O técnico Sean Madden e o editor E. Spencer Kyte construíram uma leitura bem direta do duelo pelo título dos meio-médios do UFC 328: Khamzat Chimaev tende a impor seu ritmo e buscar quedas cedo, enquanto Sean Strickland precisa manter a luta em pé, sobreviver ao início e, principalmente, colocar resistência no wrestling do campeão para abrir espaço no decorrer dos rounds. A conversa também girou em torno de “camadas” — como controle de tempo, defesa na grade, gestão emocional e o que acontece quando o gás começa a pesar em uma luta que pode ir até cinco rounds.
Ritmo, controle do tempo e o que isso muda no caminho do cinturão
Madden destacou que o diferencial do campeão passa pelo ritmo: a pressão e a cadência de Chimaev são apontadas como as mais agressivas do elenco do UFC. Ele observou que, mesmo com a luta contra Dricus du Plessis tendo ido aos cinco rounds, o cenário não foi visto como competitivo — o que, na visão do treinador, reforça a capacidade de manter um fluxo constante de trabalho e ditar o local da ação quase o tempo inteiro. Além disso, ele citou uma impressão pessoal de bastidores em 2022, na Suécia, quando Chimaev treinava com Bojan Velickovic: o nível de entrega e a disposição para trabalhar foram descritos como algo “surpreendente”, ainda que isso tenha trazido consequências físicas ao longo do tempo, como doenças e lesões.
Kyte concordou com a ênfase no ritmo, comparando o tipo de desgaste criado por Chimaev com a dinâmica associada a Merab Dvalishvili. A leitura apresentada foi que, toda vez que o adversário pensa ter uma chance de respirar, a pressão volta imediatamente — uma forma de “afogar” o oponente no próprio trabalho. No entendimento do comentarista, não se trata apenas de tentar derrubar e controlar, mas de manter o adversário no limite e continuar repetindo o mesmo tipo de ofensiva, inclusive no chão, enquanto for possível.
O ponto de virada do confronto, porém, está em quem consegue controlar o tempo do combate. Madden explicou que, na prática, lutar é administrar a velocidade: se um lutador prefere um ritmo mais lento e é forçado a acelerar, isso tende a gerar desorganização e falta de disciplina; se a situação for inversa, o cenário também se inverte. Por isso, a pergunta central seria quem dita o compasso do duelo. Na avaliação dele, isso pende ao campeão, mas ele lembrou que Strickland também tem meios de desacelerar a luta com o modo como impõe os momentos de ação — alternando fases em que “vai para cima” e outras em que reduz a intensidade ao máximo.
Adaptação de gears, resistência e a rota mais provável para vencer
Madden ampliou o raciocínio ao afirmar que Strickland é capaz de mudar de marcha com mais frequência do que se espera de Chimaev, que tende a estar em “modo constante”. Ele mencionou que, em alguns combates do campeão, o esforço ao longo do tempo pode ter sido um problema no fim das lutas, justamente por causa do ritmo sem interrupções. Em contrapartida, Strickland, segundo o treinador, acumula experiência suficiente para alternar do “segundo” ao “quinto” nível e voltar, mantendo a capacidade de ligar o turbo quando deseja.
Kyte acrescentou um detalhe que, na visão dele, costuma passar despercebido por quem vê apenas lutas longas: apesar do estilo de “meio-termo” por bastante tempo, Strickland tem um “quinto gear” quando percebe a abertura. Ele citou o exemplo da luta mais recente contra Anthony Hernandez (“Fluffy”), dizendo que o plano funcionou até o momento em que o adversário foi ferido; aí, a aceleração ocorreu e o resultado final veio. A tese defendida foi que, por ter repetidamente encontrado maneiras de vencer em lutas de atrito (o que ele descreveu como “morte por mil cortes”), o lutador consegue transformar dano em finalização quando a janela aparece — mesmo sem ser enquadrado como alguém que “sempre tem potência” como narrativa principal.
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Na leitura de Kyte, o Strickland consegue manter-se competitivo por longos minutos e, quando identifica um momento decisivo, aumenta a intensidade e fecha a luta.
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Na leitura de Madden, o ponto-chave do duelo é se Strickland consegue desacelerar, sobreviver ao início e abrir espaço para o próprio jogo, especialmente em uma luta que pode durar cinco rounds.
