De ring girl a estreia no UFC: Jeisla Chaves encara Yuneisy Duben no octógono

Jeisla Chaves passou de segurar cartões nas lutas para ser ela a trocar golpes dentro do octógono. Neste sábado à noite, a atleta de 29 anos faz sua estreia no UFC, quando encara Yuneisy Duben no duelo dos pesos-moscas. Natural de Poções, pequena cidade do interior da Bahia, a brasileira construiu uma trajetória improvável: saiu do sonho de lecionar Geografia para viver do esporte que transformou sua rotina — e agora está a poucos instantes de caminhar para o combate como profissional na organização.

De Poções ao sonho de sala de aula

Chaves cresceu em Poções, na Bahia, e ainda na juventude estudou com o objetivo de trabalhar como professora de Geografia. Com o tempo, ela concluiu o curso e conseguiu um emprego fixo, no modelo “das nove às cinco”. Porém, um convite antigo mudaria o rumo de sua vida.

Um amigo de escola entrou em contato para perguntar se ela teria interesse em ganhar dinheiro como ring girl em um evento de Muay Thai promovido pelo preparador dele. A resposta foi positiva. Ela enxergou ali uma nova porta — e, em pouco tempo, passou a desejar mais do que apenas acompanhar as lutas de fora.

“Cartões” viraram luvas

Em entrevista, Chaves explicou que o contato inicial com o ambiente das competições foi decisivo: ao trocar os cartões de ringue por equipamentos de luta, tudo começou a mudar. Segundo ela, a transformação aconteceu quando percebeu que aquele mundo era o que realmente queria para sua vida.

O início no Muay Thai e a virada para o MMA

Logo após começar como ring girl, Chaves se apaixonou pelo Muay Thai. Ela relatou que treinava havia pouco tempo — cerca de um mês — quando seu treinador, que segue sendo a mesma pessoa até hoje e também conduz a promoção do evento onde ela trabalhava, fez uma promessa.

De acordo com a lutadora, o treinador disse que no ano seguinte ela estaria no evento com ele. A princípio, Chaves entendeu que seria novamente como ring girl. Ela concordou, imaginando que continuaria na mesma função. Quando ouviu que, na verdade, ela estaria ali como atleta, a mudança foi total. Em menos de um ano, ela fez sua primeira luta amadora de Muay Thai no mesmo evento, conquistou o título e enxergou ali o ponto sem volta: era aquilo que queria.

Com a base no Muay Thai consolidada, Chaves continuou trabalhando suas habilidades e, depois, entrou nas aulas de jiu-jitsu para avaliar uma transição para o MMA. Esse caminho finalmente aconteceu em 2023.

Riscos, renúncias e a estrada até o UFC

Chaves contou que trabalhou em eventos na sua cidade e região, e que muita gente do lugar a reconhece tanto pelo trabalho como ring girl quanto por sua atuação como lutadora. Para evoluir no esporte, ela decidiu treinar profissionalmente e abriu mão de várias coisas. Ela deixou o emprego, enfrentou conflitos familiares e passou por momentos difíceis — não porque a mãe fosse contrária, mas porque havia a preocupação de ver a filha voltar lesionada, além do fato de ela ser a única mulher treinando na academia.

Na época, Chaves trabalhava em uma fábrica de calçados. Ela recusou uma promoção porque isso significaria mudar de cidade e abandonar o local de treino. Também rejeitou uma proposta para dar aulas de Geografia em uma escola local. Ainda assim, ela não chegou a contar para a mãe sobre essas oportunidades. No fim, a lutadora afirma que tudo acabou se encaminhando da melhor forma possível, já que agora está prestes a fazer o caminho para o octógono vestindo as luvas do UFC.

Contrato no UFC e expectativa para a estreia

No mês de setembro passado, Chaves conquistou um contrato com o UFC após uma luta intensa de três rounds no Dana White’s Contender Series contra Sofia Montenegro. O combate foi sangrento e terminou com vitória por decisão dividida. Na sequência, a organização assinou as duas atletas, e a brasileira considera que agora está mais preparada para o desafio no UFC, principalmente por contar com seus treinadores originais em Las Vegas — algo que só foi possível porque os vistos deles foram negados em 2025.

A avaliação de Chaves sobre o Contender Series

Chaves disse que aquela experiência mostrou a ela que é mais forte do que imaginava. Ela ainda afirmou que acredita que, se a luta tivesse acontecido dentro do UFC, teria grande chance de render um bônus de “Fight of the Night”. Para a atleta, o combate foi exatamente do jeito que ela gosta: um duelo marcante, com troca e intensidade.

Adversária no UFC e retrospecto

Na estreia, Chaves espera reencontrar um cenário parecido no octógono. O confronto é contra Yuneisy Duben, atleta venezuelana que, assim como a brasileira, chegava ao primeiro compromisso sob a bandeira do UFC com cartel de 6-0. A diferença é que Duben, em sua luta anterior na organização, perdeu para Carli Judice por nocaute ainda no primeiro round.

Como Chaves projeta o combate

Chaves acredita que o duelo com Duben será o tipo de luta que ela gosta: muito ritmo, bastante ação, trocas constantes e com a possibilidade de sangue no combate. Ela espera que a estreia repita a energia e o estilo vistos no Contender Series.

A lutadora também comentou sobre a origem do apelido “A Braba” (em português, “valentona/assustadora”, no sentido de “badass”). Segundo ela, a identidade foi construída pelo jeito de lutar: seguir avançando e trocando golpes, inclusive com homens, atitude que ela diz ter carregado por toda a trajetória.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.