Tony Bellew critica Dana White e alerta que mudanças podem prejudicar atletas do UFC

Tony Bellew pediu que Dana White se lembre de quem, de fato, são as principais estrelas do UFC. O ex-campeão mundial dos pesos-cruiser pela WBC criticou a linha adotada pelo executivo após a entrada do presidente da organização em um novo segmento de combate, com o lançamento da Zuffa Boxing, e reforçou que acredita que mudanças propostas podem prejudicar diretamente os atletas.

A fala de Bellew ganhou força em meio ao debate envolvendo o Ali Revival Act, iniciativa que pretende alterar a Lei de Reforma do Boxe Muhammad Ali. O projeto, segundo a discussão pública, vem recebendo apoio e também enfrentando resistência. Entre os pontos contestados estão trechos que, na visão de críticos, permitiriam que promotores passassem a controlar títulos e rankings, além de reduzir a transparência financeira.

Para Bellew, que carregou o cinturão da categoria cruiserweight em seu auge, a proposta é inaceitável. Em participação no podcast “Fight Your Corner”, ao lado do campeão dos pesados do UFC, Tom Aspinall, o inglês afirmou que a ideia não deveria avançar, sustentando que uma eventual implementação seria a pior coisa possível para o boxe.

“Não pode acontecer. Se o Ali Act for aprovado, será a pior coisa de todas e não pode ser. Seria o cenário mais assustador já visto no boxe, porque acabaria destruindo o sentido do esporte. Não é nem uma questão de modelo de negócios ou dinheiro. Você estaria permitindo que uma única pessoa controle toda a narrativa e controle tudo o que envolve o lutador. E entenda: ele nem está lutando”, disparou Bellew.

O ex-campeão seguiu com uma comparação para explicar sua indignação. Ele disse que, em vez de o público acompanhar quem realmente faz o espetáculo dentro do ringue, a atenção seria desviada por interesses de bastidores, com um agente externo tentando se colocar acima do que acontece durante a luta.

“Imagine entrar numa arena e todo mundo veio ver as duas pessoas. Este é o ringue e quem está ao redor vem para ver o que esses dois caras vão fazer. Mas tem alguém sentado na primeira fila querendo mais do que todo mundo veio assistir. Ninguém veio para te ver, ninguém veio para te ver sentado lá na frente. Ninguém veio para ver sua cabeça raspada sentada ali. Eles vieram para ver o que esses dois fazem. E são esses caras que deveriam ficar com a maior parte”, acrescentou.

Bellew também afirmou que não se importa com a origem de quem constrói a estrutura do negócio, argumentando que o trabalho real não é de quem apenas organiza oportunidades, mas de quem coloca o corpo em jogo. Na avaliação dele, a retirada de pilares ligados ao Ali Act tiraria espaço justamente de quem movimenta o espetáculo.

“Eu não ligo para seu histórico e para o que você construiu do zero. Você não sangrou. Você não suou. Você não encarou a punição para ajudar a construir tudo isso. Esses lutadores aqui dentro fizeram. E é isso que as pessoas esquecem. E o Ali Act sendo retirado fará exatamente isso: vai tirar dessas duas pessoas que todo mundo veio ver”, concluiu.

Exemplo de Aspinall e o impacto nas negociações

Para sustentar a tese de que maior controle promocional e menor separação entre promotores e gestores podem acabar prejudicando atletas, Bellew citou o tratamento dado a estrelas do UFC, usando Tom Aspinall como referência. Em 2023, Aspinall conquistou um cinturão interino dos pesos-pesados, fez a primeira defesa com sucesso e, após a aposentadoria de Jon Jones em 2025, foi promovido ao posto de campeão absoluto. Na sequência, porém, viu sua defesa de título contra Ciryl Gane terminar de forma desastrosa em “no contest” porque o rival acertou os olhos durante a luta.

