Ilia Topuria busca novo capítulo invicto e pode unificar cinturões no UFC

Dezessete atletas conseguiram chegar ao topo das respectivas categorias e conquistar cinturões do UFC permanecendo invictos, mas existe apenas um nome que uniu domínio absoluto e um detalhe raro: vencer títulos em duas divisões sem jamais sofrer uma derrota. O responsável por essa marca é o atual campeão dos leves, Ilia Topuria, que neste sábado, 14 de junho, encara o campeão interino Justin Gaethje no card que marca o UFC Freedom 250, em evento realizado na área externa da Casa Branca.

O destaque de 29 anos vive um período que foge do padrão dentro do octógono. Só que tamanha sequência de resultados ainda parece não ter sido totalmente digerida pelo público, tamanha a intensidade do que Topuria vem entregando ao longo dos últimos anos.

Para entender o tamanho da escalada, vale voltar ao começo. A estreia de Topuria no UFC aconteceu em cima da hora, durante a fase do Fight Island, quando ele substituiu SeungWoo Choi em um combate do card principal diante do prospecto Youssef Zalal. Na ocasião, Zalal vinha de três vitórias na organização em 2020 e era visto como uma promessa forte no peso pena. Topuria, que já carregava um cartel de 8-0 e ainda tinha 100% de aproveitamento nas finalizações, entrou na luta após ficar 11 meses sem competir.

Mesmo sem estar no ritmo ideal, Topuria saiu com vitória por decisão unânime. Os jurados marcaram 29-28 em todos os cartões, e o resultado ainda teve um impacto direto na trajetória do marroquino: foi a primeira derrota de Zalal no UFC. “O Diabo Marroquino” atravessou uma fase turbulenta depois desse revés e acabou dispensado, mas a recuperação dele não apaga o que já se via naquele momento: Topuria era alguém para ser acompanhado desde a estreia.

Embora na primeira aparição ele não tenha encontrado a finalização, o tempo para voltar ao caminho das lutas terminadas não foi longo. Nas três apresentações seguintes, Topuria venceu por interrupção em todas elas, sempre dentro do tempo regulamentar, contra adversários experientes. Menos de dois meses depois de superar Zalal, ele voltou ao octógono e “apagou” Damon Jackson, derrubando o rival no meio do primeiro round durante o duelo realizado em dezembro de 2020. Já no verão seguinte, enfrentou Ryan Hall em um confronto que exigia atenção total às tentativas de captura de perna do grappler, e mesmo com as investidas do adversário no corpo a corpo, Topuria conseguiu colocar Hall para dormir nos instantes finais do primeiro assalto no UFC 264.

Em março de 2022, Topuria encarou Jai Herbert em Londres, assumindo como substituto tardio de Mike Davis em um duelo no peso leve. O começo foi duro: Herbert conseguiu derrubar Topuria no primeiro round. Só que o campeão respondeu com precisão, virou a chave e finalizou de forma convincente no segundo, garantindo ainda o bônus de Performance da Noite.

Essas escolhas de adversários representaram testes diferentes, moldados para medir o momento do lutador em ascensão. E o recado foi claro: Topuria passou por cada etapa com autoridade suficiente para encarar o topo do peso pena.

Outra tradição comum no matchmaking é colocar dois talentos em crescimento frente a frente mais cedo na carreira de ambos, quando uma derrota não destrói o caminho, mas uma vitória empurra o vencedor mais fundo na briga pelo ranking. No caso de Topuria, esse capítulo veio no UFC 282, quando ele foi escalado contra Bryce Mitchell, que vinha de uma sequência de seis vitórias e já havia escalado para o top-15.

O confronto era visto por muitos como um choque de estilos: de um lado, a trocação rápida e com potência de Topuria; do outro, o jogo de quedas e controle de Mitchell. O brasileiro mostrou que, apesar de ter vantagem na distância, também tinha ferramentas para lidar com o grappling. Mitchell conseguiu estabelecer controle no primeiro round, mas Topuria feriu o adversário no início do segundo, puxou a luta para o chão e encaixou uma finalização do tipo mata-leão triangular (arm-triangle choke), levando o combate a um desfecho decisivo.

Foi esse triunfo que fez até quem ainda mantinha dúvidas sobre o potencial de Topuria começar a prestar atenção de verdade.

Seis meses depois, Topuria fez sua primeira luta como main event ao enfrentar Josh Emmett, em Jacksonville, na Flórida. Naquele momento, o veterano de Sacramento vinha de um duelo pelo cinturão interino contra Yair Rodriguez e acumulava cinco vitórias seguidas antes de encarar Topuria. O que se viu foi um atropelo: Topuria atravessou Emmett como se não houvesse barreiras. Em uma apresentação anterior, Rodriguez havia finalizado Emmett, mas ninguém tinha imposto esse tipo de controle ao “top 5” do peso pena. Topuria conduziu o combate com um plano metódico, trabalhando por trás do jab e depois castigando o experiente, avançando com decisão.

Enquanto o triunfo sobre Mitchell colocava Topuria como possível desafiante, esse resultado contra Emmett forçou o público a pensar de forma mais séria sobre como ele se encaixava entre os melhores do peso pena.

Quando o assunto é a conquista do título e as defesas, há argumentos e ressalvas que podem ser levantados a respeito de tudo que Topuria fez no caminho até vencer Alexander Volkanovski no UFC 298 e depois defender com sucesso o cinturão contra Max Holloway oito meses mais tarde no UFC 308. Ainda assim, no fim das contas, o que pesa é o que aconteceu no octógono: Topuria foi lá e fez o trabalho com desempenho convincente.

Os detalhes ajudam a dimensionar. Volkanovski segue invicto na categoria fora do confronto com Topuria, além de ter recuperado e defendido o cinturão dos penas. Holloway, por sua vez, emendou 14 lutas consecutivas no peso pena até cruzar com Volkanovski, e nas quatro disputas seguintes antes de cair para Topuria no UFC 308, ele venceu tudo que apareceu pela frente, com exceção do duelo contra Volkanovski. Descontando as derrotas individuais para Topuria, Volkanovski e Holloway somam 35 vitórias e 6 derrotas na divisão do UFC, e a trilogia pelo título entre eles responde por três dessas derrotas.

Em resumo: não importa o contexto. Topuria venceu dois dos maiores nomes da história da divisão para conquistar e depois defender o cinturão. Ponto final.

Também é preciso reconhecer a ousadia do atual campeão dos leves. Topuria anunciou que abriria mão do cinturão do peso pena em 19 de fevereiro de 2025, com a intenção de buscar um confronto contra o então campeão Islam Makhachev. Não havia garantias de que a luta aconteceria, mas ele ainda assim decidiu entregar o título. Makhachev, mais tarde, seguiu um caminho parecido, subindo para o peso meio-médio para tentar conquistar um segundo cinturão na categoria, o que abriu caminho para Topuria encarar Charles Oliveira pelo cinturão vago dos leves no main event do UFC 317.

Topuria chegou a projetar uma finalização ainda no primeiro round do ex-campeão brasileiro. E, pouco antes de passar da metade do primeiro assalto, ele conectou uma sequência de golpes com ganchos que colocaram Oliveira no chão, garantindo a segunda conquista de cinturão no UFC.

Essa sequência de três lutas encerradas em sequência — contra Volkanovski, Holloway e Oliveira — é uma das melhores maratonas de paradas do período recente, e talvez de toda a história do UFC. E pensar que, para fechar um dos eventos mais marcantes da era, Topuria ainda tem a chance de derrubar um nome do nível de Gaethje só reforça por que, hoje, ele é visto como um atleta fora da curva.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.