Tommy Gantt espera meses e chega ao UFC pronto para encarar o octógono

Já faz um bom tempo. Na verdade, tempo demais—especialmente para Tommy Gantt. O lutador acumula meses longe do octógono e, para quem vem de uma rotina acelerada de apresentações, oito meses soam como uma eternidade.

A espera de Tommy Gantt e o desejo por luta

Gantt chega ao UFC depois de ficar sem competir desde setembro. No cartel, ele ostenta 11 vitórias no MMA e ainda não estreou no torneio (até aqui, 0-0 no UFC). Para ele, a pausa longa não é apenas “esperar o momento”: é algo que pesa na rotina de quem vive de luta.

Em conversa recente, Gantt comentou que, antes de ganhar contrato na Dana White’s Contender Series, a frequência era outra. Segundo o atleta, nos períodos anteriores da carreira ele costumava ficar semanas entre um compromisso e outro—e que agora a distância entre combates chegou a oito meses.

“Antes era sempre questão de semanas para a próxima luta. Só que agora já foi oito meses, ou algo muito perto disso. Eu só quero tirar esses grilhões de mim, de verdade”, disse Gantt.

Da Dana White’s Contender Series ao UFC: o salto rápido

Antes da aparição na Dana White’s Contender Series, em setembro, que lhe garantiu o contrato com o UFC, Gantt já chamava atenção por seu histórico no MMA. Ao longo de toda a carreira, ele mantinha uma média de 27 dias entre uma luta e outra—ritmo que, segundo ele, não é comum para quem está começando a consolidar espaço no nível mais alto.

O caminho de Gantt até o UFC foi incomum. Em apenas 14 meses, ele somou campanha perfeita no início da trajetória: foram 3 vitórias em 3 lutas no período amador e, depois, 10 vitórias em 10 combates como profissional (com 1 “no contest” no total das lutas pro).

Wrestler de base forte e carreira construída no “vai e luta”

Gantt estreou como amador aos 30 anos. A partir daí, a corrida para conseguir oportunidades foi intensa. Com credenciais relevantes no wrestling universitário—sendo um All-American da Divisão I da NCAA pela North Carolina State University—ele se tornou um nome cobiçado em regiões, mas sem que isso significasse “fácil agendamento”. O atleta contou que, por sua reputação, não parecia haver filas prontas para enfrentá-lo, e que a busca por lutas acabou sendo feita na marra.

De West Virginia a Iowa e Connecticut, Gantt foi acumulando confrontos e causando impacto no circuito. Para conseguir manter o ritmo, ele recorreu a uma pessoa que chama de “homem misterioso”, alguém que, segundo Gantt, acionou promotores diferentes pelo país.

O “homem misterioso” e a logística das lutas

Na narrativa do lutador, o planejamento era simples: aceitar oportunidades que apareciam, mesmo que a situação fugisse do padrão. Ele enfrentava adversários em categorias diferentes, aceitando lutas com variações de peso e sem muito tempo para ajustar o cenário.

“Foi maluco. Eu estava lutando lá pelos 170, 185, coisas assim, de acordo com o meu peso andando. Em uma luta específica, eu tive que fazer a pesagem com praticamente tudo o que eu tinha—até com as roupas e algumas coisas nos bolsos—pra ultrapassar o limite de 185 e conseguir lutar”, explicou.

Gantt ainda detalhou que a ajuda vinha de um treinador que, além de preparar o atleta, fazia a ponte com as oportunidades. “Era um dos meus coaches. Ele até está fazendo o corner comigo neste fim de semana. É o cara que aparece com uma máscara ou alguma coisa assim. Eu chamo ele de ‘homem misterioso’. Mas, no fim, era só ele marcando as lutas pra mim. Ele falava: ‘Você está começando tarde, então precisa lutar, precisa lutar e ganhar experiência. Porque quando chegar nas ligas maiores, não vai ter mais esse tipo de coisa’”, completou.

Críticas sobre adversários e a escolha por evolução gradual

Com tanto combate, Gantt também enfrentou críticas de analistas de prospects, principalmente sobre a qualidade do cartel de adversários. O próprio atleta reconheceu que havia preocupação com o “nível” do caminho, mas explicou que o cenário tinha limitações: muitos lutadores recusaram enfrentá-lo.

“Eu sei que algumas pessoas tinham dúvidas sobre a força do meu cartel, mas tem bastante gente que me recusou e eu só acabei entrando no que apareceu. Foi um curso acelerado. No fim, eu acho que deu certo, porque eu sinto que agora estou preparado. Eu vi bastante coisa do outro lado do cercado e, sinceramente, eu sinto que estou pronto”, disse.

