Cody Haddon fala sobre lesões, incerteza e mira retorno ao octógono

Em novembro, Cody Haddon estava ansioso para enfim voltar ao octógono. Ele ficou fora por tempo considerável após ter conquistado, em sua estreia na franquia, uma vitória por decisão unânime sobre Dan Argueta, sete semanas depois de garantir uma vaga no elenco do UFC ao vencer por paralisação no primeiro round na segunda semana da 8ª temporada do programa de Dana White’s Contender Series.

Uma fratura no pé, contraída durante treinamentos, o tirou de um duelo previamente marcado contra Aleksandre Topuria no UFC 312, em Sydney. Depois de uma recuperação longa e de um ano frustrante longe da ação, Haddon foi escalado para retornar no UFC 322, em um confronto muito aguardado contra Malcolm Wellmaker, nome em ascensão na divisão. A luta aconteceria no Madison Square Garden, em Nova York. Quatro dias antes do combate, porém, um novo problema interrompeu seus planos.

O problema que tirou Haddon do UFC 322

Em relato sobre o ocorrido no treino, Haddon explicou que, ao se movimentar, acabou chutando e, ao recuar, o pé “desabou”. Ele afirmou que não parecia um golpe com força extrema, comparando o movimento ao padrão de um jogador de tênis treinando o saque.

Segundo o lutador, ele precisou avisar rapidamente pessoas ligadas ao desempenho e à estrutura do time porque a situação chegou a ponto de impedir até que ele se locomovesse. Ainda assim, Haddon disse que queria tentar até o último momento: pretendia cortar peso e manter a esperança de que, ao acordar no fim de semana, conseguisse ao menos caminhar. A ideia era simples: se desse para se mover, daria para lutar.

Na noite de terça-feira, após avaliação de médicos do UFC, a condição foi determinante. Haddon relatou que reagiu com bastante incômodo quando qualquer pressão mínima era aplicada ao pé. Ao ir para a cama naquela mesma noite, a orientação parecia objetiva: se ao acordar a dor e a limitação permanecessem, ele seria retirado do card.

No dia seguinte, o quadro era o mesmo, e a organização precisou tirá-lo do combate. Ethyn Ewing entrou no lugar e, apesar da substituição, seguiu em frente e acabou surpreendendo Wellmaker, ganhando atenção imediata do público do UFC. Sem luta em Nova York e ainda forçado a perder a segunda apresentação consecutiva, o prospect de 27 anos, natural de Perth, ficou abalado.

Haddon descreveu que, a partir daquele momento, os pensamentos passam a surgir em cascata. Ele disse que o sentimento mais forte envolvia culpa, vergonha e a sensação de ter decepcionado outras pessoas e a si mesmo, ainda que o que aconteceu estivesse fora do controle dele.

O lutador também comentou o medo de ser descartado pela organização. Ele revelou que, ao ser retirado novamente, imaginou o que fariam a partir dali, especialmente porque queria lutar em Perth e não parecia haver retorno sobre o que viria em seguida. Na fala, Haddon destacou o quanto a carreira ficaria ameaçada: se não fosse possível competir, ele acreditava que esse seria o fim do caminho dentro do UFC. Ele ainda ressaltou o tempo e o esforço de 21 anos de preparação até chegar ali, e como é difícil voltar após um tropeço desse tipo.

Para os fãs, esse é um lado pouco visto. Existe uma distância grande entre a torcida e o que acontece nos bastidores quando um atleta, desde muito jovem, persegue o sonho de competir no UFC — e, mesmo assim, vê o próprio corpo continuar falhando, como se a realização do objetivo pudesse nunca acontecer.

Enquanto manchetes costumam focar em provocações, opiniões e discussões dos mais variados temas, muitos atletas passam por longos períodos longe das lutas. Eles tentam retornar ao octógono, sem clareza sobre o próximo passo caso precisem desistir de novo ou não consigam manter a saúde em dia. A maioria evita falar sobre o medo que cresce a cada semana de recuperação e tentativa de reencontrar o ritmo.

O modo como Haddon lidou com a situação, reconhecendo vergonha, culpa e preocupação que surgiram em novembro e persistiram até o compromisso ser finalmente marcado, foi visto por ele mesmo como um sinal de força. A postura, segundo a própria narrativa, mostra um caminho diferente daquele seguido por quem prefere esconder sentimentos.

