Joshua Van x Tatsuro Taira no UFC 328: disputa de cinturão no peso-mosca

O co-main event do UFC 328, em Nova Jersey, reúne dois nomes do peso-mosca em uma luta que vale cinturão: Joshua Van encara Tatsuro Taira pela disputa do título. O combate coloca frente a frente um campeão que vem construindo seu jogo com versatilidade e um desafiante que busca se tornar o primeiro campeão do UFC do Japão — e que, nas últimas temporadas, tem mostrado evolução constante, principalmente no setor de trocação.

Antecedentes

Taira chega com a missão de escrever história neste sábado, tentando se tornar o primeiro campeão do Ultimate vindo do Japão. Para isso, o japonês tem trabalhado de forma progressiva o seu arsenal na trocação, com escolhas que favorecem tanto a movimentação quanto a capacidade de encurtar e alongar a distância conforme o cenário do combate pede.

Em termos de estilo, Taira costuma operar do “tudo ou nada” dentro do seu raio: ou ele entra bem para encaixar ações, ou recua e volta a sair, usando a própria movimentação para criar ângulos. Quando está afastado, a tendência é preparar ataques longos e retos a partir desse vai e vem, buscando que o adversário reaja tarde demais.

Quando encontra o ritmo, o desafiante agrega chutes firmes às combinações — com destaque para ações iniciadas pelo lado dianteiro. Além disso, há um ponto que pode pesar no octógono: Taira demonstra boa capacidade de bater a trocação mesmo quando aplica “collar ties”, abrindo espaço para joelhadas e cotoveladas na curta distância. Ainda assim, ele precisa lidar com o poder de Van, que não pode ser subestimado em nenhuma fase.

Do outro lado, Joshua Van, atual campeão, tem um caminho mais recente no MMA profissional: são pouco mais de quatro anos de cartel. Ainda assim, o lutador exibe uma aptidão natural para o striking que chama atenção. Seu estilo tende a ser mais voltado para o boxe, com inclinação a contra-atacar em sequência. Na troca de golpes, Van se beneficia ao variar visual e níveis, alternando escolhas de ataque de acordo com o momento.

Quando Van começa a encaixar, ele também não hesita em acelerar com ganchos mirando o corpo. No clinch, mostra leitura para atacar a partir de frames, usando joelhadas e socos como ferramentas para pontuar e desorganizar a defesa do rival. Há ainda um componente que pode surpreender: o campeão tem chutes que não são apenas “decorativos”, com criatividade em diferentes linhas. A dúvida é quanto dessa parte do repertório conseguirá ser mantida, já que Taira tem ameaças reais de queda.

Com a maior diferença “no papel” entre os dois, a prioridade para Van será proteger a região do pescoço. A razão é simples: caso o desafiante consiga levar a luta para onde ele é mais perigoso, o jogo pode rapidamente migrar para situações de controle e finalização.

A luta

  1. Controle de distância e primeiros encaixes: a tendência é Taira tentar comandar o raio com entradas e saídas, preparando tiros longos e retos quando Van estiver tentando ajustar a guarda. Do lado do campeão, a leitura de contra-ataque deve aparecer ao misturar níveis e variações de abordagem.

  2. Combinações com chutes e ações de curta distância: se Taira encontrar o timing, ele deve costurar combinações com chutes — especialmente iniciados pelo lado da frente — e buscar oportunidades para joelhadas e cotoveladas quando conseguir segurar o rival com “collar ties”.

  3. Clinch como ponte para pontuar: Van tem potencial para usar o clinch para pontuar com joelhadas e golpes pelas aberturas criadas por frames. Ao mesmo tempo, ele precisará manter atenção às tentativas de queda, já que a pressão de Taira pode mudar o fluxo do combate.

  4. Quedas, wrestling e o “primeiro plano” do campeão: mesmo com a desvantagem de trocação no confronto teórico, Van tem uma base de luta no chão que vai além do básico, especialmente no wrestling. Ele tende a usar instinto para defender no primeiro nível, com quadris prontos para espalmar e, quando necessário, trabalhar com whizzer como aliado.

  5. Raspagens e recuperação, mas com risco de exposição: quando Van acaba sendo superado contra a grade, ele não costuma desistir cedo. A percepção de “underhooks” e “overhooks” ajuda, e ele mostrou evolução recente com tentativas técnicas de levantar (incluindo get-ups com boa firmeza). Ainda assim, durante scramble, pode haver momentos em que o back exposure aparece — e isso é algo que precisa ser evitado contra um atleta como Taira.

  6. O plano de Taira para levar para as paredes e encadear quedas: Taira parece confortável em usar o primeiro ataque para empurrar o adversário em direção às grades. A partir daí, a expectativa é que ele conecte transições entre quedas de perna única e variações que permitem arrastar o ritmo para seu grappling.

  7. Volta ao chão com perigo real de finalização: mesmo ainda em desenvolvimento em partes do jogo, o japonês já tem uma habilidade de “pegar as costas” acima do comum para a idade. A ameaça cresce quando ele prende Van no controle traseiro, seja mirando finalizações por estrangulamento, seja criando escapes que abrem caminho para armlocks.

O pós-luta

Nas casas de apostas, Taira é o favorito para vencer a luta: ele aparece com odds de -180, enquanto Van está cotado a +140. Apesar de parecer estranho ver um campeão como azarão no papel, a leitura do público tende a ser influenciada por narrativas envolvendo o caminho de Van até a posição atual, incluindo uma vitória por lesão em um passado recente contra Alexandre Pantoja, que foi amplamente tratado como um talento subestimado dentro do peso-mosca.

No cenário de estilos, a chave pode estar no equilíbrio entre a defesa de quedas de Van e o risco de exposição nas costas durante as transições. Van tem um primeiro nível de defesa sólido, mas a capacidade de Taira de punir qualquer brecha em scrambles pode decidir rounds importantes — ou até o resultado final.

Embora Taira esteja em desvantagem no confronto teórico de trocação, ele carrega ferramentas para se manter competitivo em pé e, principalmente, para resistir ao longo do combate. A leitura é que o japonês consiga “taxar” o boxe-wrestling de Van com contra-atacques, cruzados e chutes em troca de nível, incluindo ações com o lado dianteiro. Além disso, a evolução recente dele em alternar alturas pode ser um diferencial para quebrar o ritmo do campeão.

Há ainda um fator temporal relevante. Van tem menos de cinco anos como profissional, e o peso-mosca historicamente costuma colocar atletas no mercado de títulos antes de estarem totalmente prontos. Mesmo com Taira também relativamente recente no circuito, o tempo adicional pode representar uma vantagem caso o combate exija que ambos “separem” detalhes no meio da guerra.

Para o desfecho previsto, a projeção é de que Taira finalize na segunda parcial: o palpite oficial indica que o desafiante encontre uma submissão até o Round 2. A previsão também aponta para uma vitória dentro da distância, acompanhando a leitura de que a luta pode migrar cedo para situações onde Taira consiga ditar o “onde” e o “quando” do combate e estabelecer as condições para vencer.

Como luta de co-main event, a expectativa é de que Van e Taira entrem no octógono por volta das 22h45 (horário de Brasília), com transmissão pelo serviço Paramount+.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.