Ele ainda reforçou a ideia de que acumulou vivência suficiente para o próximo passo. “Eu já fui testado um pouco, e chegou a hora de ir para cima”, concluiu.

DWCS: vitória rápida e a visão de Gantt sobre “pressão”

O que Gantt imaginava acabou se confirmando na Dana White’s Contender Series. Na competição, ele venceu rapidamente Adam Livingston, um adversário que vinha invicto e que já havia competido em LFA e CFFC.

Gantt descreveu que a sensação foi “correta” desde o início, e evitou a narrativa comum de que a luta principal foi decidida por pressão. Para ele, o foco é outra lógica: aprender e executar o plano de treino.

“Pareceu certo. Eu não compro muito essa história de pressão. Eu vejo como uma espécie de privilégio. Eu não acredito que vitórias e derrotas ‘acontecem’ do nada. É vitória e é aprendizado. Eu só entrei e fiz o que eu fui treinado pra fazer”, afirmou.

Ele também explicou como chegou preparado, lembrando que treinou com Livingston anteriormente e que, durante as semanas que antecederam o combate, trabalhou pontos específicos do que esperava do adversário.

“Eu gosto de dizer que as lutas são vencidas no treino. Eu sabia disso antes porque eu treinei com o cara. Eu sabia no que ele era bom e no que eu precisava ajustar. Então eu passei aquelas seis semanas fazendo exatamente isso antes de entrar no octógono. Era só questão de tempo até eu colocar minhas mãos nele. E o resto é história”, completou.

Mudanças de cidade e o salto para a The Academy Fight Club

Natural de Illinois, Gantt cresceu em uma família com oito filhos e mais tarde se mudou para a Carolina do Norte depois de conhecer o recrutador e futuro mentor Lee Pritts. A partir desse encontro, ele decidiu seguir na universidade e se comprometeu com a NC State.

Mais recentemente, ele se transferiu para treinar no oeste dos Estados Unidos, na The Academy Fight Club, em Gilroy, Califórnia. O local, segundo a matéria de origem, foi aberto recentemente por Daniel Cormier.

O detalhe que conecta as histórias é que Cormier foi companheiro de equipe de Gantt durante a fase universitária do wrestling, justamente sob o mesmo treinador de Gantt na NC State—Pat Popolizio.

Daniel Cormier como treinador: elogios de Gantt

Gantt tratou a experiência de treinar com Cormier como algo “espetacular” e também destacou que a estrutura ainda está em fase de adaptação, mas que isso não diminui a qualidade do trabalho.

“É espetacular. Pra ser honesto, é um lugar relativamente novo também, então a gente vai meio que descobrindo as coisas no caminho. Mas ser treinado por ele é algo sem comparação. Ele solta pequenas ‘joias’ o dia inteiro, todos os dias”, disse.

O lutador também ressaltou o cuidado com o elenco. “E não é só isso: ele cuida muito bem dos caras. Ele colocou a gente em moradia aqui pra todo o período, organizou o treino. Temos treinado contra adversários difíceis e equipes de outros lugares que estão por aqui”, afirmou.

Estreia no UFC: objetivo de impacto contra Artur Miniev

No UFC Fight Night 276, marcado para sábado, Gantt terá a chance de fazer um pronunciamento logo na estreia promocional. O adversário será Artur Miniev, que entra como substituto de curta antecedência (step-in). Miniev chega com retrospecto de 7-0 no MMA e ainda não tinha luta registrada no UFC até então.

Com 33 anos, Gantt acredita que uma vitória decisiva o coloca mais perto de um cenário em que possa competir com mais frequência. Além disso, ele definiu como meta concluir a primeira etapa do compromisso inicial de quatro lutas no UFC ainda dentro do calendário deste ano.

“Eu quero mandar uma mensagem forte. A parte boa agora é que eu nem tinha percebido isso na Contender Series: eu fui com uma urgência um pouco maior. Estou empolgado pra poder lutar com meu estilo de verdade neste sábado”, disse.

Gantt ainda projetou como pretende atuar. Para ele, o estilo tende a ser “amigável para fãs”: haverá tentativa constante de finalização e pressão contínua.

“Eu faço grappling e essas coisas, mas eu sou o tipo de atleta que está procurando finalizar em todos os segundos da luta. Não tem um momento em que eu penso ‘deixa eu relaxar ou descansar aqui’. É ‘não’. Eu quero causar dor e dano o tempo todo, só ir triturando o cara aos poucos”, declarou.

Por fim, ele conectou o desempenho com o planejamento de longo prazo. “Se eles fecharem meu calendário do jeito que eu espero, eu quero sair desse primeiro contrato ainda este ano. Seria incrível. Eu gosto de ir passo a passo, respeitando o esporte”, finalizou.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.