Chris Padilla viveu, neste ano, uma das situações mais estranhas da história recente do MMA — e, ao mesmo tempo, algo que acabou sendo positivo para o lutador. Mesmo com o susto que tomou conta do público e da cena depois que o resultado foi alterado minutos após o fim da luta, o americano (com cartel de 4-0-1 no UFC) tratou a noite em Miami como mais uma oportunidade de entregar um bom espetáculo.
No começo do mês, como os palpites já indicavam, Padilla saiu com a mão erguida após vencer Marquel Mederos em decisão majoritária no UFC 327, em Miami. Os números do combate apontavam para um triunfo claro. Porém, poucos minutos depois, os narradores do evento comunicaram que houve um equívoco cometido por Bruce Buffer e que, na verdade, a luta deveria terminar como empate majoritário.
O comunicado chocou boa parte da comunidade do MMA — mas, segundo Padilla e sua equipe, o impacto foi menor do que se imaginava. O lutador afirmou que, no momento em que tudo começou a “desandar” no pós-luta, ele ainda tinha a sensação de que havia vencido e que continuou pressionando mesmo quando a luta se aproximava do fim.
“Eu só queria lutar três rounds”
Padilla relatou que estava satisfeito com a atuação e que chegou a pensar no próprio plano de jogo como algo simples: lutar, trocar e tentar encerrar a luta no tempo que tivesse pela frente. O atleta também comentou como as perguntas do público durante o combate influenciavam o clima do octógono.
“É muito difícil só sentir que está tudo certo, sabe? Mas eu fiquei muito feliz por ter feito uma apresentação empolgante. Eu estava feliz por ter entrado lá para lutar de verdade: dar cotoveladas, joelhadas, fazer tudo. Eu só queria viver esses 15 minutos. Enquanto a luta rolava, os fãs o tempo todo me perguntando: ‘Você quer finalizar?’. E, sinceramente, eu ficava dizendo que queria que fosse até os três rounds, porque eu acabo finalizando muita luta. Só que eu não luto com tanta frequência. Então eu falei: ‘Cara, eu só quero lutar três’. E na minha cabeça eu sabia que eu tinha lutado até o fim, e ainda assim continuei empurrando. Eu pensei: ‘Ok, essa é a minha vitória’. Quando levantaram minha mão, foi tipo: ‘Sim’”, disse Padilla.
O momento em que ele percebeu a mudança de decisão, porém, pegou o lutador de surpresa. Ele descreveu o pós-batalha como um “descarrego” de adrenalina e explicou como a equipe médica e os treinadores se viraram diante da informação inesperada.
“Eu saí do octógono… era aquele efeito de adrenalina indo embora, o corpo já começa a desmontar. Tudo que não doía no começo começa a doer agora. Eu consegui ficar deitado e ouvi meus treinadores enquanto eles estavam fechando meu rosto com pontos. Aí, eu ouvi: ‘O quê? Como assim é empate?’. E meus treinadores começaram a surtar. Eu só fiquei ali. Eu queria reagir também, mas tinha uma agulha no meu rosto, então nem dava. Eu realmente não consigo nem explicar. Não dá para entender como alguém enxergou isso de outro jeito, como um empate, mesmo com ou sem a tal pontuação que tiraram. Quase parece que isso barateia a minha argumentação, porque eu penso: ‘Então se não tivessem tirado esse ponto, eu teria perdido?’. Como? Olha os números. Olha tudo”, completou.
Como os juízes anotaram e por que o resultado surpreendeu
Para a luta, os jurados responsáveis pela decisão foram Derek Cleary, Solimar Miranda e Eliseo Rodriguez. Na somatória das parciais, o placar final ficou registrado como 28-28, 29-27 e 28-28. Na prática, isso sustentou o empate majoritário que foi anunciado posteriormente.
Mesmo com o formato que terminou oficialmente no empate, muita gente que acompanhou o confronto acreditava que Padilla venceria com folga. Observadores apontavam placares como 30-27 ou 29-28 para o brasileiro — e, com a dedução de ponto de Mederos por repetidas investidas com golpes na região dos olhos, a expectativa geral era de que Padilla teria o triunfo assegurado.
A visão de Padilla sobre “onde poderia ter sido diferente”
Sem concordar com a interpretação que levou ao empate, Padilla afirmou que não enxerga em qual momento o adversário conseguiria superá-lo. Ele citou as parciais, destacando que a segunda rodada teria sido a mais distante em termos de vantagem e que, mesmo no terceiro assalto, o intervalo teria sido o menor.
“Eu não vejo onde ele poderia ter me vencido. A rodada mais parelha, olhando só números, foi a terceira. Foi a mais próxima. Na segunda eu abri muito dele. Na primeira eu também estava na frente. E na terceira, quando mostraram a contagem de golpes pela última vez, eu pensei: ‘Eu estou cinco golpes à frente’, e ainda faltavam mais de dois minutos para acabar. Se você assistir, dá para ver que eu sigo indo mais e mais à frente na luta. Eu acho que ele fez uma luta boa, mostrou coisas positivas, teve várias habilidades. Mas era a minha luta. Se você assistir o Markel, não era o tipo de luta que ele queria”, declarou Padilla.
O lutador também deixou claro que, apesar de não saber como o processo seguirá, gostaria que a organização responsável pela fiscalização do estado aplicasse uma revisão para tentar corrigir o resultado e, assim, ajustar a decisão.
Pedido para rever e “colocar o certo no lugar do errado”
Padilla afirmou que seu desejo é que “o erro seja corrigido”, sem transformar o episódio em uma briga pessoal com alguém. Ele disse que não quer atacar pessoas e que a principal preocupação é entender como o quadro de visão foi tão diferente entre a leitura da comunidade e a dos juízes.
“Eu queria que o que está errado ficasse certo. É isso. Eu não estou tentando sair por aí para colocar ninguém em apuros, nem para sair atacando. Não é para chamar alguém de burro, ignorante ou coisa assim. É só para a gente olhar direito, de verdade. Eu não consigo nem dizer o que os jurados estavam vendo. Eu nem conheço os juízes. Não sei qual é a formação deles, o histórico em treinamento, luta, artes marciais, nada disso. Só não entendo como toda a comunidade consegue enxergar uma coisa, mas três caras — que eu imagino que façam parte da comunidade — enxergam algo totalmente diferente. Você entende o que eu quero dizer? Então eu vou deixar meu gerente fazer o trabalho dele”, disse Padilla.

