Joshua Van mira evolução: rotina em Houston e foco no UFC no fim de semana

O campeão dos moscas do UFC, Joshua Van, vive uma rotina que mistura disciplina e leveza — e foi exatamente assim que ele encarou mais uma preparação em Houston, antes de voltar ao octógono neste fim de semana. No Aztlan Boxing Gym, na Long Point Road, a trilha sonora veio em forma de “I Remember Everything”, parceria vocal de Zach Bryan com Kacey Musgraves, tocando no som ambiente enquanto Van alternava momentos de treino com seu técnico de longa data, Jose Vasquez, entre cantorias baixas e o trabalho de golpes.

Com halteres de três libras nas mãos e utilizando “macarrões” de piscina como alvo improvisado, Van manteve o ritmo do treino, acertando repetidamente o centro de um flutuador de espuma que servia como ferramenta de condicionamento. A cadência acelerou conforme o tempo avançava, e quando o alarme soou indicando o fim do período, ele e Vasquez seguiram por alguns instantes no clima descontraído: o “macarrão” ainda acertou a cabeça de Van em brincadeira, e ambos encenaram combinações de socos mirando a direção do treinador.

Durante a sessão, que durou cerca de uma hora, o campeão brincou o tempo todo com Vasquez, com pessoas próximas e até com Zac Pacleb, mantendo um fluxo constante de humor e conversa. Em meio às provocações, Van perguntava se estava com boa aparência, se parecia “grande” e, nesses instantes, ficava nítido o contraste: apesar de ostentar o cinturão dos moscas e ter apenas 24 anos, ele mantém a mentalidade de quem está em busca de evolução diária.

Depois que o treino acabou, Van resumiu sua filosofia: “Eu fico focado quando eu me divirto. O que você viu hoje é exatamente como eu treino em qualquer lugar. Eu passo por três academias e fico sempre no mesmo padrão. Eu gosto de ter diversão. Se você tratar essa parte de lutar como um trabalho, não vai ter sucesso por muito tempo. Você até pode chegar ao topo, mas não vai sustentar isso por muito tempo, porque a graça de fazer o que você ama é se divertir no processo.”

Van, de fato, demonstra que gosta do que faz — e isso ajuda a explicar a velocidade com que ele chegou ao topo. Natural de Mianmar, ele está no UFC há menos de três anos, mas já acumula cartel de 9-1 e se colocou no topo de uma das divisões mais disputadas da organização. Em 2024, foram quatro lutas, e o que viria a seguir ficou indicado ainda mais em 2025, quando ele projetou sua virada antes do último compromisso do ano contra Cody Durden, dizendo a Thomas Gerbasi que, se vencesse, “2025 vai ser a tomada” (em tom de domínio da categoria).

Van venceu Durden no UFC 310 e, no fim das contas, “tomou conta” do cenário do peso mosca no período recente.

Antecedentes

A trajetória segue com marcos importantes. Um triunfo inicial sobre Rei Tsuruya colocou Van em progressão, e uma paralisação no terceiro round diante de Bruno Silva o levou para a lista de ranqueados. Duas semanas depois, ele voltou rapidamente ao octógono para um compromisso de eliminação pelo cinturão contra Brandon Royval, trabalhando com consistência até a reta final e construindo uma apresentação que terminou entre as mais lembradas em votações de “Luta do Ano”. Com isso, ele se posicionou para um duelo de título contra Alexandre Pantoja no UFC 323, em Las Vegas, no encerramento do ano.

O confronto com Pantoja começou com intensidade logo no início. Ainda nos primeiros segundos, Van derrubou o campeão com uma árvore (uma queda brusca para cima do adversário), e Pantoja ainda tentou se proteger na queda, mas acabou sofrendo uma lesão grave no cotovelo, o que interrompeu o combate imediatamente. Van comemorou dentro do octógono, mas, ao chegar nos bastidores da T-Mobile Arena para fotos e entrevistas, a imagem era de conflito: ele parecia sem saber como reagir diante de um momento de sonho que não ocorreu exatamente como imaginava.

