Do Tristar ao UFC Winnipeg: a jornada de 17 anos de Mandel Nallo

Fundado em 1991, o Tristar Gym atravessou o passado, o presente e segue como uma realidade viva para o futuro. O local, porém, ganhou ainda mais força depois que o treinador Firas Zahabi comprou a academia de Montreal em 2008, assumindo o espaço que antes havia passado pelas mãos de Alexandre Choko e, antes dele, por Conrad Pla, Michel Lavallée e Ron Di Cecco. Mesmo já sendo um ambiente bastante estruturado, Zahabi ajudou a elevar o nível e consolidar uma cultura própria dentro do MMA.

Menos de dois anos após Zahabi assumir o comando, um jovem que ainda tinha apenas algumas lutas amadoras apareceu na porta. Ele foi convidado por um promotor local que acreditava que o atleta tinha condições de treinar com os profissionais. O nome era Nallo, que, naquele momento, cancelou os planos de passar o fim de semana no lago para beber e encarou a mudança. A chegada foi marcada por entusiasmo: Nallo não se intimidou, ficou impressionado e empolgado ao ver nomes como Ivan Menjivar e David Louiseau, além de Yves Jabouin. E, como ele mesmo recorda, havia também a aura de Georges St-Pierre no auge, suado, ditando o ritmo com uma entrega de trabalho incomparável para quem estava ali para aprender.

Com o tempo, Nallo se tornou uma peça importante do Tristar e do que o lugar representa. Ele não buscava apenas receber orientação; na prática, a ajuda que ele recebia passou a ser procurada por um dos grandes nomes da história. Em entrevista, Nallo descreveu a sensação como algo impossível de explicar: “Foi indescritível. Eu esbarrei nisso quando era criança. O melhor lutador do mundo se preparava para lutas ao meu lado. Eu fiz sparring com o Georges por um round para a equipe do (Carlos) Condit, e ele disse que eu serviria bem para o tipo físico dele. Ele até me levou para Nova York para treinar uma semana na Renzo’s, quando eu tinha 18 ou 19 anos. Foi algo realmente especial. Eu lembro até hoje das corridas de táxi até os treinos e de ir a um spa russo. Foi um período único.”

A relação entre Nallo e o Tristar foi, desde o início, algo recíproco e especial, que permanece forte mesmo após quinze anos. O apelido “Rat Garbage”, ligado à arte abstrata que ele compartilha no Instagram e aos modelos de camisetas inspirados em animais mortos nas estradas, também diz muito sobre o personagem que ele construiu fora do padrão. Nallo não se encaixava no molde comum do lutador de MMA — e, naquela época, isso era ainda mais evidente, num período em que camisetas da Tapout, tatuagens e piercings dominavam a cena.

O Tristar, no entanto, era diferente. O ambiente era uma espécie de contracultura dentro do MMA, com foco em vínculos, lealdade e respeito pelo trabalho do dia a dia. As fases do esporte mudaram ao longo do tempo, e Nallo viu muitas delas, mas ressalta que ainda existem “veteranos” do Tristar que permanecem ali por afinidade e rotina. Ele se inclui nesse grupo. “Eu nunca senti que eu estava fora do lugar no Tristar, mas, na percepção mais ampla de um lutador de MMA, eu definitivamente sou um pouco um estranho”, afirmou. “Dentro do Tristar, no entanto, somos bem parecidos. Obviamente meus interesses são diferentes dos de alguém como Aiemann ou do George, mas a base de quem a gente é passa por amar treinar, amar evoluir e, no fim das contas, sermos uma espécie de família.”

Antes do caminho firme nas lutas, Nallo ainda tentou outras possibilidades. A entrada no universo competitivo veio depois de uma tentativa sem sucesso em trabalho de dublê e, inclusive, ele chegou a tentar participar de um circo no Canadá. Hoje, com 36 anos e vivendo como homem de família, ele diz estar feliz por aquilo não ter se concretizado. “Eu fiz uma audição para uma escola de circo muito boa em Montreal, que aceita só cerca de 12 alunos por ano”, explicou. “Eu criei uma demonstração de artes marciais e aprendi ginástica para tentar entrar. Se eu tivesse sido aceito, talvez aquele fosse o meu trabalho. Olhando para trás, eu acho que eu seria infeliz, mas quando eu era criança parecia divertido.”

Por anos, Nallo foi um apoio importante para vários nomes que apareciam no foco do UFC. Mesmo assim, ele nunca demonstrou ciúme, não se frustrava e também não colocava em dúvida que uma ligação do UFC chegaria. Isso continuou mesmo depois de deixar o Bellator em 2023, já perto dos 34 anos. Ele contou como lidava com a pergunta recorrente: “Mesmo estando no Bellator e as pessoas perguntando ‘por que você não vai para o UFC?’, nunca foi um problema para mim. Talvez eu esteja enganado, mas eu sempre achei que isso ia acontecer. Eu nunca duvidei. … Minha esposa e minha mãe talvez estivessem (preocupadas), mas eu não estava. Eu sempre pensava: ‘Essa é uma boa oportunidade porque eu vou estar no UFC em breve’. Mesmo quando eu não recebia certas chances, eu só pensava: ‘Na próxima vez vai ser comigo’. Eu não ficava preocupado.”

O que alguns interpretavam como otimismo sem fundamento acabou se mostrando real. Nallo chegou a estar em negociação para enfrentar Benoit Saint Denis no UFC 315, em maio de 2025, mas Saint Denis acabou optando por Kyle Prepolec como substituto em cima da hora. Ainda assim, o trabalho de bastidores chamou atenção: o matchmaker do UFC, Sean Shelby, percebeu o quanto Nallo se ofereceu com disposição para encarar um oponente ranqueado com poucos dias de aviso. A partir disso, ele saiu do roteiro e recebeu um convite para o Dana White’s Contender Series, mesmo aos 36 anos.

Nallo respondeu dentro do octógono e mostrou que idade é apenas número. Ele nocauteou Samuel Sanches, que era campeão do Cage Warriors, atingindo a cabeça do adversário fora da lona com uma sequência de golpes na luta de primeiro round, garantindo a finalização rapidamente com golpes de impacto. A avaliação também foi positiva do lado mais alto: o presidente do UFC, Dana White, que costuma criticar lutadores acima dos 30 e poucos anos no programa, fez elogios contundentes e ofereceu um contrato. Neste sábado, Nallo faz sua estreia no UFC Fight Night 273, em Winnipeg, Manitoba, no card principal, enfrentando Jai Herbert.

Essa estreia acontece quase 17 anos depois do primeiro combate de Nallo, mas ele sustenta que o momento não poderia estar melhor. Para ele, a jornada “forma” o lutador, e a expectativa é de que o homem que debutará no Canadá Life Centre seja capaz de alcançar o topo. “Não existe um ponto de parada à vista”, disse Nallo. “O desejo de treinar e melhorar continua aceso. Eu tenho o apoio da minha equipe e da minha família. O objetivo é o título mundial. Se esse não é o seu objetivo, eu não acho que o esporte é para você. Eu não estou apenas feliz por chegar ao evento. Eu penso que eu sou bom o suficiente para tentar uma chance.”

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.