Holly Holm estará em ação no sábado, buscando um título mundial dos pesos leves no boxe. Ainda assim, o nome da brasileira-americana segue circulando no MMA — e com força — por conta do primeiro evento do MVP, quando Ronda Rousey nocauteou a história do card ao finalizar Gina Carano no duelo principal, em apenas 17 segundos.
O “deja vu” do duelo com Rousey
No MVP, muito do burburinho inicial girou em torno da possibilidade de Holm enfrentar a vencedora daquele combate antes mesmo de a luta acontecer. O motivo do destaque era simples: ela assinou com a organização levando o boxe como ponto de venda, já que a empresa a apresentou com Holm como sua promotora no esporte. Mesmo com isso, ninguém consegue esquecer o que a atleta fez em 2015, quando aplicou um chute de cabeça que praticamente “recontou” o MMA ao derrubar Rousey e encerrar o confronto de forma devastadora.
O nocaute de Holm é lembrado como um dos maiores golpes que já ocorreram no esporte — e, desde então, ela sempre demonstrou abertura para uma revanche contra a ex-campeã. Só que a revanche, na prática, nunca saiu do papel.
Rousey, por sua vez, havia se afastado depois de duas derrotas consecutivas por nocaute. Ela voltou após um hiato de dez anos e venceu Carano, para então encerrar a carreira novamente. E, segundo Holm, Rousey não demonstra qualquer disposição para retornar para mais uma luta — ainda que o convite exista.
“Eu sempre disse que queria a revanche”
Em conversa com a imprensa especializada, Holm tratou o assunto com franqueza e reforçou que a proposta de uma revanche esteve na mesa desde o primeiro dia.
“Sim, muita conversa envolvendo a luta com a Ronda”, disse Holm. “Eu realmente acho que ela nunca vai querer uma revanche. Desde a hora em que a última luta terminou, eu sempre falei que eu iria querer rematch. Isso sempre esteve disponível.”
Ainda assim, a ex-desafiadora explicou o que enxerga como motivação para o retorno de Rousey e por que acredita que o caminho deve seguir sem um reencontro.
“Ela quis voltar, conseguir essa vitória e depois aproveitar uma conquista daquele jeito”, acrescentou Holm. “Sem nenhum tipo de ressentimento. Eu espero que ela vá bem. Eu espero que ela faça o que quiser com a vida dela. É a vida dela. Eu sempre ficaria aberta para lutar de novo.”
Por que Holm não se surpreendeu com o desfecho rápido
Sobre o duelo em si, Holm afirmou que não ficou surpresa com a forma como Rousey venceu. Depois de conseguir uma queda, ela encaixou o que virou sua assinatura: a finalização com chave de braço em posição que terminou o combate de forma acelerada, com a luta encerrada rapidamente.
Após o resultado, surgiram críticas e suspeitas de que o combate teria sido “ajustado”. Holm rechaçou a ideia, especialmente por entender o histórico de Rousey já demonstrando o mesmo tipo de domínio contra lutadoras de alto nível do UFC durante o auge da carreira.
“[Ela fez isso] muitas vezes contra mulheres que estavam no topo”, afirmou Holm. “A Ronda ainda continuava fazendo isso. Não dá para julgar alguém [que perdeu daquele jeito].”
Holm também comentou o peso emocional de um retorno depois de um longo período sem lutar, destacando a coragem necessária para encarar o octógono novamente.
“Sabe o que é? Precisa de muita coragem para voltar depois de tanto tempo, quando você não sentiu isso há muito tempo e por tantos anos”, disse ela. “A Ronda esteve muito mais ativa. Então ela estava familiarizada com o ritmo, com o desgaste físico do corpo e com essas coisas. Até só estar diante do público já mexe com você. Você ainda sente nervosismo. Ainda existe esse tipo de coisa.”
Carano voltou para o MMA com pouco tempo de preparação específica
Enquanto Rousey passou pela inatividade por uma década, Carano ficou fora das lutas por 17 anos. Depois da última aparição no Strikeforce, ela passou a direcionar grande parte do foco para a carreira de atuação. Na leitura de Holm, por isso, Carano não tinha uma rotina voltada ao MMA — ao menos não no mesmo nível que lutadoras ativas —, mas mesmo assim ela se submeteu a um campo de treinamento rigoroso para estar pronta para enfrentar Rousey.
O que Holm enxerga como “compromisso” e coragem
Para Holm, o nível de dedicação de Carano merece reconhecimento mesmo com a derrota no final.