O impacto emocional e o medo do “plano B”

Mesmo com os contratempos, Haddon afirmou que ficar impossibilitado de competir foi algo “muito difícil”, e explicou que, caso não voltassem a encaixar um combate, ele começaria a pensar no que aconteceria se o UFC encerrasse a parceria. Ele chegou a citar que, nesse cenário, cogitaria seguir para o serviço militar como única alternativa que enxergava como compatível com a própria vida.

O lutador também declarou que não tinha uma formação educacional e não possuía um “amparo” caso o caminho no esporte não desse certo. Apesar de dizer que é um treinador razoável, Haddon afirmou que não quer se tornar, aos 27 anos, um ex-atleta virando professor apenas por falta de opção. Ele pontuou que não deseja ser empurrado para uma fase que não corresponda ao que realmente quer.

Dentro de tudo isso, Haddon sustentou que a chance de voltar ao octógono existe por causa do que a organização enxergou nele: as habilidades demonstradas antes do contrato, a performance na estreia que garantiu a vaga e a vitória sobre Argueta para assegurar o primeiro triunfo no UFC. Para ele, o potencial segue preservado e a projeção de evolução continua válida.

Preparação para o duelo e confiança no que vem do camp

Quando a conversa migrou para o combate e para o que seria necessário apresentar no evento do fim de semana, Haddon falou sobre o adversário Aoriqileng. Ele afirmou que o rival é combativo e difícil de derrubar, destacando que, embora o atleta tenha um histórico de 4-4 dentro do UFC, as derrotas foram para nomes que ele considera do topo do esporte.

Na avaliação de Haddon, o mau desempenho do rival está associado a quem enfrentou. Ele citou que Aoriqileng sofreu derrotas para Aiemann Zahabi e Raul Rosas, ambos ranqueados, como um indicativo do nível técnico do conjunto do oponente.

Haddon também projetou como gostaria de que seu retorno fosse interpretado. Ele disse que, se vencer e finalizar o adversário, no dia seguinte as pessoas passariam a se perguntar quem é aquele lutador — como se fosse a apresentação de um novo nome para o público.

Além do próprio momento, Haddon acredita que o ambiente do time pode ajudar a transformar a oportunidade em resultados. Ele reagiu com entusiasmo ao mencionar Quillan Salkilld, apontando que a evolução do companheiro dentro do mesmo contexto de treino tende a alimentar a confiança sobre o trabalho do dia a dia.

Haddon citou que Salkilld acumulou cinco lutas no UFC em 16 meses, com cinco vitórias, quatro bônus, e que os resultados foram acompanhados de atuações dominantes. Ele reforçou que ambos treinam juntos há anos, descrevendo que no ginásio um incentiva o outro, elevando o nível por confronto e pressão constante. Para o lutador, o padrão do camp é alto, e Quillan seria reflexo disso. Quando chegar a hora dele, a tendência seria a mesma performance.

Ele ainda acrescentou que, mesmo com divisões diferentes, a base do que importa são as habilidades. Para Haddon, o ponto é estar saudável e ganhar ritmo. A meta passa por entrar no octógono com momentum para manter a sequência.

O que Haddon espera ao pisar novamente no octógono

Com a oportunidade para retomar a trajetória a poucos dias, Haddon descreveu como imagina o retorno. Ele disse que sente algo especial ao pensar na entrada no octógono: perceber a cerca, caminhar ao redor, enxergar logos, luzes, o adversário, o árbitro e a torcida. Para ele, tudo isso funciona como lembrete de que aquele é o lugar para onde ele foi feito.

Haddon reforçou que quer um ano cheio, com lutas acontecendo em sequência, para mostrar o que é capaz. Ele considera que existe espaço para muita gente boa e acredita que o cenário dele pode ser real. Na visão do lutador, ele tem as ferramentas e a plataforma; basta atravessar a barreira e entrar no octógono. A partir disso, o restante se desenrolaria diante dele.

No sábado em Macau, Cody Haddon terá a chance de cruzar esse limiar pela segunda vez — e a expectativa é que, enfim, os dias longos longe das lutas fiquem para trás.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.