Em seguida, Van comentou o sentimento do pós-golpe: “Foi um momento meio confuso. Eu comemorei, eu estava feliz, mas quando eu voltei pro hotel — normalmente eu fico acordado até tipo quatro da manhã, revendo minha luta várias e várias vezes — dessa vez eu não consegui. Eu também não queria celebrar a vitória por umas duas semanas depois de ganhar o cinturão. E meus treinadores falaram: ‘Você venceu. Ele é faixa-preta, ele deveria saber cair, e não é culpa sua ele ter quebrado o braço’. Depois dessas duas semanas, eu fui entendendo que tudo acontece por um motivo. Aí eu pensei: ‘Se ele quer o cinturão, a gente pode repetir a luta’. Agora eu sou o campeão. Se eles quiserem o cinturão, que venham pegar de mim.”

Mesmo com a complexidade emocional do desfecho, Van não tem perfil de esperar adversários se apresentarem. Quando Manel Kape nocauteou Royval no primeiro round, no card final do ano, ele aproveitou e chamou Van para o duelo. A resposta veio com rapidez: o campeão demonstrou vontade real de enfrentar o rival em Houston, quando o UFC desembarcou no Toyota Center para um Fight Night no meio de fevereiro.

Van explicou como conduziu as conversas: “Eu pedi por todo mundo. Eu mandei mensagem pro meu gerente, até pro Mick (Maynard), o próprio. Eu vi o Pantoja treinando e falei: ‘Eu acho que o Pantoja está bem. Me avisem’. Aí eu vi (Kyoji) Horiguchi vencer e falei: ‘Eu quero ele’. Eu chamei todo mundo — Manel (Kape), (Tatsuro) Taira, Pantoja, Horiguchi… todos. Só que o UFC decidiu me colocar alguém, e eu tô muito feliz. Mas fica pronto como desafiante, porque o campeão chama quando chega a hora. Agora a gente tem um cara, e depois disso, vocês têm que ficar ligados.”

O duelo, que inicialmente estava planejado para o UFC 327, em Miami, no mês passado, acabou sendo adiado. Do lado de Van, a solicitação foi feita para empurrar a luta em cerca de um mês, já que o campeão lidava com lesões com as quais a equipe técnica se preocupou.

“Eles me falaram duas semanas antes de cancelar: ‘Vamos cancelar, não está parecendo bom’. E eu falei: ‘Eu tô bem’, e continuei insistindo para eles não cancelarem. Eles fizeram uma reunião sem mim e, no fim, cancelaram… Foi difícil, mas eu estava lidando com umas lesõezinhas. Aí os treinadores viram algo que eu normalmente não passo durante camp de luta e quiseram adiar a data. Agora estamos perfeitamente bem”, declarou Van, ainda com um tom de irritação brincalhona por ter que esperar mais um mês para competir de novo.

Ao longo de 2025, Van teve contato com pessoas do grupo que o acompanhou e manteve conversas em diferentes momentos antes de a conexão ser retomada em Houston no início deste ano. Esse período refletiu em uma mudança clara: ele ficou mais à vontade diante das câmeras e também em aceitar a posição que ocupa. Em conversa ocorrida no último mês de setembro, quando alguém sugeriu que companheiros de equipe — como Alden Coria e Michael Aswell Jr. — enxergavam Van como referência por ele ter sido o primeiro do grupo a chegar ao UFC e colher resultados, ele desconversou, mas agora fala com mais frequência sobre liderança e papel de modelo.

