Volkov critica luta do UFC White House e questiona desafio de Pereira ao cinturão

Alex Pereira terá uma oportunidade de “chegar à grandeza” no coevento principal do UFC White House: o brasileiro subirá de categoria até o peso-pesado para encarar Ciryl Gane pelo cinturão interino em 14 de junho. Apesar do tamanho da chance, o ex-desafiante Alexander Volkov, ranqueado entre os meio-pesados/pesados, não gostou da formação do duelo e criticou a lógica por trás do confronto.

Volkov diz que não é uma disputa “real” de título e chama a luta de estratégia de marketing

Campeão do Bellator no passado, Volkov enxerga que sua única derrota desde 2022 foi uma decisão dividida considerada polêmica contra Gane. Ainda assim, o russo entende por que o UFC colocou o popular “Poatan” no caminho do cinturão após a conquista nos pesos médios e meio-pesados, mas sustenta que o acerto do card não seria justo.

Em entrevista, Volkov afirmou que, independentemente do desfecho, a leitura do UFC seria a mesma: se Gane vencer, ele derrotará uma grande estrela; se Pereira ganhar, adicionará um terceiro título importante ao currículo, o que beneficiaria o evento. Para ele, o resultado interessaria mais ao “movimento” midiático do que a uma disputa de legitimidade esportiva.

“Não importa quem vença. Se o Gane ganhar, ele vai bater uma estrela do UFC e vai subir mais um degrau na exposição. Se o Alex Pereira vencer, ele vai somar mais um título importante na carreira. De qualquer forma, o UFC sai ganhando. E, com certeza, não será uma luta monótona. Mas não é, na minha visão, uma disputa de título de verdade. Parece mais uma luta para promoção e mídia”, declarou Volkov.

Para o russo, o duelo é bom para ambos por evitar confronto com lutadores “wrestlers”

Volkov também argumentou que o confronto pode ser benéfico para os dois lados porque não os colocaria diretamente diante do tipo de ameaça que um wrestler costuma representar. Na leitura do atleta, Gane não viveu pressão semelhante em confrontos recentes, enquanto Pereira também não teria sido testado com frequência contra grapplers de alto nível.

“O [Gane] nunca esteve sob pressão de um wrestler. Ele não enfrentou alguém com a estrutura de um Curtis Blaydes, que consegue levar para baixo e segurar por um tempo, bater bem no chão e causar dano com boa sequência de ground and pound. A gente não vê ele nessa situação com frequência. Nós vimos um pouco disso no terceiro round quando ele lutou comigo, mas eu não sou um wrestler. O UFC, em geral, colocou adversários bem confortáveis para ele”, disse Volkov.

“E o Alex Pereira também é um lutador do kickboxing, então não vimos ele sendo cobrado com bons wrestlers. Por isso, esse duelo é bom para os dois”, completou.

Críticas ao momento de Pereira: Volkov cita derrota recente para Ankalaev e diz que o peso-pesado é outra realidade

O veterano reconheceu o talento de Pereira e as atuações “malucas” que ele vem mostrando, mas ponderou que, antes de vencer, o brasileiro teria sido derrotado por Magomed Ankalaev. Volkov lembrou que, quando esteve no mesmo ciclo de treinos, viu Ankalaev com costelas lesionadas e, ainda assim, acredita que Pereira teria sido beneficiado por esse contexto.

Na sequência, Volkov questionou a lógica de uma subida imediata ao peso-pesado com chance de cinturão, já que, segundo ele, seria uma categoria na qual Pereira ainda não teria vivenciado o mesmo tipo de teste. Para o russo, isso teria mais a ver com marketing do que com mérito esportivo puro.

“Ele é muito talentoso e mostra performances absurdas. Mas, para ser sincero, a luta anterior dele, antes de ele ganhar, foi uma derrota para o Ankalaev. Depois ele venceu o Ankalaev, e eu estava nesse camp. O Ankalaev estava com costelas quebradas, e talvez ele tenha entrado na luta com excesso de confiança. Provavelmente o Pereira sabe disso e por isso empurra tanto. Ele perde para aquele cara, depois vence mesmo com o adversário com costelas quebradas, e agora quer subir uma categoria onde ele nunca lutou. E ainda assim colocam ele direto para disputar o cinturão. Em lógica, não faz sentido. É só marketing. Não é mais do que isso: seguidores, fãs e engajamento. Pode ser bom para o UFC, pode atrair mais gente, pode deixar o evento mais barulhento. Mas não é, necessariamente, a história de um campeão de verdade”, declarou.