Na sequência, os dois alinharam a rota de vitória como algo relativamente claro em termos de estratégia: um lado tentando levar a luta ao chão e controlar na grade inferior, enquanto o outro precisa manter a distância, o espaço e o combate em pé pelo maior tempo possível. Madden detalhou que Chimaev deve testar o wrestling cedo, assim como faz com praticamente todos os oponentes, e que ele costuma olhar mais para suas próprias forças do que para o que o rival pode oferecer, justamente por acreditar que consegue funcionar contra estilos diferentes. Kyte reforçou que o campeão é muito rápido na primeira tentativa de queda.
Madden apontou que Strickland precisa, ao mesmo tempo, resistir às investidas iniciais e garantir que está preparado para diferentes leituras: “sobreviver” pode significar defender golpes, evitar finalização nas primeiras fases ou, ainda, simplesmente não ser finalizado nos dois primeiros rounds. Ele também lembrou que Chimaev pode sofrer queda de intensidade no fim, citando a luta contra du Plessis como referência para um “desacelerar” parcial. Ainda assim, o treinador alertou para o componente mental: Strickland terá de manter a compostura e a crença na vitória mesmo se estiver perdendo rounds antes do quinto.
Defesa no wrestling, trabalho na grade e o x-factor mental
Kyte retomou os elementos técnicos que, na visão da conversa, definem as chances de Strickland: ele precisaria atacar pelo meio, fazer Chimaev aceitar golpes que ele não está pronto para receber e explorar brechas que podem ser entendidas na filmagem. Madden citou a vantagem de planejamento por treinadores que já trabalharam juntos e que conhecem rotinas em comum, ao mesmo tempo em que lembrou que Chimaev tem como padrão buscar quedas e “tentar resolver” por wrestling.
Kyte ainda observou um comportamento que pode ser perigoso: o campeão, em algumas situações, pode tentar derrubar de longe e se posicionar com a base no chão (como se “desse um passo a mais” no movimento), algo que, na leitura dele, é justamente o tipo de detalhe que um adversário preparado pode mirar. Madden completou que du Plessis não teve uma primeira linha de defesa consistente para boa parte das tentativas de queda, mas Strickland, na visão do treinador, deve ter ao menos esse primeiro nível de contenção. Se o desafiante conseguir empurrar Chimaev para níveis mais complexos do jogo de wrestling — camadas dois e três — o combate fica mais interessante.
Kyte descreveu isso como uma questão de encaixe inicial: conseguir “o underhook” logo no começo e ajustar quadris para fazer o campeão trabalhar um pouco a mais em cada tentativa pode ser um ganho relevante. Madden, por sua vez, foi direto: não pode permitir que Chimaev consiga o primeiro encaixe com facilidade.
Quando o assunto virou o planejamento de corner, Madden sugeriu que, se estivesse orientando Strickland, a recomendação seria tentar empurrar o campeão para trás com a movimentação e com a leitura do espaço. Ele argumentou que, apesar do jab e do bom deslocamento, Chimaev tende a ficar se movendo para o fundo em direção à cerca e, ao tocar aquela linha “preta” do limite do octógono, a tendência é que as tentativas de queda comecem. Por isso, a “consciência” espacial seria crucial.
O treinador também gostou dos joelhos e dos chutes de impulso (push kicks) de Strickland, além da capacidade de simular e enganar para fazer Chimaev reagir. Ele citou novamente a luta contra Hernandez, destacando que o joelho no terceiro round foi visto como o início do fim. Ainda assim, a ressalva foi que Strickland precisa estar pronto para disputar o wrestling logo após acertar uma sequência, porque Chimaev costuma insistir e “passar por cima” do que for necessário, mesmo quando o golpe conecta.
Kyte entrou com um ponto sobre o tipo de wrestling: ele disse que Chimaev é excelente, mas não necessariamente um wrestler “tecnicamente limpo” em todos os detalhes, usando parte da força e do atletismo para alcançar as posições que quer. Na opinião dele, se Strickland conseguir forçar o campeão a percorrer níveis mais avançados do wrestling, neutralizando parte da força bruta, as chances do desafiante aumentam.
