Jamie Siraj supera crise médica e volta ao UFC após pesadelo no octógono

Jamie Siraj viveu o auge da carreira em 2019, quando emplacava vitórias e passou a figurar perto de uma chance real no UFC. O cenário, porém, mudou drasticamente: dores de cabeça, problemas gastrointestinais e uma sequência de quadros médicos levaram a diagnósticos raros e a complicações severas, incluindo infecções importantes e períodos de sedação. Depois de um longo período de recuperação e de tratamentos caros, ele retornou ao octógono em 2023 e, mais recentemente, aceitou uma luta de curta antecedência em Winnipeg, apostando que já superou adversidades suficientes para não “travar” sob pressão.

Da “porta do UFC” ao colapso de saúde: o que a história de Siraj revela

Em 2019, Siraj relatou sentir que estava “no topo do mundo”. As conquistas consecutivas o colocaram na iminência de receber um chamado a qualquer momento. Foi justamente nesse período de expectativa que começaram as crises: dores persistentes e questões no estômago passaram a dominar a rotina.

No meio de uma profissão em que traumas cerebrais não são incomuns, Siraj atribuiu inicialmente os sintomas a uma concussão. Ainda assim, o ciclo se tornou mais doloroso quando médicos avaliaram e deram “liberação” sem apontar problemas. Para ele, a sensação foi de descrença e falta de atenção ao que estava acontecendo de fato.

Segundo Siraj, havia questionamentos de que ele estaria “fingindo” a situação. Ele disse que, enquanto os profissionais afirmavam não haver nada errado, ele desmaiava, tinha frequência cardíaca em torno de 140 por dia e pressão arterial de 194/115. A partir daí, afirmou que precisou virar o próprio defensor, e que a falta de apoio o atingiu profundamente mentalmente.

Com a piora progressiva, não houve como negar que algo estava severamente errado. Ele passou a não conseguir ficar em pé, ficou praticamente acamado e, em 2021, teve um surto de infecção de pele, com o rosto inchando a ponto de ficar irreconhecível. O diagnóstico veio como encefalite autoimune, uma condição em que o sistema imunológico ataca o cérebro.

Mesmo assim, os médicos não conseguiram conter a escalada. Siraj descreveu que o quadro avançou: ele enfrentou problemas intensos no estômago, passou a usar medicamentos imunossupressores que, em vez de ajudar, o deixaram ainda mais doente, e uma “carga” de problemas de saúde apareceu em sequência.

O rumo mudou quando um reumatologista identificou esclerose sistêmica — também chamada de esclerodermia —, doença autoimune que ataca tecidos conectivos e aumenta a vulnerabilidade a infecções. A manifestação na pele, de acordo com ele, ocorreu por causa de uma infecção séptica, com bactérias crescendo na parede do estômago. Diante disso, Siraj precisou passar por cirurgia.

Ele ressaltou que o caso era incomum: os profissionais teriam afirmado que era a pior infecção cutânea que já tinham visto. Ainda assim, ele aceitou participar de um protocolo de estudo, assinando um termo de autorização para ser analisado. Para Siraj, quando a infecção chegou ao rosto, finalmente ficou claro para outras pessoas que havia algo realmente grave acontecendo.

Infecções recorrentes, prognóstico sombrio e a virada com anticorpos monoclonais

Após o diagnóstico, o prognóstico se tornou ainda mais severo. Siraj disse que ficou entrando e saindo de sedação. Durante os momentos em que estava consciente, ele sentia dor e tinha a impressão de que morreria.

Ele afirmou que não lhe davam uma chance elevada de sobrevivência. Ao longo de cerca de um ano, enfrentou infecções que voltavam continuamente. Nesse período, relatou ter se tornado resistente a antibióticos. Também descreveu estar “o mais perto da morte” que se pode ficar, com marcadores inflamatórios extremamente altos, arritmias cardíacas irregulares e monitoramento constante. Segundo ele, foram necessárias sessões frequentes de antibiótico intravenoso. Siraj disse que nunca tinha sentido uma dor daquele nível, chegando a chorar de dor, além de precisar ser sedado muitas vezes.

