Arman Tsarukyan defende Chimaev após derrota e mira revanche no UFC

Havia uma expectativa esmagadora de que Khamzat Chimaev passaria por Sean Strickland com a facilidade de uma lâmina atravessando manteiga. O que aconteceu no entanto foi quase o oposto do roteiro que muita gente imaginou: Strickland conseguiu impor o próprio estilo, transformou o combate num ritmo de jab constante, um trabalho de controle à distância e um desgaste progressivo que, no fim, lhe garantiu uma vitória por decisão dividida, levando o americano para o resultado mais importante da noite e mantendo Chimaev com o fim do sonho de ampliar seu domínio na categoria dos médios.

O debate começou imediatamente, e não é difícil entender por quê. Assim como já ocorreu em outros grandes encontros envolvendo “Tarzan” contra Israel Adesanya, voltou à tona a mesma discussão: foi Sean quem venceu Khamzat, ou foi Khamzat quem deixou o controle escapar? O primeiro round teve um peso claro para Chimaev, mas a partir dali o plano começou a ruir. A parte de maior assinatura do lutador — a investida com foco em quedas e a pressão de luta agarrada — simplesmente não se sustentou. Em vez de tentar repetir um jogo de grappling contínuo, Chimaev passou a trocar mais no centro e, em vez de manter a dominância que o público esperava, acabou entrando no tipo de confronto que favorecia o adversário, que respondeu com uma estratégia baseada em golpes de início de ação e em manter a distância com o jab.

Nos bastidores, a explicação dada pelo parceiro de treino e corner Arman Tsarukyan foi direta — ao menos na forma como foi publicada. Em uma mensagem nas redes sociais, Tsarukyan afirmou que a equipe lutou “com o coração” e sugeriu que todos os que acompanharam o duelo entenderiam o que realmente ocorreu. A mensagem ainda trouxe uma provocação ao mundo do MMA, ao mesmo tempo em que confortou o campeão: “Cabeça erguida, campeão. Você vai recuperar seu cinturão em breve”. A pergunta que fica, porém, é o que exatamente seria “tão óbvio” a ponto de tornar todo o cenário compreensível sem necessidade de maiores detalhes.

Uma das hipóteses levantadas gira em torno do peso. Tsarukyan já havia comentado anteriormente que Chimaev passaria por um corte de 46 libras. Em um contexto de preparação e performance, esse tipo de redução costuma deixar marcas no corpo, tanto na energia quanto na capacidade de manter intensidade por rounds, e por isso é um elemento que dificilmente pode ser ignorado. Ao mesmo tempo, vale lembrar que “Borz” não é um novato em situações difíceis de camp e, se há algo para responsabilizar, a própria gestão do período de preparação e do cronograma entra na conta. Ainda assim, o tema do corte não aparece sozinho no enredo: também houve bastante conversa sobre uma possível mudança de categoria, com Chimaev subindo para o peso-meio-pesado para encarar Jiri Prochazka, que estaria em disputa pelo cinturão vago dos 205 libras. No fim, a decisão da organização foi diferente. Prochazka foi escalado para enfrentar Carlos Ulberg em abril, enquanto Chimaev acabou ficando com a defesa do título dos médios marcada para maio. Quando essas escolhas foram feitas — e a liga, em diversas ocasiões recentes, opta por tomar decisões mais perto do prazo — tudo isso poderia colocar o lutador em uma posição delicada para ajustar preparação, estratégia e corpo para a luta seguinte.

Outro ponto que ganhou força nas discussões pós-combate envolve a estrutura do treinamento. Há anos Chimaev é acusado por parte do público de ter passado por excesso de atividades e desgaste ao longo dos camps. E, nesse contexto, a figura do preparador físico Sam Calavitta aparece com frequência. Calavitta foi alvo de acusações de “queimar” atletas durante a preparação, e uma entrevista antiga com o ex-aluno Cub Swanson voltou a circular depois dessa segunda atuação questionável de Chimaev sob a tutela do treinador. Swanson, em seu relato, foi contundente: disse que perdeu todas as lutas que treinou com o “Coach Cal”, ainda afirmando que não era exatamente uma crítica ao método em si, mas sim o resultado que ele sentiu na própria condição. O ex-desafiante explicou que aprendeu muito com o treinador, que o considerava quase um gênio em certos aspectos, mas que o volume o levava a um estado de exaustão antes mesmo do momento principal. Segundo Swanson, não havia um “taper” adequado: era um ciclo de desgaste contínuo, no qual a sensação no fim do camp era de que o corpo já tinha lutado por meses, e quando chegava o combate a energia parecia estar “vazia”.

Com tantas acusações em volta de preparação pesada e de um ritmo que não dá margem para recuperação total, não surpreende que parte do público tente conectar os pontos e perguntar se esse foi o fator que custou a Chimaev o desempenho na noite do UFC 328. A dúvida central, no fim, é se a queda de intensidade, a falta de sustentação do jogo de quedas após um começo forte e o fato de o lutador não conseguir manter o que o tornava dominante estavam ligados ao desgaste do camp. O que já está claro é que, independentemente de qual seja a explicação “óbvia” citada por Tsarukyan, o resultado dentro do octógono não favoreceu Chimaev: ele pareceu hesitante, aparentou cansaço em momentos decisivos e a força lendária que assusta adversários não atravessou o primeiro round com a mesma força, perdendo impacto conforme o combate avançou.

Depois de duas apresentações abaixo do esperado, a expectativa agora recai sobre quem está ao redor do lutador. Se houve um erro de planejamento, um ajuste inadequado ou um problema de condição física, alguma mudança precisa acontecer. Porque, para quem construiu reputação com desempenho dominante e explosões que viravam a luta rapidamente, o que foi visto nesse duelo não conversa com a versão mais temida de Khamzat Chimaev — e o recado do resultado por decisão dividida é tão direto quanto o próprio octógono: algo precisa ser ajustado, e rápido.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.