Na avaliação seguinte, Madden sugeriu que Strickland é um adversário “estranho” (no bom sentido) para testar esse caminho justamente porque é grande e forte, o que faz com que o plano de treino seja decisivo. Ele reforçou que o treinador Eric Nicksick teria estudado cenários e montado um plano parecido com o que ocorreu em um combate anterior de Strickland contra Israel Adesanya, em que a equipe teria antecipado caminhos e ajustado durante o combate.
Kyte então perguntou pelo x-factor. Madden explicou que gosta de olhar além do combate em si, acreditando que treinamento não é luta, mas que dá para enxergar detalhes: pequenas tendências, rachaduras de comportamento, gestão emocional no tapete e como os atletas lidam com frustrações. Kyte mostrou o que mais o interessa mentalmente: o desafio de Strickland em entrevistas e na preparação, falando que entra para escolher o oponente que ele consegue “pressionar”, e não aquele que dá os rounds mais difíceis — tudo isso enquanto ele se treina com Alex Pereira (“Poatan”) e se coloca sob exigência constante.
Madden respondeu que isso pode ser relevante para confiança, mas que, no nível do título, é perigoso ter muitos rounds “fáceis” e poucos “duros”. Ele afirmou que, ao conhecer o trabalho que Chimaev fez no ginásio ao treinar juntos, Strickland pode extrair vantagem psicológica ao saber que tipo de rotina o campeão sustentou e com quem ele trabalhou. A conclusão foi: mesmo que treinamento não seja luta, as experiências podem oferecer leitura e controle de variáveis no sábado.
Kyte ainda ampliou uma hipótese emocional: ele quer ver se o trash talk e a postura de “cutucar o urso” de Strickland podem tirar Chimaev do eixo — um paralelo foi feito com o “Efeito Jose Aldo” em uma referência ao que acontece quando o rival se desorganiza por estar tomado por raiva e por sair de seus padrões naturais. Kyte argumentou que o Strickland falava sobre Chimaev antes mesmo do confronto estar fechado.
Madden concordou com a preocupação e lembrado que Chimaev já demonstrou emoção em lutas, o que pode virar faca de dois gumes, especialmente em um combate de cinco rounds, em que a questão de administrar gás e controlar emoções pesa tanto quanto o físico.
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Kyte apontou o risco de, mesmo com bons dois primeiros rounds, o atleta gastar demais no início e sentir o corpo pesar quando ainda restam três lutas de fôlego.
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Madden disse que Chimaev tem melhorado nesse aspecto nas lutas mais recentes, citando que o trabalho de Strickland também inclui equipes e métodos que ajudam na gestão ao longo do tempo.
Curiosidades para a luta: wrestling no limite e evolução no chão/ataque
Kyte e Madden seguiram para os pontos de curiosidade. Madden disse que, para ele, tudo passa por se Strickland terá respostas para as camadas iniciais do wrestling de Chimaev — primeira e segunda ofensiva. Ele acredita que, se o desafiante conseguir usar a cerca para defesa e para voltar ao posicionamento adequado, o combate pode mudar de figura. Na visão do treinador, isso não é garantia de vantagem automática para Strickland, mas abre possibilidades reais.
Kyte resumiu como “reduzir a diferença”. Madden complementou com um cenário específico: se Chimaev conseguir derrubar no meio do octógono, isso torna tudo muito mais difícil para Strickland, especialmente porque a pressão do campeão no topo é considerada forte demais.
Kyte também organizou a leitura de jiu-jitsu: ele afirmou que Strickland não é um lutador que costuma buscar varreduras a partir de baixo e que seu trabalho é mais focado no topo, controlando e chegando a posições quando precisa — com pouca intenção de usar o jogo de baixo como principal. Madden reforçou que a grade será uma peça-chave, e disse que, como treinador de trocação, vai observar como Strickland vai apresentar seu ataque a Chimaev: se vai usar as pernas, se vai chutar em volume ou se vai preferir estruturas como joelhos pelo centro e chutes do tipo teep (empurrão) também direcionados ao meio.
Madden elogiou a forma como Strickland entrega esses teeps: ele não “compromete” os quadris do jeito que facilitaria a leitura de Chimaev, ao passo que, ao “fletar” e enganar, torna mais difícil capturar o timing. Ele acrescentou que, ao acertar pelo centro, Strickland pode levantar a perna depois de uma sequência, simular e provocar reações — e isso se conecta diretamente com a seleção de golpes, que, no caso, deveria ser desenhada para colocar Chimaev em situações que ele não esteja tão preparado para lidar.
