Não é todo dia que um lutador do UFC passa a ameaçar publicamente outro adversário de dentro do octógono — e, horas antes do UFC 328, a rivalidade entre Khamzat Chimaev e Sean Strickland ganhou um tom ainda mais perigoso. Enquanto o confronto principal se aproxima, a troca de provocações e o clima de confronto fora do esporte só aumentam, transformando um duelo que já prometia chamar atenção por conta do contraste de estilos em uma espécie de “guerra particular” em escala inédita. Antes de os meio-médios (middleweight) colocarem em jogo qualquer cinturão e a luta de fato começar, vale organizar a linha do tempo e entender como essa briga começou e por que ela escalou tanto.
Como a rivalidade começou e por que virou assunto fora do octógono
Em 2022, Khamzat Chimaev e Darren Till estiveram em Las Vegas para treinar no Xtreme Couture, academia ligada a Sean Strickland. Na época, Chimaev ainda era um nome forte na categoria de meio-médio (welterweight) e se preparava para enfrentar Nate Diaz no UFC 279. Mesmo atuando em divisões diferentes, os dois acabaram treinando juntos e, pelo menos no primeiro momento, a convivência parecia até tranquila, com Strickland deixando um recado direto para o rival: a ideia era manter a postura e evitar machucar os parceiros de treino, mesmo com toda a confiança que ele demonstrava ter.
O que aconteceu depois virou combustível para discussão por anos. Até hoje, a narrativa sobre quem “levou a melhor” nas sessões de sparring daquele período segue dividida. Chimaev afirmou que teve vantagem, citando que teria sido visto dominando o treino e até realizando ações de finalização durante a prática. Em julho de 2024, ele voltou ao assunto dizendo que teria sido registrado, com testemunhas presentes, que ele estaria sufocando o rival e impondo controle. Segundo o ucraniano, aquilo deixaria “negócio pendente” para ser resolvido de forma definitiva dentro do octógono.
Quando a rivalidade passou a ganhar força real no cenário do cinturão, o contexto mudou. No fim de 2023, Strickland já era campeão do UFC, enquanto Chimaev e Dricus du Plessis miravam uma chance pelo título dos meio-médios. No UFC 294, Chimaev venceu Kamaru Usman por decisão majoritária em um duelo considerado um dos mais difíceis da carreira, e o resultado abriu espaço para a conversa sobre a legitimidade de uma disputa por cinturão. Strickland, no entanto, não gostou da leitura e criticou a lógica de que o sucesso de Chimaev no meio-médio deveria automaticamente equivaler a uma chance imediata no peso seguinte, apontando que, aos olhos dele, o rival “vende luta”, mas não teria conquistado tudo o que seria necessário para merecer o momento.
Pouco depois, a organização também seguiu em outra direção: um mês após essa discussão, Chimaev ficou de fora da disputa e du Plessis acabou recebendo o caminho até o UFC 297. A partir daí, a tensão entre as partes foi ficando mais visível, e as histórias de treino continuaram aparecendo como pano de fundo do que virou uma disputa pessoal.
De provocações nas redes a ameaças e violência fora do octógono
O estopim para o clima “pessoal” mais pesado ganhou tração quando as versões sobre o sparring começaram a circular com força. No início, surgiram rumores de que o lutador “Borz” teria dominado um dos principais concorrentes na época, no treino de 2022. A versão foi contestada pelo staff e também por Strickland, que disse ter conseguido a melhor parte nas sessões. Sem vídeo liberado naquele momento, os dois continuaram sustentando publicamente que eram superiores durante o treinamento — e o tema permaneceu como marca registrada da rivalidade.
