Sean Strickland tem um estilo de fala que lembra o próprio jeito de lutar — ou talvez seja o contrário. Em qualquer dos casos, há semelhanças claras entre a forma como o ex-campeão conduz respostas e a maneira como costuma impor pressão nos combates. Aos 35 anos, ele é direto, agressivo e, com frequência, toma a frente do assunto, adiantando o que quer dizer antes mesmo de o adversário conseguir terminar a pergunta. Muitas vezes, Strickland nem chega a responder exatamente o que foi perguntado: ele direciona o discurso para o que considera mais importante, atacando a conversa como atacaria um oponente no octógono.
Essa mesma energia, tanto dentro quanto fora da luta, recolocou Strickland em mais uma chance de disputar cinturão. O desempenho contundente diante de Anthony “Fluffy” Hernandez foi o que o colocou novamente na rota de uma luta pelo título, agora contra o campeão Khamzat Chimaev no UFC 328, em Newark, no estado de Nova Jersey.
Ao detalhar o intervalo entre uma apresentação e outra, Strickland afirmou que a aproximação para o compromisso com Chimaev aconteceu pouco tempo depois do combate contra Hernandez. “Acho que pode ter sido em duas semanas”, disse ele, explicando o ritmo da preparação. Segundo o lutador, voltar para treinos em sequência tem feito bem ao corpo: “Foi ótimo. O peso está confortável indo de um camp para o outro, o tronco e o preparo físico estão afiados”.
Strickland também reforçou estar sem problemas físicos. “Estou bem. Sinto que estou pronto. Fiz um camp excelente. Não tive lesões — é muito bom não ter dores, nem incômodos. Estou me sentindo ótimo”, completou.
No cenário do início da temporada, Nassourdine Imavov era visto por muitos como o principal desafiante e o nome mais provável para enfrentar Chimaev no momento em que o campeão decidisse colocar o cinturão em jogo pela primeira vez. O francês-russo iniciou o ano com uma finalização no segundo round sobre Israel Adesanya, em uma noite realizada na Arábia Saudita, e fechou a trajetória recente dominando Caio Borralho em Paris.
O resultado desse caminho foi um momento de força: Imavov emplacou cinco vitórias seguidas e acumulou um cartel de 8-1 nas últimas dez lutas, com apenas um tropeço. Curiosamente, a derrota veio justamente em uma luta de curta antecedência contra Strickland na categoria de meio-pesados, em 2023. Mesmo parecendo “esperar na fila” para encarar o campeão, Strickland foi o escolhido para assumir a missão — e ele acredita que há uma razão específica para isso.
Para Strickland, a chave é simples: ele enxerga que é o único lutador capaz de derrotar Chimaev no plantel da divisão. “Não tem ninguém na categoria que consiga vencê-lo além de mim”, declarou. Na sequência, ele tratou Chimaev como um adversário perigoso, mas questionou a postura do campeão: “Ele é o campeão, mas é um cachorro feroz. Eu tenho segurança aqui, tenho certeza que ele também tem. Só que, se você é tão ‘dog’ e tão covarde assim, como não consegue ser homem por cinco dias?”. O ex-campeão seguiu provocando e resumindo sua leitura psicológica do duelo.
Mais do que responder a uma pergunta, Strickland transformou a fala em uma mensagem para Chimaev, colocando publicamente os pensamentos que levará para o octógono neste fim de semana. A forma de encarar o desafio ficou evidente: ele quer que a própria narrativa dele vire pressão adicional no campeão que enfrentará.
Quando foi questionado sobre por que acredita que é justamente ele quem não só consegue encarar o estilo de Chimaev, mas também tem condições de vencê-lo no fim, Strickland foi direto e prometeu que o que diz vai aparecer no comportamento dentro do combate. “Eu só acho que ele é um cara fraco”, afirmou. “Todo mundo que ele enfrenta desaba. Só que eu não desabo. Eu não quebro. Você vai ver.”
Com a próxima pergunta desenhada na cabeça, Strickland respondeu antes mesmo de ouvir o restante, como se antecipasse o contato. As frases vieram rápidas, com a mesma sensação de interrupção que um golpe de impacto teria: quase como um jab interceptador, ou como um chute de corpo que ele costuma encaixar com eficiência quando está no ritmo certo.
“É uma luta paciente, inteligente. O nocaute técnico vai aparecer no quarto ou no quinto round. Só seja paciente e inteligente”, previu, deixando claro o plano para o decorrer do duelo.
Fora do octógono, paciência talvez não seja o traço mais forte do lutador em entrevistas. Mas na arena, Strickland construiu a carreira justamente na capacidade de aproveitar o que o adversário oferece e transformar cada oportunidade em vantagem. Quando está bem ajustado, focado e com a mira alinhada, ele se torna um atleta extremamente inteligente taticamente — e é essa combinação que ele acredita que será decisiva contra Chimaev.
Com a semana de preparação ganhando corpo, Strickland entra no evento em meio ao clima de entrevistas de luta marcada, com falas envolvendo nomes como Sean Brady, Joshua Van, Khamzat Chimaev e Tatsuro Taira. Resta saber se a confiança do meio-pesado brasileiro não — no caso, do próprio Strickland, que busca o cinturão — será suficiente para derrubar o campeão e transformar a chance em conquista.
A pergunta final, então, é se as promessas vão se converter em realidade: Strickland quer desbancar Chimaev e repetir o feito para se tornar campeão do UFC pela segunda vez na divisão dos médios. E, para ele, a resposta já está dada. “Sim”, disse, cravando que a história precisa terminar do jeito que ele imagina.