Do lado do campeão, Madden trouxe as dúvidas: Chimaev terá gás total para cinco rounds? Ele vai correr riscos? Se as quedas forem negadas, como ele responde? Mesmo assim, ele acredita que a trocação do campeão vem evoluindo: algumas leituras e ofensivas geradas a partir da postura aberta foram descritas como mais “educadas”, com melhorias no jogo em pé. Se o wrestling for barrado, Madden gostaria de ver ajustes na luta de trocação e a evolução de Chimaev como um todo — admitindo que não sabe se isso acontece já no sábado, mas dizendo que depende do que Strickland oferecer.
Kyte voltou ao componente mental: como Chimaev se comporta se Strickland apresentar boa defesa e boa gestão de risco? Se o desafiante conseguir fazer o campeão trabalhar, empurrar pressão e manter o esforço alto, como isso altera o pensamento do campeão? A pergunta final foi: isso faria Chimaev se arriscar mais e tentar bater mais no chão e no pé, ou manter o plano original?
Kyte trouxe ainda uma lembrança do comportamento recente: Strickland estava bem alinhado para o duelo contra Hernandez, mas isso veio após um momento de “desconexão” no combate contra du Plessis no UFC 312. Ele relembrou um trecho específico dessa luta: Chimaev teria derrubado Robert Whittaker nos primeiros 30 segundos, e o adversário não conseguiu voltar para o espaço de forma efetiva — Chimaev teria se mantido no controle na cintura e “esmagado” a região do maxilar. A implicação foi psicológica: se um cenário assim acontecer cedo, o lutador “desliga” ou tenta reagir? Kyte disse que dá para perceber no canto: apesar do caminhar constante, há um momento em que fica claro quando o atleta está investido e quando está desconectado.
Madden concordou dizendo que isso aparece no olhar. Kyte foi enfático: não é um cenário contra o qual um atleta queira “desligar” em uma luta de título. Ele afirmou que, se o lutador entra em outra disputa e se desconecta, a recuperação é difícil — e que, no caso, Chimaev conseguiu transformar o que precisava para virar o protagonista do cenário, mas agora Strickland é o teste. Kyte reconheceu que o impacto da luta contra du Plessis pode ter afetado Chimaev, porém lembrou que, apesar do discurso e do desempenho forte contra Hernandez, o campeão ainda precisa provar dentro do octógono.
Madden concluiu que isso tende a ser difícil.
O que decidirá o quinto round: pressão, desgaste e “o começo do fim”
Kyte também ressaltou o tamanho da tarefa: para lutar uma luta desse nível, é preciso estar travado por 25 minutos (na prática, de acordo com o limite de rounds do título). Ele citou a orientação repetida por Nicksick: Strickland teria sido instruído a lutar mais do que o primeiro impulso, “por alguns segundos a mais” do que acha necessário, porque o campeão continua vindo. O desafio é que quem quer ficar na trocação precisa administrar o próprio corpo para não se desligar e não cair na mesma inércia.
Na sequência, Kyte se perguntou por que du Plessis ainda não retornou desde o combate em que teria sido batido até o limite. A conclusão foi: agora é a vez de Strickland, com um desafio parecido — mas em um novo contexto.
Madden respondeu que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao campeão: se Strickland fizer Chimaev trabalhar, mesmo que não vença os primeiros dois rounds, pode ser o suficiente para forçar um terceiro round diferente. A pergunta prática vira “que Chimaev aparece quando está cansado, cortado e machucado?”.
Kyte fechou a análise com a ideia de que, embora o caminho tático pareça simples — um lado tentando controlar e levar para baixo, o outro tentando manter em pé e sobreviver — a execução é o que separa sucesso de frustração. A frase que abre a conversa foi retomada como síntese: “é simples, mas não é fácil”. Madden finalizou dizendo que a resposta virá no sábado.
UFC 328 (conforme mencionado na matéria fonte): Chimaev vs. du Plessis aparece como “luta grátis”, assim como Strickland vs. Hernandez.

