UFC Freedom 250: Zahabi e brasileiros em ascensão no radar do octógono

Dois confrontos em sequência no radar do UFC chamam atenção não só pelo peso esportivo, mas também pelo contexto: lutadores que ainda tentam ganhar reconhecimento na mesma proporção em que constroem resultados. E, no meio dessa disputa por espaço — tanto no ranking quanto no imaginário do público — aparecem nomes como o canadense radicado em Montreal Jason Zahabi, o brasileiro radicado em Daukaus Davi Daukaus, e o peso-pena do Jackson Wink MMA, Gervonta Garcia, todos buscando consolidar trajetórias com vitórias que podem mudar o destino de 2026.

Zahabi x Sean O’Malley: a chance de romper o “teto”

Uma das forças que trabalha contra Zahabi, no que diz respeito ao reconhecimento que a sequência de vitórias vem cobrando, é justamente aquilo que torna o momento e esse pareamento com Sean O’Malley tão instigantes: o atleta franco-canadense em ascensão tem 38 anos. É uma idade bem acima do que a maioria costuma esperar quando um lutador começa uma escalada consistente em direção ao topo, especialmente nas categorias mais leves. No peso-pesado, talvez isso faça mais sentido para o público, mas no peso-galo a disputa para entrar no Top 15 é tão dura que Zahabi precisou chegar a cinco vitórias consecutivas para enfim ver seu nome dentro do ranking.

O desafio extra para Zahabi não é apenas o relógio biológico ou o nível do caminho; ele também enfrenta o fato de que seus dois triunfos mais recentes foram lutas muito competitivas, envolvendo figuras queridas do público. Ambos os combates terminaram em decisões, e uma parcela considerável de fãs acredita que o desfecho poderia ter sido outro. No mês de maio, no UFC 315, Zahabi reagiu para vencer Jose Aldo — ex-campeão dos penas e lenda do UFC. Depois disso, cinco meses mais tarde, ele viajou até Vancouver e voltou a sair com um resultado favorável em uma decisão dividida, em mais um duelo apertado contra Marlon “Chito” Vera.

Por que Zahabi merece ser observado

Ainda assim, Zahabi não deveria ser ignorado por causa da irritação de parte da torcida que viu suas duas vitórias atingirem favoritos. Ao longo dessa fase de resultados, o lutador mostrou base sólida, trabalho defensivo muito acima da média e uma resistência mental que vai além do que muitos imaginam. Ele também já provou que sabe voltar quando tudo parece inclinar contra: no ano anterior, depois de ficar à beira de ser finalizado, conseguiu derrubar Aldo.

Com mais de 20 anos dentro do esporte, Zahabi construiu seu repertório aprendendo com o irmão Firas e ao lado de nomes que passaram pelo Tristar Gym, em Montreal. Dentro do octógono, ele age como um estrategista afiado, fiel ao próprio estilo, entendendo como aproveitar instantes específicos e ganhar rounds por mérito, não por acaso.

Esse confronto representa uma oportunidade enorme para o azarão em alta na divisão. Se Zahabi vencer O’Malley, abre-se uma janela ainda maior para o segundo semestre de 2026, com possibilidades mais amplas para sua escalada.

Daukaus x Bo Nickal: retorno em grande vitrine

O retorno de “The D’arce Knight” foi um dos melhores enredos de 2025. Agora, Daukaus ganha uma chance de categoria de evento principal, com o desafio de encarar Bo Nickal em Washington no dia 14 de junho. A história recente do atleta ajuda a entender por que esse duelo vira um capítulo importante para ele escrever.

Daukaus começou a ganhar projeção após vencer cedo na terceira temporada do Contender Series do Dana White, mas não recebeu contrato mesmo com status de invicto como prospect. Ele voltou ao CFFC, onde defendeu seu cinturão dos médios duas vezes com sucesso, até ser chamado para um combate em curta antecedência contra Brendan Allen. Na luta, Daukaus lutou com garra, porém terminou do lado errado das cédulas.

Nos seis confrontos seguintes, o nativo da Filadélfia registrou campanha de 2-3, com um “no contest”. No fim desse período, sofreu duas derrotas por finalização em sequência para Roman Dolidze e Eryk Anders, o que custou a vaga no elenco.