Na visão do campeão, a responsabilidade cresce conforme ele passa a representar. “Antes de ser campeão, eu não achava que tinha conquistado algo. Agora, sendo campeão, meus companheiros olham pra mim ainda mais. Agora eles usam mais como referência a minha parte de força e condicionamento, meu boxe, e assim a gente evolui como equipe. Quando tem uma nação olhando pra você — o povo de Mianmar — eu tenho crianças me pedindo conselho, dizendo que me veem como exemplo. Isso pesa, é uma grande responsabilidade. Colocar minha mãe na posição em que ela está agora me dá mais motivação. E meu sobrinho… eu amo ele. Ver ele olhar pra mim, ouvir ele falar ‘eu quero ser como você quando crescer’… isso significa tudo.”

Apesar de reconhecer as oportunidades e os novos deveres que vêm com o cinturão, Van reforça que o foco principal segue sendo o trabalho de combate.

A luta

O fim de semana finalmente chega para Van voltar ao octógono. O adversário será o japonês Tatsuro Taira, visto como uma das principais promessas da nova geração nos moscas — alguém capaz, no imaginário de muitos, de lutar pelo ouro e assumir o protagonismo na divisão.

Taira tem 26 anos e estreou no UFC um ano antes de Van. Ele emendou uma sequência de seis vitórias antes de cair no placar de uma decisão dividida em um duelo competitivo contra Royval. Em agosto, Taira aplicou uma surra em HyunSung Park, substituto de última hora, e voltou ao octógono uma luta antes de Van e Pantoja no UFC 323, em dezembro. Na ocasião, ele dominou e finalizou Brandon Moreno, ex-campeão por duas vezes, em aproximadamente uma rodada e meia.

Van comentou a importância do desafio e também o momento da categoria: “Vocês lembram quando estavam falando em cancelar os moscas? Hoje essa divisão está entre as mais empolgantes, e eu sou o campeão. (Vencer Taira) significa tudo, porque ele é um dos grandes da categoria. Ele é jovem e está em ascensão. Eu também sou jovem. Essa é a nova geração do MMA, e a gente vai mostrar ao mundo quem é o melhor homem naquela noite.”

O campeão também acredita que, mesmo com uma ascensão incomum — ele é o segundo campeão mais jovem da história do UFC —, a progressão pareceu natural para ele. “Eu sempre me enxerguei como campeão mundial, até quando comecei. Então pra mim não é nada novo. Eu vejo essa luta como mais uma luta. Não estou tratando esse compromisso como maior do que qualquer outro. Eu tô tão empolgado quanto eu estava na minha estreia.”

Van ainda reforçou que seu amor por competir não muda conforme o adversário. Após um período mais longo fora do octógono na carreira, ele quer voltar com força e continuar construindo o “takeover” que tomou conta do ano passado.

“2026 é pra mostrar pro mundo como somos incríveis. Vai ser um ano ainda melhor do que este”, disse Van.

Em termos de expectativa de desfecho, o campeão apontou seu caminho: ele acredita que Taira será finalizado dentro de três rounds. E, depois disso, a conversa sobre próximos desafios fica aberta.

“Por enquanto, pra ser bem honesto, é só o Tatsuro. Mas você me conhece… (risos). Talvez me liguem na manhã de domingo e eu digo pra vocês quem eu quero enfrentar depois”, completou Van.

O pós-luta

  1. O campeão chega ao confronto com a expectativa de encerrar o combate ainda no começo da trajetória da luta, mirando um desfecho antes do terceiro round.
  2. Van trata o duelo como parte de um plano maior: manter a sequência de evolução e reforçar a ideia de que a divisão dos moscas segue em alta, com ele no centro do cenário.
  3. Depois do combate, ele mantém o espaço para definir o próximo rival, indicando que a decisão pode sair conforme o que acontecer no próprio domingo.

Antes de tudo, porém, a história deste fim de semana começa no retorno ao octógono. Van, que treinou cercado de ritmo, brincadeira e intensidade desde cedo em Houston, agora concentra toda a energia na luta contra Taira — o teste que pode consolidar ainda mais a fase dominante do campeão dos moscas do UFC.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.