Alex Pereira e o poder da disponibilidade: prontidão que faz a diferença no UFC

“Your best ability is availability” é daqueles ensinamentos repetidos à exaustão em acampamentos, coletivas e conversas de bastidores — e, depois de ouvir tantas vezes, a frase acaba soando quase automática. Só que, no esporte, ela ganha sentido real: por mais talento que um atleta tenha, se ele não entra em ação, nada do que foi construído importa. Estar pronto para competir, responder ao chamado e manter consistência é o que abre portas, aumenta as chances e sustenta oportunidades.

Um exemplo que traduz isso com força é a trajetória de Alex “Poatan” Pereira dentro do UFC. Antes de chegar ao MMA, o brasileiro já havia conquistado o topo no kickboxing, sendo campeão mundial em duas categorias. A transição para as artes marciais mistas o levou, então, ao octógono — e a rivalidade histórica com Israel Adesanya acelerou sua escalada. Ainda assim, desde a chegada à organização, Pereira virou um dos nomes mais confiáveis do elenco quando o assunto é disponibilidade e desempenho, aproveitando cada chance para ampliar o próprio legado e seguir perseguindo feitos maiores.

E agora, ele quer fazer isso novamente em um cenário simbólico: a Casa Branca.

Nas palavras do campeão

Em declaração dada no início do mês, Alex Pereira destacou o significado do momento e a ideia de que todo o trabalho acumulado está sendo recompensado. Para ele, não se trata apenas de estar no lugar certo, mas de transformar esforço em oportunidade: “Para tudo que eu fiz dentro da organização, para todo o trabalho e todo o esforço que eu coloquei, significa muito. Dá para ver que o serviço foi bem feito e que as oportunidades continuam chegando. Então é mais uma chance para mim”.

O “Poatan” sempre encarou a preparação com seriedade e, na maioria das vezes, foi capaz de produzir os resultados necessários para avançar mais um degrau. Ao mesmo tempo, havia um fator que ajudou a manter o ritmo: quando o UFC chama, ele está pronto para atender.

Consistência que virou combustível

Ao longo dos primeiros 371 dias como atleta ativo na organização, Pereira lutou a cada quatro meses. Nesse período, fez a estreia e, depois, derrotou Adesanya para conquistar o cinturão dos médios. A revanche aconteceu cinco meses mais tarde, e então, três meses depois, ele estreou na categoria dos meio-pesados com vitória sobre Jan Błachowicz. Com a saída de Jamahal Hill do posto por necessidade de abrir mão do título, “Poatan” se colocou imediatamente no caminho para encarar Jiri Prochazka pelo cinturão — apenas 364 dias depois de ter tirado Adesanya da rota do título.

Nos dois primeiros anos no UFC, Pereira acumulou sete lutas em duas divisões, comandando três eventos numerados e conquistando dois cinturões. Tudo isso enquanto reagia a um nocaute sofrido que poderia ter travado a carreira de muitos. Depois, ele seguiu no papel de principal atração, desta vez no UFC 300 contra Hill, e derrotou Prochazka novamente na revanche menos de três meses depois, fechando a International Fight Week. O maior intervalo desde que chegou à organização — antes do atual período de pausa — ocorreu entre lutas contra Magomed Ankalaev, e ainda assim foi de sete meses, marca que se tornou comum entre campeões nos últimos anos.

Mesmo com críticas de que alguns pesos-pesados poderiam argumentar que ele foi levado rapidamente a uma chance de título na estreia por divisão, o cenário é diferente: Pereira construiu o direito de estar ali com ritmo. Afinal, ele lutou uma dúzia de vezes nos últimos quatro anos, entregando espetáculo sempre que subiu ao octógono. Ele também não se retirou de nenhum compromisso, acumulou finalizações marcantes nos anos recentes e, em 75% de suas aparições, esteve em lutas principais com caráter de disputa de cinturão.

O que essa oportunidade representa

Esse tipo de regularidade — a capacidade de aparecer quando precisa — costuma empurrar o atleta para a frente da fila. Agora, Alex Pereira quer usar a chance mais recente não apenas para tentar escrever mais uma página histórica, mas também para colocar em evidência a própria narrativa de superação.

Segundo o brasileiro, ele acredita que merece estar no local e entende o momento como uma oportunidade dupla: buscar o marco e mostrar quem ele é por trás da performance. Ele afirmou: “Nós merecemos estar aqui. É mais uma oportunidade, uma chance de fazer história, mas também (uma forma) de mostrar a minha história”.

De acordo com o relato, Pereira cresceu nas favelas, abandonou a escola e desenvolveu um problema sério com bebida ainda no começo da vida adulta. Ele só encontrou o kickboxing em 2009 como uma alternativa para conseguir lidar com o alcoolismo e virar a chave. Uma década depois, já havia se transformado em uma das maiores estrelas do esporte — e agora, “Poatan” está diante de um novo passo global, prestes a alcançar algo que ninguém havia tentado até então.

“Eu tenho uma história bonita de superação, de passar por dificuldades”, completou Pereira. “E eu quero conseguir mostrar isso para as pessoas, para que elas consigam ver a história que eu vivi ao longo da minha vida”.

Independentemente do desfecho do próximo mês — vencendo ou perdendo — o que Pereira construiu até aqui na carreira dentro do UFC segue impressionando. Mais do que um competidor de nível altíssimo, com talentos fora da curva, ele também tem demonstrado prontidão para responder ao chamado toda vez que a atenção do UFC recai sobre ele.

E, mesmo que a frase pareça clichê, a realidade confirma: estar disponível realmente faz diferença.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.