“Voltar depois de um período tão grande é desconfortável”, disse Holm. “Lutas são desconfortáveis. Eu não gosto. Eu odeio semana de luta. Eu odeio o dia da luta. Eu sempre odiei. Em toda luta eu penso: ‘essa vai ser a minha última’. Porque é assim que eu me sinto — e eu sei que vou sentir isso. É muito desconfortável, e é por isso que uma parcela muito pequena das pessoas consegue fazer isso.”
Holm ampliou o argumento e afirmou que o desconforto não é apenas físico, mas também mental e emocional.
“Não é só a parte física, o que você coloca o corpo para passar”, continuou. “É mais emocional e mental. Tem tanta coisa envolvida. É maluco. Você não quer perder. Você coloca tanto nisso e não quer perder. É o desconhecido. Você não sabe o que vai acontecer, mas mesmo assim você enfrenta. Você entra com o desconhecido, sentindo total vulnerabilidade para o mundo ver. Milhões vendo.”
Ela ainda concluiu dizendo que voltar a esse ambiente depois de se afastar torna tudo ainda mais difícil.
“É uma coisa muito desconfortável, e conseguir se afastar disso e depois voltar para encarar tudo de novo — essa emoção desconfortável, física e mental — é uma grande coisa”, declarou Holm. “Para ela voltar e encarar isso também exige muita coragem.”
Respeito a Rousey e orgulho de ter feito história
Apesar do impacto que a luta teve, Holm deixou claro que não carrega nada além de respeito pela antiga adversária e que essa postura não mudou.
“Todo o respeito por ela”, disse Holm. “A razão de a minha vitória ter sido tão grande foi porque ela era tão dominante. Você precisa de uma campeã dominante para que um grande azarão aconteça. Então eu respeito muito ela e respeito a ela. Eu nunca vou falar nada negativo.”
Ao mesmo tempo, a lutadora reconheceu o orgulho competitivo de ter feito o que fez dentro do jogo — sem transformar isso em arrogância.
“Mas também existe o orgulho de lutadora. Uma vitória é ótima, mas para tentar vencer bem, marcar tanto aquilo, qualquer um que diga que não sente orgulho estaria mentindo”, afirmou. “Eu tenho orgulho de ter entrado e feito o que eu fiz. Mas eu sou uma lutadora. É isso que a gente faz. A gente vai para vencer.”
Foco atual: boxe e revanche contra Stephanie Han
Mesmo com todo o debate envolvendo Rousey e, em um cenário futuro, a possibilidade de um confronto com Carano, Holm afirmou que, por enquanto, a prioridade está no boxe. Ela também se prepara para sua revanche contra Stephanie Han.
No primeiro duelo entre as duas, a luta terminou depois de uma colisão de cabeças e do corte sofrido por Han, antes de Holm vencer por decisão técnica após a análise nas anotações dos jurados.
Holm pediu a revanche imediatamente e teve o pedido atendido.
“Eu queria muito a revanche”, declarou Holm. “Eu acho que o jeito que a luta [terminou] dá direito a uma revanche.”
Um último capítulo no ringue e a busca por acerto de contas
Com 44 anos, Holm reconheceu que ainda tem um número limitado de combates pela frente. Mesmo já sendo uma homenageada no Hall da Fama do boxe, acrescentar mais um título ao cartel no esporte seria algo ainda mais valioso.
Além do objetivo por cinturão, ela também voltou a mencionar a sensação de que o confronto anterior não ficou resolvido do jeito que ela queria.
“Ainda sinto que isso está inacabado”, disse Holm. “Era uma meta que eu tinha. Eu falhei com ela e eu preciso consertar. Eu preciso fazer tudo o que eu puder para fazer isso certo. É isso que eu estou fazendo. Eu vou aparecer, eu vou lutar pelo cinturão e eu vou conquistá-lo. É uma meta que eu tenho. É um sonho.”
Holm afirmou ainda que segue motivada e apaixonada pelo esporte, mas deixou claro que não pretende lutar por muito tempo. Para ela, justamente por isso, as últimas lutas precisam receber toda a entrega.
“Eu continuo insistindo e eu continuo amando essa modalidade”, completou. “Eu não vou ficar nisso para sempre. Eu sei que parece que sim porque eu estou saudável, ainda consigo lutar muito bem e estou indo muito bem. Eu não vou lutar por tanto tempo assim. Mas eu quero garantir que, nas últimas lutas que eu tiver, eu vou colocar tudo que eu tenho. Eu sempre faço isso. Eu nunca trato qualquer luta como se fosse fácil. Eu coloco muito nesse combate, e vai valer a pena.”