A reviravolta e a sequência que levou ao UFC

Novamente, Daukaus retornou ao CFFC e dominou. Depois, recuperou o cinturão e conseguiu defendê-lo por duas vezes. A partir daí, veio outro chamado em cima da hora — só que desta vez não foi para Las Vegas, e sim para Xangai. Ele precisou de apenas 43 segundos para encerrar Michel Pereira. Menos de três meses depois, no Madison Square Garden, Daukaus levou apenas 50 segundos para finalizar Gerald Meerschaert com sua finalização característica: o mata-leão d’arce, ampliando sua sequência de vitórias para seis.

Agora, como pai de dois filhos, Daukaus chega mais estável, mais seguro e com um plano mais agressivo na forma como atacou seus dois últimos rivais. Enquanto Nickal é um lutador com base de wrestling universitário e vinha de um nocaute impressionante na última saída, a experiência profissional dele ainda é curta: são apenas nove lutas no currículo como profissional.

Daukaus, por sua vez, é faixa-preta de Jiu-Jitsu brasileiro e não tende a recuar ao entrar em emaranhados de grappling com Nickal. E, durante essa fase atual de resultados, ele também mostrou que está carregando mais potência nos golpes de trocação do que na primeira passagem pelo UFC.

Assim como Zahabi, Daukaus é um nome menos conhecido para o grande público — mas capaz de virar o jogo e garantir uma terceira vitória seguida no UFC em Washington ainda nesta segunda metade do verão.

Gervonta Garcia: sequência no peso-pena e compromisso com o resultado

No peso-pena, apenas um lutador do Top 15 mantém uma sequência de vitórias dentro do octógono mais longa do que Garcia: Movsar Evloev. O atleta segue invicto e muitos acreditam que ele será o próximo desafiante de Alexander Volkanovski pelo cinturão ainda neste ano.

Garcia vem acumulando vitórias com consistência desde outubro de 2022. Naquela ocasião, finalizou Chase Hooper em apenas 92 segundos. Depois, em sequência, emplacou cinco triunfos por paralisação. Já em sua primeira vez tendo de lidar com a distância, enfrentou Calvin Kattar e foi até o fim para conquistar um lugar no ranking em julho do ano passado.

Em novembro, o lutador de Albuquerque voltou a encontrar o caminho do nocaute e, em sua primeira luta principal como main event, contra David Onama, venceu e estendeu sua série para sete vitórias, chegando com moral para o duelo do próximo mês contra Diego Lopes.

O que mudou na carreira desde que encontrou o peso ideal

Com 33 anos e formado pelo Jackson Wink MMA, Garcia demorou para ajustar o peso e realmente se firmar como lutador. Porém, depois que encontrou o encaixe, a evolução ficou evidente. Ele não é do tipo que “caça finalizações” a qualquer custo: tem paciência no volume, carrega força tanto com a mão direita quanto com a esquerda e consegue esperar o momento certo para que as brechas apareçam. Quando percebe a janela, transforma a leitura em finalização e fecha qualquer tentativa de recuperação do adversário.

Garcia é o último homem a derrotar Melquizael Costa, que será o protagonista do card neste fim de semana em confronto contra Arnold Allen. Desde então, Costa avançou no ranking e passou “Mean Machine”. Ainda assim, Garcia tem a chance de reescrever esse cenário: basta incluir Diego Lopes na lista de vítimas no próximo mês.

O brasileiro/latino? — na verdade, trata-se do lutador que faz frente ao desafio: Lopes é um adversário que não tem receio de lutar no vai e vem. Ele sempre mostrou disposição para trocar e, quando a conexão acontece, tem o tipo de explosão capaz de mudar o rumo da luta rapidamente, caso encontre o alvo.

Reconhecimento, vitórias e o “momento de sol”

Mesmo que os resultados não saiam exatamente como qualquer um dos três competidores gostaria, o fato é que é positivo vê-los, finalmente, ganhando espaço no centro das atenções. O que fizeram recentemente faz jus ao destaque, e não surpreende se a sequência continuar abrindo mais portas daqui para frente, independentemente de como os combates se desenharem no South Lawn no próximo mês.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.