Volkov destaca que precisa vencer Waldo Cortes-Acosta para abrir caminho ao cinturão — e diz que “nada é garantido”

Volkov volta ao octógono neste sábado, no card principal do UFC 328, em Newark, nos Estados Unidos, contra Waldo Cortes-Acosta. O russo acredita que uma vitória convincente pode colocá-lo novamente na rota do título, embora ressalte que isso não depende apenas dele.

“Para ser honesto, eu não entendo totalmente a política do UFC em relação a mim. Às vezes eu escuto coisas diferentes sobre o meu futuro na organização. A situação é que o UFC me coloca para enfrentar adversários para ver se eles estão prontos ou não para o título naquele momento. Foi assim com o Jailton Almeida: ele vinha numa sequência boa de resultados, colocaram ele para lutar comigo e, depois da luta seguinte, dispensaram ele. Eu estou nesse caminho também. Eu só estou tentando provar que estou evoluindo, que fiquei melhor e melhor. Estou preparado para qualquer luta”, afirmou.

Veterano de 37 anos: histórico no UFC e comparação de tamanho com Pereira

Aos 37 anos, Volkov soma 50 compromissos profissionais no MMA como peso-pesado, com presença marcante na divisão. No cartel dentro do UFC, Volkov venceu nomes como Fabricio Werdum, Alistair Overeem, Jairzinho Rozenstruik e Sergei Pavlovich, em sua trajetória que registra 13 vitórias e 5 derrotas na organização.

Com tanta experiência no peso-pesado, Volkov acredita que Pereira pode encontrar um cenário mais confortável para ele justamente por questões físicas e de adaptação ao tamanho. Segundo o atleta, o corpo e a forma como o peso é administrado podem influenciar diretamente no desempenho, principalmente em uma divisão mais pesada.

“Do meu ponto de vista, eu não quero desrespeitar ninguém. Lutar com o Alex Pereira pode ser mais fácil para mim, mas ao mesmo tempo é uma luta grande se ele vencer. Eu não sei como ele vai se comportar no peso-pesado. Se o corpo dele não tiver características genéticas realmente únicas, vai ser difícil. Eu não sei se é verdade, mas dá para ver fotos dele: ele parece ter muito líquido no corpo, e isso costuma piorar o condicionamento. E, no peso-pesado, como tudo fica mais pesado, você gasta muito mais energia do que gastaria no meio-pesado ou no médio. É uma sensação diferente. Eu acredito de verdade que peso-pesado e qualquer outra divisão são como dois esportes distintos. Você precisa de habilidades diferentes para lutar nessa categoria”, disse Volkov.

Leitura de estilo: Volkov vê Gane com mobilidade e dificuldades para ser pressionado por “Poatan” sem espaço

Volkov também analisou o possível duelo entre Pereira e Gane pelo interino. Para ele, Gane é atlético, se movimenta bastante e tem bom jogo de deslocamento, o que pode gerar problemas para o estilo de Pereira, que empurra o adversário para a grade e tenta acertar sem dar ângulos.

“Colocar o Ciryl Gane contra ele é bem interessante. O Gane é muito atlético e se move bastante. A movimentação dele é ótima. O estilo do Pereira é pressionar para a grade e tentar bater sem espaço. Contra o Ciryl Gane, isso vai ser muito difícil. Eu já encontrei ele no octógono na primeira luta e foi um problema para alcançá-lo, porque ele se mexe demais. Isso foi um problema”, avaliou.

O russo ainda citou que vê vídeos de Gane treinando com boxeadores e kickboxers e destacou que o diferencial do francês não estaria apenas na quantidade de dano que ele causa, mas na forma “sutil” como ele se desloca e cria dificuldade para o oponente durante as trocas.