Na leitura de Bellew, o momento atual de Aspinall deveria ser justamente o auge financeiro da carreira, por estar no topo. Ainda assim, segundo ele, o lutador não estaria recebendo perto do que vale.

“Ele é campeão mundial dos pesados e ainda não conseguiu maximizar o potencial de ganhos. … E o Tom está numa posição agora em que, no MMA, o potencial de arrecadação e as receitas aparecem quando ele chega ao topo”, disse Bellew. “Mas acredite em mim: antes dele ter esse cinturão, a receita dele provavelmente era parecida com a de um lutador de quatro ou seis rounds como eu. É assim que é constrangedor na disciplina dele”, completou.

O ex-campeão então voltou ao argumento central: a existência de um controlador único do projeto, na visão dele, limita o teto de ganhos e impede que o lutador negocie em condições mais justas.

“É assim que é constrangedor na modalidade dele, porque uma pessoa tem o controle do projeto inteiro. Uma pessoa manda em tudo o que você pode ganhar e no que você consegue monopolizar”, afirmou.

Carreira de Bellew e críticas ao modelo

Bellew relatou que conquistou seu primeiro título mundial em 2016 e encerrou a carreira apenas dois anos depois. No fim do caminho, ele ainda enfrentou nomes de alto perfil, como Oleksandr Usyk e David Haye, em lutas que marcaram sua despedida.

Desde a aposentadoria, ele tem atuado com frequência como comentarista e analista, e disse estar ansioso para expor diretamente a White e os responsáveis pela empresa sobre o que considera problemas nas práticas do negócio.

“No fim das contas, eu me importo com os lutadores. Seja no MMA ou no boxe, eu quero que eles recebam o que merecem. Você não deve ganhar mais do que merece, mas também deve receber o que, em geral, entrega. E na profissão do Tom, está muito fora do alvo. É verdadeiramente assustador. É quase triste, no limite”, declarou.

O ex-campeão também citou a expectativa de que Aspinall ganharia um valor milionário na próxima luta, apontando como esse tipo de cifra chama atenção do público — mas, para ele, o principal é entender o esforço necessário para chegar até aquele patamar.

“Eu não sei se vocês querem falar isso, mas é bem conhecido que o Tom deveria receber um milhão de dólares na próxima luta e as pessoas vão dizer: ‘isso muda a vida’. Sim, muda. Mas você sabe o que ele passou para ganhar isso?”, questionou Bellew.

Na sequência, Bellew comparou o trabalho em campo do atleta a rotinas de quem poderia se manter em empregos comuns e ainda assim crescer dentro de uma empresa, destacando que, no caso dos lutadores, a trajetória envolve desgaste físico e risco real.

“Tem um cara que poderia trabalhar no McDonald’s por 10 anos e, provavelmente, conseguir chegar a gerenciar o McDonald’s sozinho. Não é uma crítica ao McDonald’s, de forma alguma. Mas, colocando em perspectiva, esse cara levou socos, levou porrada, foi nocauteado e viveu essa rotina de pancada o tempo todo. O objetivo, sim, é vencer o campeonato mundial dos pesados, claro. Esse é sempre o sonho de vida. Ele já conseguiu”, disse.

Ele continuou afirmando que, após conquistar cintos e atingir o topo, o foco seguinte deveria ser a segurança financeira da família. Na avaliação de Bellew, é justamente isso que o lutador deve receber ao chegar ao máximo do esporte, sem ficar sujeito às decisões de outras pessoas.

“Depois que você ganha esses cinturões, quando você vira isso, quando você ergue aquele título e realiza aquele objetivo, você cria uma família e o próximo objetivo, depois de conquistar aquela cinta, é ter estabilidade financeira. É isso que você merece quando chega ao topo do esporte. Você não merece ser comandado por mais ninguém. Sabe por quê? Porque você é o rei naquela modalidade. Você é o rei daquele esporte”, finalizou Bellew.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.