A defesa do cinturão peso-meio-pesado de Jon Jones sobre Glover Teixeira, em 2014, segue como um daqueles marcos históricos do UFC por mais de um motivo. Foi em 26 de abril de 2014, em Baltimore, no card do UFC 172, que o então campeão — com 26 anos na época — deixou Teixeira em um cenário de desgaste físico evidente no combate principal. Jones dominou ao longo dos rounds, castigando com violência real: acertando cotoveladas, conectando chutes na cabeça, alternando ataques em diferentes ângulos e ainda recorrendo a sequências mais difíceis de prever, como investidas giratórias e variações de pressão que dificultavam qualquer tentativa de reação do adversário. Ao final, os jurados tiveram um consenso favorável ao campeão, com decisão que fez Jones “varrer” as pontuações e, além disso, ampliou um recorde importante na franquia ao alcançar a sétima defesa consecutiva do título na categoria.
Mesmo com a vitória e com o que o combate entregou em termos de agressividade e volume ofensivo, Jones continuou — e essa é a parte que mais pesa na lembrança recente — sendo alvo de críticas, especialmente por um detalhe específico do estilo. Por anos, o lutador foi questionado por usar dedos estendidos em direção ao rosto dos oponentes, com foco recorrente no entorno dos olhos. Esse tipo de ação, ainda que nem sempre resultasse em um golpe direto que atingisse a região ocular, passou a ser tratado como um comportamento problemático, e o debate em torno disso só ganhou força com o tempo. No confronto contra Teixeira, a situação chegou a um ponto de ebulição: depois do duelo, o próprio presidente do UFC, Dana White, afirmou que era necessário tomar providências. A cobrança veio também de autoridades, de outros atletas e das comissões responsáveis por supervisionar o esporte, até que, em 2016, a estrutura das regras foi ajustada.
Com a mudança nas regras unificadas do MMA, ficou definido que abrir a guarda com a mão à frente e os dedos estendidos passou a ser considerado falta, mesmo quando a ação não termina em uma “pancada” que provoque um toque efetivo nos olhos. Na prática, isso alterou o protocolo dentro do octógono: hoje, é comum o árbitro advertir lutadores para fecharem as mãos antes de avançar, como forma de reduzir a chance de qualquer contato não intencional ou de manobra considerada irregular. Muitos passaram a chamar essa conduta de “Regra Jon Jones”, em referência direta ao período em que o tema dominou as discussões sobre o campeão.
Fica, porém, a dúvida: a medida realmente mudou algo de forma concreta? Há quem diga que não teve impacto suficiente, e o debate continua na esteira de exemplos recentes. Um nome que costuma surgir quando esse ponto é mencionado é Tom Aspinall, citado justamente por colocar em questão se a regra, sozinha, garante que o problema vai desaparecer de vez em situações futuras. Ainda assim, a regra existe e faz parte do conjunto de decisões que procuram padronizar a conduta e preservar a integridade do atleta durante as trocas, especialmente em posições em que dedos estendidos podem virar vantagem indevida.
Há ainda outro aspecto importante para entender a noite de Jones contra Teixeira: trata-se, em grande medida, da última vez em que uma luta do lutador não vinha acompanhada por algum tipo de controvérsia ligada ao próprio Jones. É verdade que ele teve um episódio fora do octógono em 2012, quando foi preso após dirigir sob influência e colidir com um poste. Mas, depois do duelo diante de Teixeira, em abril de 2014, Jones entrou numa fase em que o assunto passou a extrapolar o desempenho esportivo com mais frequência. E quem acompanha o UFC sabe exatamente o que isso significa quando alguém menciona “o outro lado” da carreira do campeão. Por isso, revisitar a vitória no UFC 172 é também revisitar o fim de um ciclo — o momento em que a era “mais limpa” do Jones ainda estava mais próxima do que viria depois.
Assim, vale reencontrar esse recorte: a vitória sobre Glover Teixeira no UFC 172, o último capítulo de um período em que o impacto do combate ainda não vinha tão rapidamente misturado a ruídos externos, e o desempenho de Jones se tornou ainda mais lembrado pelo peso histórico que carregou na trajetória do peso-meio-pesado.