“Não é só sobre quanto dano ele consegue causar. A gente percebe como ele se move de um jeito inteligente. Durante o combate, quando você acha que vai conseguir acertar com uma pancada e encerrar, mas não consegue tocar nele, isso frustra demais. Eu não sei como o Alex Pereira vai lidar com isso”, afirmou.

“No papel”, Volkov crê ter vantagem contra Pereira e cita evolução em wrestling e trocas

Ao comparar a situação dele com a do eventual duelo de Pereira, Volkov disse que, embora Pereira seja grande, ele próprio seria maior. O russo afirmou que, por ter boa envergadura e chutes fortes, pode ser mais difícil para Pereira do que para o Gane, além de apontar evolução recente em wrestling e habilidades no jiu-jítsu.

“Comparando eu com o Alex Pereira: ele é grande, mas eu sou enorme. Não estou dizendo que ele nunca enfrentou caras como eu. E a postura dele em pé parece mais aberta para esse tipo de lutador grande. Ele está acostumado a lutar contra gente que tenta atacar, não consegue encostar e aí ele contra-ataca com gancho ou uppercut. Mas contra mim fica muito difícil, porque eu sou mais alto, tenho bom alcance e tenho chutes muito bons. Eu estou pronto para chutar. Eu tenho pernas pesadas”, disse Volkov.

“Além disso, agora eu estou trabalhando bastante wrestling. Tenho muito mais wrestling e habilidades no jiu-jítsu. Eu tenho focado muito nisso. Então eu não sei. Claro que tudo pode acontecer e eu posso errar algum golpe, mas no papel eu sinto que tenho vantagem contra o Alex Pereira”, completou.

Volkov lamenta o desvio de oportunidade e critica o cenário envolvendo Tom Aspinall

Mesmo com as opiniões sobre Pereira e Gane, Volkov demonstrou simpatia pelo cenário de Tom Aspinall, que ficou afastado justamente quando havia uma grande chance promocional para ele dentro do UFC. O veterano afirmou que o mais afetado seria o inglês, citando o trabalho que ele vinha fazendo e a sequência de lutas que o colocaram em posição de destaque.

“Na verdade, eu fico mais chateado com o Tom Aspinall. Imagina ele nessa situação. Ele fez tanto pelo UFC, lutou bastante, vinha numa sequência muito boa, mostrou lutas impressionantes para todo mundo, e eu também fiquei impressionado com ele. Eu já lutei com ele: ele era muito forte. E agora aparece o Ciryl Gane, um cara que na prática perdeu para mim. Eu fui roubado e todo mundo sabe disso. Não é algo que eu estou tentando me colocar acima dele: foi um dia ruim para o Aspinall. Ele perdeu para mim, depois foi disputar o título, machucou o campeão, e deveria ter sido desclassificado. Mas o UFC deu para ele outra chance de disputar o cinturão”, declarou.

Volkov continuou dizendo que Gane teria machucado o campeão que era ativo na divisão dos pesados e que, quando Aspinall acabou lesionado, o quadro teria sido grave a ponto de colocar em dúvida retorno e até se ele seria o mesmo atleta.

“Ele machucou o campeão, que era um campeão muito ativo. O Gane deveria ter sido desclassificado. Ele perdeu para mim, machucou o Aspinall. É uma lesão muito séria. A gente não sabe nem se ele vai voltar ao esporte, nem se vai ser o mesmo”, disse.

O russo cita episódios de “padrão” de Gane e diz que Aspinall foi prejudicado por acidente e circunstâncias

Na sequência, Volkov afirmou sentir o impacto emocional do que o inglês estaria vendo: o UFC teria montado um dos maiores combates da carreira de Gane contra Pereira, enquanto o campeão seguia fora. Ele reforçou que sua frustração não é apenas com o confronto envolvendo Gane, mas com o contexto inteiro.