Antes da revanche entre du Plessis e Strickland no UFC 312, a briga entre Strickland e Chimaev finalmente acelerou para um nível mais ofensivo. Nas redes sociais, Chimaev passou a cutucar Strickland por causa do lado emocional do campeão em uma aparição no podcast de Theo Von, onde Strickland teria comentado sobre uma criação marcada por abuso. A provocação de Chimaev veio acompanhada de uma imagem antiga do rival com o pai, com questionamentos sobre “chorar” o tempo todo e sobre como a família teria se comportado. A resposta de Strickland foi imediata e igualmente agressiva: ele atacou um documento recente ligado a Chimaev, além de mencionar a relação do rival com Ramzan Kadyrov, líder checheno associado a um cenário de repressão e poder armado.
Strickland seguiu defendendo a própria história, admitindo que o pai teria, em algum momento, agido com violência de forma pontual, mas deixando claro que, no entendimento dele, a comparação não faria sentido. Ao mesmo tempo, ele acusou Chimaev de depender demais desse tipo de ligação política para se proteger e ganhar vantagens, e ainda sugeriu que o rival teria sido forçado a deixar o país por conta do que teria se envolvido. O embate não ficou só no campo das palavras: Strickland voltou a rebater Chimaev no mesmo eixo temático envolvendo o pai abusivo e, do outro lado, Chimaev também retomou a narrativa sobre o pai do adversário, reforçando que existem dois motores principais por trás do conflito — a história do sparring e as acusações pessoais envolvendo Kadyrov e a criação de Strickland.
Em fevereiro de 2026, já com o cinturão como ponto de discussão, Strickland voltou a atacar Chimaev. Ele criticou a forma como o rival teria tratado o dever de defender o cinturão após a vitória de agosto de 2025 sobre du Plessis, e voltou a usar Kadyrov como argumento central para dizer que Chimaev teria motivação limitada para correr atrás de lutas frequentes. Na visão do campeão, o “Borz” não precisaria se desgastar no esporte por conta do apoio financeiro vindo de um ditador — e, por isso, a situação seria diferente de como o jogo deveria funcionar. Strickland ainda citou que a organização teria tentado emparelhar Chimaev com Nassourdine Imavov, mas que o rival teria recusado, o que, para o americano, mostraria que o caminho escolhido não respeita o ritmo competitivo que o esporte exige.
Um mês depois, a novela ganhou fim no calendário: Khamzat Chimaev e Sean Strickland tiveram a luta oficializada para o UFC 328.
Com o confronto marcado, a preocupação passou a ser ainda maior: a violência teria começado a sair do octógono e invadir o comportamento fora das arenas. O próprio CEO do UFC, Dana White, admitiu que era necessário reforçar a segurança para manter os dois separados e garantir que a luta acontecesse dentro do planejado. Ainda assim, Strickland não recuou no tom. Quando esteve na mesma região da Califórnia que o campeão, ele deixou a localização pública e chegou a convidar para uma briga de rua.
Chimaev respondeu apontando que Strickland estaria sozinho e vulnerável a ser atacado por uma comitiva grande, sugerindo que o rival poderia ser “pulado”. Strickland, então, respondeu de forma direta e ameaçadora: disse que tiraria uma arma do próprio sapato. Ele ainda acrescentou que, se Chimaev fosse até ele “como um homem” para discutir acusações contra o pai e Ramzan Kadyrov, o caminho seria resolver pessoalmente, mas deixou outra condição mais ameaçadora: caso Chimaev surgisse acompanhado por três homens chechenos que não falassem inglês, Strickland afirmou que atiraria em “cada um” deles.
Até o momento, nenhuma ocorrência com disparos foi registrada. No UFC 328, entretanto, o incidente mais próximo do “evento” na prática já aconteceu no ambiente de divulgação: durante a coletiva pré-luta, Chimaev conseguiu desferir um chute na região genital de Strickland, e, do ponto de vista de agressões antes da hora, esse foi o limite do que se viu no evento. Para qualquer desdobramento físico além disso, a expectativa agora é que a decisão seja tomada dentro do octógono — com o main event começando nesta noite.

