considerando o histórico de lesões importantes do americano em anos anteriores, quando sofreu um acidente de moto que deixou marcas no caminho.

Defensivamente, Strickland tem feito um bom trabalho separando as pegadas do rival e também usando o sprawl para cortar tentativas de queda. E, quando os adversários conseguem derrubar o campeão, ele tenta reagrupar rápido: a postura de base em “tripé” (tripod) ajuda a voltar para uma posição mais alta, trabalhando a retomada de base ao ficar perto da cerca.

Ainda assim, o aviso é direto: Strickland não pode relaxar no cuidado com a cabeça e com a busca por separação nas transições, principalmente porque Chimaev tem um jogo de rotação e controle que tende a “grudar” o quadril do adversário e dificultar a vida de quem tenta se soltar.

Odds apontam favoritismo grande para Chimaev

Nas casas de aposta, o cenário é de ampla vantagem ao campeão. Os números colocam Chimaev como favorito na faixa de -560, enquanto Strickland aparece com +370.

O favoritismo pesado faz sentido dentro do contexto do UFC: desde que Chimaev entrou na cena do octógono, a expectativa ao redor do lutador cresceu rapidamente, o que contribuiu para que ele fosse tratado como candidato ainda mais forte do que um ex-campeão no papel. Ainda que a imagem do campeão esteja “inflacionada” por toda a propaganda em torno do desempenho recente, a avaliação é que Chimaev é um talento feroz e, além disso, que vem sendo visto como um dos lutadores mais perigosos no primeiro round desde a fase de BJ Penn.

Também pesaria o fato de que ele teria direcionado foco especial em condicionamento nos últimos acampamentos. A leitura é que, se conseguir administrar o ritmo por todos os cinco rounds, Chimaev pode virar um problema real para Strickland ao longo do tempo.

Por que Strickland pode lutar mais do que o placar de apostas sugere

Ainda assim, a aposta indicada aponta para um cenário mais equilibrado do que a diferença nas odds sugere. O argumento é que Strickland tem ao seu lado um dos planejadores de jogo mais fortes do esporte e um corner com Eric Nicksick, além de stamina e habilidade que dificultam o controle do campeão conforme a luta se aproxima do fim.

Se Strickland conseguir fazer Chimaev trabalhar bastante nos primeiros rounds, sem ser apanhado por uma finalização ou nocaute, a tendência é que o americano ganhe espaço para transformar vantagens no papel em vantagem real conforme o combate avançar.

Mesmo assim, o texto destaca um ponto decisivo para o planejamento: será importante observar quais mudanças táticas o time de Strickland vai tentar para impedir parte das condições que costumam levar Chimaev à vitória quando a luta fica mais “fechada” nos trechos curtos.

Há também uma leitura específica sobre transições: mesmo que Strickland tenha mais wrestling e grappling do que muitos imaginam, o hábito de “tripodar” e “tartarugar” nas transições pode abrir caminho para o ciclo de rotação de Chimaev, justamente pelo tipo de acesso que o checheno consegue obter para atacar o quadril quando trabalha a partir do controle rear-waist.

“Eu vou ficar com o Chimaev” — a previsão para a disputa do cinturão

Com a postura de torcedor e, ao mesmo tempo, tentando manter uma análise “profissional”, a previsão apresentada termina com uma escolha clara: o palpite é de que Chimaev consiga vencer nos critérios dos juízes em uma luta que, apesar do favoritismo, deve ser mais disputada do que muita gente imagina.

Previsão: Chimaev por decisão

Como luta principal de um card pelo cinturão, Chimaev e Strickland devem entrar no octógono por volta das 23h15 (horário de Brasília), com transmissão pelo Paramount+.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.