Ele detalhou ainda o agravamento: a infecção teria se espalhado a partir de uma “porta” na boca até os pulmões, descrevendo a experiência como horrível.

Em um momento de desespero, Siraj buscou alternativas e assinou termos para ser estudado, na esperança de que qualquer descoberta pudesse reverter a queda do quadro. De dezembro de 2021 a julho de 2022, ele classificou como o período mais difícil da própria vida. Depois, veio um avanço importante.

Segundo Siraj, um imunologista conseguiu que ele fosse aprovado para receber tratamentos com anticorpos monoclonais. Ele explicou que o tratamento era extremamente caro — cerca de US$ 50 mil — e por isso a família iniciou uma campanha para arrecadar recursos. Após começar a terapia, ele começou a melhorar.

Na visão dele, o tratamento com anticorpos monoclonais ajuda o sistema imunológico a buscar equilíbrio, reduzindo a tendência de atacar o próprio corpo. Ele afirmou que, com a terapia, seus níveis de leucócitos voltaram ao normal.

Com o tempo, Siraj relatou uma recuperação gradual, “passo a passo”. Ele também creditou a melhora ao suporte constante das pessoas ao redor. Em fevereiro de 2023, ele viveu um marco: pela primeira vez em anos, se sentiu “normal”. Para ele, aquele instante fez com que valorizasse tudo o que tinha.

Retorno ao octógono e aceitação de luta curta: próximo passo e impacto no cartel

Em junho de 2023, Siraj voltou ao octógono e retomou o caminho das lutas. Ele disse que a própria trajetória pesa na motivação: depois de ter enfrentado sepse, passado por um coma e ouvido que talvez não sobrevivesse, vencer uma luta significou tudo.

Na sequência, ele venceu cinco dos próximos seis combates profissionais. E, quando parecia que a reviravolta poderia levar ainda mais tempo para se consolidar, veio o chamado que ele esperava: aceitou rapidamente uma oferta de Sean Shelby com pouco tempo para se preparar.

O duelo acontece no UFC Winnipeg, contra John Yannis — mais um capítulo que, para Siraj, reforça como ele conseguiu superar probabilidades contrárias mesmo após escapar da morte.

  • Siraj venceu 5 das próximas 6 lutas profissionais após o retorno.
  • Ele atribui parte da confiança ao fato de já ter passado por adversidades extremas na saúde, o que, segundo ele, reduz a chance de “travamento” sob pressão.

Ao comentar o cenário de lutadores que estreiam na organização e enfrentam dificuldades emocionais e competitivas, Siraj citou como exemplo Youssef Zalal: para ele, a situação é comum quando o atleta chega cedo demais, ainda não passou por batalhas suficientes e não tem bagagem de adversidade. Ele argumentou que, nessas circunstâncias, a pressão pode levar a erros graves, como “engasgar” e perder o controle do combate. Na leitura de Siraj, ele já passou por provações que vão muito além do que costuma aparecer para quem chega ao UFC pela primeira vez.

Ele reforçou que enfrentou adversários no nível da organização e venceu, além de ter passado por tudo o que viveu com a saúde. Por isso, afirmou que não vê muitas situações da vida em que ele vá “congelar” ou “engasgar”. Com o retorno, declarou estar pronto para aquele momento.

Com a luta marcada em Winnipeg diante de John Yannis, o próximo passo para Siraj é transformar a sequência positiva no cartel em regularidade dentro do circuito do UFC — especialmente depois de um histórico tão atípico fora dos holofotes, marcado por diagnósticos autoimunes, infecções graves e uma recuperação que exigiu tratamentos agressivos e caros. Se ele mantiver o ritmo de vitórias, a tendência é que volte a ganhar espaço na conversa por lutas cada vez mais importantes, pavimentando novos degraus rumo ao topo do ranking no futuro.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.