“Eu imagino o quanto o Tom Aspinall está se sentindo vendo essa luta no White House e, ao mesmo tempo, o UFC coloca o Ciryl Gane no maior combate da vida dele contra o Alex Pereira. Não é justo com o campeão. Por isso talvez eu esteja mais decepcionado não porque o Ciryl Gane está lutando com o Pereira, mas porque é toda essa situação. A minha situação está ok: eu estou indo atrás do título. Estou no caminho. Eu entendo onde eu estou. Mas e o Tom Aspinall, que era o campeão e acabou perdendo tudo por causa de uma lesão por acidente?”, afirmou.

Volkov também relembrou que Gane teria repetido comportamentos semelhantes em lutas anteriores, inclusive no duelo entre os dois. Ele disse que, na luta inicial, teria ocorrido um “poke” no olho no último round e que, após isso, teria sido interrompido por uma pausa no combate, mas que, mesmo assim, ele seguiu e acreditava estar vencendo.

“O que o Gane fez na luta contra o Tom Aspinall não é a primeira vez. Ele fez isso em outras lutas antes. Ele fez isso na nossa primeira luta. Essa luta também foi bem apertada. Ele cutucou meu olho no último round, eu tive uma pausa. Foi um combate muito próximo, mas eu tinha certeza de que eu estava vencendo e eu continuei no ritmo, fui seguindo. Eu não quero discutir sobre o quão justo foi o resultado na decisão daquela luta. Eu estou falando fatos. Ele fez comigo a mesma coisa. É o estilo dele: ele faz isso com frequência. Ele tem boas habilidades, mas é um lutador um pouco “sujo””, declarou.

Volkov lembra pressão contra Jon Jones e cita que Gane teria quebrado regras antes

O veterano ainda trouxe o histórico de Gane sob pressão contra Jon Jones, afirmando que, na visão dele, o francês teria se desorganizado rapidamente. Para Volkov, isso reforçaria a ideia de que as chances dadas em disputas por cinturão não teriam sido plenamente justificadas.

“A gente viu também como ele se comporta sob pressão grande com o Jon Jones. Ele ficou como um gatinho, foi quebrado muito rápido. Então ele já teve algumas oportunidades de título e não pareceu tão bem quando a pressão veio. A gente viu o combate do Jon Jones, a gente viu o duelo dele com o Tom Aspinall. Ele quebrou regras e o UFC colocou ele de novo. Eu não entendo essa política. Isso me decepciona”, disse.

Volkov fez questão de separar a crítica ao cenário do que seria, na prática, uma avaliação pessoal de caráter. Ainda assim, reforçou que sua decepção seria especialmente com Aspinall, porque, na visão dele, o inglês seria o grande desafio atual dentro do UFC.

“Eu não quero falar nada pessoal do Ciryl Gane. Eu só estou relatando fatos do que aconteceu. Eu estou um pouco chateado pelo Tom Aspinall, porque ele é o maior desafio hoje no UFC. Eu vejo ele como um lutador bem completo. Eu quero enfrentar ele um dia para fazer a revanche e entender se eu evoluí depois da nossa primeira luta”, concluiu.

Foco final: Volkov quer vencer Cortes-Acosta e usar a vitória para abrir caminho ao título

No fim das contas, Volkov afirmou que tudo o que importa é entrar no octógono neste sábado, fazer seu trabalho e superar Waldo Cortes-Acosta com eficiência, na tentativa de finalmente garantir uma nova oportunidade pelo cinturão do UFC.

“Primeiro de tudo: eu tenho que vencer o Waldo Cortes-Acosta. Ele também é um guerreiro muito bom. Ele tem um golpe pesado, tem habilidades incríveis. Eu vejo ele como um adversário bem duro. Então, antes de tudo, eu preciso passar por ele. Eu não quero ficar pensando no que vem depois antes dessa luta; vamos ver o que acontece”, declarou.

Volkov completou dizendo que, em lutas, qualquer coisa pode acontecer a qualquer segundo e que prefere manter o foco no processo diário, com disciplina e dedicação para evoluir.

“Talvez não aconteça nada bom (risos). Isso é MMA: tudo pode virar a qualquer momento e não dá para prever. Eu não quero falar demais e depois ter que responder para esse mundo. Eu só faço meu trabalho. Eu faço isso todo dia, com disciplina, colocando tudo na mesa para ser a melhor versão de mim mesmo. É isso que eu faço”, finalizou.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.